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A sala de livros raros da biblioteca Oliveira Lima, na Catholic University of America, em Washington Divulgação

Biblioteca reinaugurada nos EUA reconta a história do Brasil moderno

A sala de livros raros da biblioteca Oliveira Lima, na Catholic University of America, em Washington
Divulgação

ESTELITA HASS CARAZZAI
DE WASHINGTON

Nos últimos dois anos, o subsolo da biblioteca central da Catholic University of America, em Washington, foi pouquíssimo frequentado.

À exceção, talvez, do fantasma de Manoel de Oliveira Lima (1867-1928), diplomata, jornalista e intelectual brasileiro, que doou seu acervo à universidade.

“Acho que ele vive aqui”, brinca a brasileira Duília de Mello, vice-reitora da instituição, entre prateleiras repletas de títulos em português.

Nesta quarta (31), os milhares de livros, quadros, itens pessoais e correspondências do pernambucano serão novamente expostos ao público, com a reinauguração da biblioteca Oliveira Lima.

É um arquivo único sobre a nacionalidade brasileira, guardado em plena capital americana, onde Oliveira Lima viveu e onde seu corpo está enterrado, ao lado do de sua mulher, Flora.

O extenso acervo reconta a história do Brasil moderno, com a transição da Monarquia para a República, o esforço de modernização do país e a construção de uma identidade nacional.

Oliveira Lima ficou conhecido como o “embaixador cultural do Brasil”: organizava eventos de divulgação de obras literárias e

Livro de visitas de 1926, com registro da passagem de Gilberto Freyre pela biblioteca
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musicais brasileiras pelo mundo e mantinha um compulsivo arquivo de suas realizações.

O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) o chamava de “Dom Quixote gordo”, pelo seu pendor por causas improváveis –e pelos seus generosos contornos.

“O acervo emociona porque dá a dimensão humana de um intelectual”, afirma a pesquisadora Nathalia Henrich, biógrafa do diplomata e hoje residente na biblioteca, que ficou dois anos fechada por falta de recursos para contratar funcionários.

Ela conta que ainda precisa controlar as lágrimas cada vez que abre uma caixa –nem todo o acervo foi catalogado, o que rende descobertas diárias.

Num dos momentos de “eureca”, Henrich encontrou uma ilustração original do artista Antonio Parreiras (1860-1937): um desenho de Iracema, a personagem eternizada por José de Alencar.

Ela estampa um livro de 1910 sobre literatura brasileira escrito pelo belga Victor Orban –cujo prefácio, adivinhem, é de Oliveira Lima, e versa sobre a importância de traduzir a obra nacional para outras línguas.

Assinatura de Gilberto Freyre (a segunda de cima para baixo) no livro de visitas da biblioteca
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Membro da Academia Brasileira de Letras, Oliveira Lima trocava cartas com Machado de Assis, Lima Barreto e outros intelectuais da época, as quais também estão no acervo da biblioteca.

Algumas estão apensas a primeiras edições de clássicos da literatura brasileira, a maioria com dedicatórias.

Entre as peças mais curiosas, estão álbuns de colagem feitos pelo diplomata, que juntava recortes de jornais, cartas e fotos a respeito de temas específicos, como o traçado da fronteira no Acre e a repercussão da publicação de seus livros. Uma espécie de “scrapbook” vitoriano.

A biblioteca em Washington foi aberta quando Oliveira Lima ainda era vivo, em 1924, e alimentada depois por sua viúva, Flora, que viveu até 1940 e era sua grande companheira intelectual.

O plano da universidade agora é captar recursos para a construção de um novo prédio, além da digitalização completa do acervo e da transformação da biblioteca em um centro de estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos.

Texto por Estelita Hass Carazzai

Fonte: Folha de S. Paulo

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