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A saga das bibliotecas brasileiras

Dênio SImões/Agência Brasília

Texto por Iriam Starling

Em 29 de outubro se comemora o Dia Nacional do Livro, data da inauguração da Biblioteca Nacional, que já foi muito maltratada, relegada a depósitos úmidos e inadequados, o que causou uma grande perda do seu acervo ao longo do tempo.

As bibliotecas só começaram a surgir no Brasil a partir da segunda metade do século XVI, em Salvador, com a instalação do Governo Geral. Graças às companhias religiosas, principalmente à Companhia de Jesus, surgiram os primeiros acervos no país, que se tornaram centros de cultura e formação intelectual. De lá para cá, as bibliotecas brasileiras vêm sofrendo altos e baixos e só não sucumbiram completamente devido à luta de bibliotecários e aficionados por livros.

Com a expulsão dos Jesuítas do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1773, e o consequente confisco de seus bens, as Bibliotecas se tornaram amontoados de livros que se deterioraram com o tempo. Somente depois da vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1807, a Biblioteca Nacional foi inaugurada, graças ao encarregado da biblioteca real, Alexandre Antônio das Neves, que sugeriu ao príncipe Dom João que despachasse os caixotes de livros para o Brasil. Porém, somente em março de 2011os primeiros 230 caixotes foram embarcados para a colônia e a biblioteca foi efetivamente aberta ao público em 1814, ou seja, 7 anos após a chegada da família real.

A primeira biblioteca de caráter genuinamente público, no Brasil, foi a Biblioteca Pública da Bahia, fundada no dia 13 de maio de 1811, por iniciativa de um rico senhor de engenho, Pedro Gomes Ferrão Castelo Branco e de um grupo de homens inteligentes e cultos que, às escondidas, liam em clubes maçônicos livros franceses com ideais iluministas. Apesar da louvável iniciativa, a biblioteca ficou abandonada até 1820. Em 17 de novembro de 1900 ela foi transferida para o Palácio Rio Branco e, em 1911, no seu centenário, já contava com 42 mil volumes, mas apenas 300 deles sobreviveram ao incêndio ocorrido em janeiro de 1912. Ela só renasceu em 1939, sob a administração de Jorge Calmon, que se dedicou à sua modernização durante três anos.

É importante que se faça um movimento consistente e duradouro no sentido de incentivar e fortalecer o trabalho das bibliotecas públicas. Mais que uma mera fonte de informação, a biblioteca pública democratiza a leitura e o conhecimento. Sua atuação deve integrar a sociedade e as informações por ela disponibilizadas, promovendo inclusão social e despertar em cada um o prazer da leitura. O mais importante, no entanto, é que as bibliotecas são guardiãs da nossa cultura, nossa identidade, nossa ciência e nossa evolução. Sonho com o dia em que os brasileiros valorizarão os livros como devem ser valorizados, mas temo que não vou viver o suficiente para ver isso.

Até hoje o Brasil não tem bibliotecas públicas em quantidade adequada à sua população e muitas não oferecem serviços de qualidade. Segundo dados do Library Map of The World, uma iniciativa da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA, na sigla em inglês), o Brasil possui apenas 6057 bibliotecas públicas, cerca de uma para cada 34 mil habitantes. Para piorar, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse número sofreu uma queda de quase 10% em quatro anos (de 2014, a 2018).

Infelizmente, também não há uma legislação específica que garanta a existência e o bom funcionamento de bibliotecas públicas em território nacional, coerente com a realidade. A ausência ou mesmo a descontinuidade dos investimentos em políticas públicas para o setor foram ainda mais impactados com e a realocação do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) para a Secretaria da Economia Criativa, dentro do Ministério da Cidadania, dificultando o diálogo e as articulações com esse órgão, no Governo Bolsonaro.

Para agravar a situação, em setembro de 2019, com menos de uma semana para a realização do VI Fórum Brasileiro de Bibliotecas Públicas, que estava programado para acontecer durante o XXVIII Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, nos dias 03 e 04 de outubro, o SNBP comunicou o cancelamento justificando restrições orçamentárias impostas para o presente exercício aos Ministérios.

As pessoas de baixo poder aquisitivo, que já não têm exercício de leitura, também não têm acesso ao livro nem em escolas, nem em bibliotecas, agravando ainda mais o afastamento da leitura. Monteiro Lobato foi certeiro quando disse que “Um país se faz com homens e livros”, mas se esqueceu de um importante fator: homens temos bastante, livros também, no entanto, nada disso adianta se os homens não têm acesso aos livros.

Referências

SANTOS, Josiel, MachadoBibliotecas no Brasil: um olhar histórico. In: Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, Nova Série, São Paulo, v.6, n.1, p. 50-61, jan./jun. 2010.

RIBEIRO, Alexsander Borges. Bibliotecas públicas do Brasil: passado presente e futuro. Porto Alegre, 2008, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

FREITAS, Marilia Augusta; SILVA, Vanessa. Bibliotecas públicas brasileiras: panorama e perspectivas. In: Rev. digit. bibliotecon. cienc. inf. Campinas, SP v.12 n.1 p.123-146 jan/abr. 2014 ISSN 1678-765X

Brasil possiu apenas uma blbioteca pública para cada 30 mil habitantes. Edição Brasil

Fonte: Pensar a Educação em Pauta

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