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USP recebe acervo do ator e diretor Gianfrancesco Guarnieri

Arquivo inclui documentos e manuscritos inéditos, que contam a história do teatro brasileiro no século 20

Acervo doado pela família de Gianfrancesco Guarnieri (detalhe) traz todo o material do escritório do ator e dramaturgo, que inclui sua produção – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

O Centro de Documentação Teatral (CDT) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, destinado a conservar e preservar a memória teatral brasileira, acaba de receber a doação do arquivo de um dos mais importantes nomes das artes cênicas, o ator e dramaturgo ítalo-brasileiro Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006). Casado duas vezes, sua última esposa, a socióloga Vanya Sant’Anna – com quem teve três filhos, Cláudio (Cacau), Mariana (que também seguiram carreira teatral) e Fernando Henrique – morreu em junho de 2017, e por causa disso, a família decidiu doar o acervo de Guarnieri. O arquivo é composto da biblioteca do ator e conta também com documentos e manuscritos, alguns inéditos, além de fotos e objetos, que recuperam a história do teatro brasileiro e de sua vida pessoal.

O filho de Guarnieri, Cacau, foi quem procurou a USP para fazer a doação. Para ele, é um dever dos herdeiros manter vivo esse acervo. Inicialmente, o contato foi feito com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que indicou o Centro de Documentação Teatral, local especializado na guarda de acervos desse tipo. “Diferente do IEB, que pensa em arquivos pessoais de intelectuais, o Centro de Documentação Teatral reúne acervos pessoais e institucionais especialmente sobre teatro, incluindo todos os tipos de documentos e objetos”, informa a professora Elizabeth Azevedo, professora do Departamento de Artes Cênicas da ECA e coordenadora do CDT.

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Programas de peças de Gianfrancesco Guarnieri e de outras obras teatrais a que ele assistiu fazem parte do acervo – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens
 
Programas de peças de Gianfrancesco Guarnieri e de outras obras teatrais a que ele assistiu fazem parte do acervo – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens
Programas de peças de Gianfrancesco Guarnieri e de outras que ele assistiu – Acervo de Gianfrancesco Guarnieri – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

Programas de peças de Gianfrancesco Guarnieri e de outras obras teatrais a que ele assistiu fazem parte do acervo – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens
Fotografias feitas na Itália, em 1934, mostram Guarnieri criança: acervo ainda precisa da ajuda da família para identificação das imagens – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens
Até agora, foram recebidas cerca de 25 caixas, que estavam guardadas na casa de Vanya e Guarnieri, na Serra da Cantareira, mas ainda se espera pela chegada de outros materiais, que estão sob a posse de familiares e que também ficarão sob a guarda do Centro de Documentação Teatral, como conta Elizabeth. Segundo ela, nesse primeiro lote está basicamente a produção de Guarnieri. “Era o escritório do Guarnieri”, ressalta Cacau, acrescentando que, para toda casa que ele mudasse, levava esse mesmo escritório. Cacau está fazendo a intermediação para o resgate do material que ainda está com a primeira mulher de Guarnieri, a jornalista Cecília Thompson, que cobre o período de 1964 e 1965, com as peças A Semente e Eles Não Usam Black-Tie, além da fase do Teatro de Arena. “É claro que pessoas que conviveram com meu pai, colegas de palco, de dramaturgia e de grupo, ainda podem contribuir com o acervo”, diz.

O arquivo está em um processo inicial, no qual os documentos passam por higienização e recuperação, além da desmetalização (todos os grampos e metais são retirados). “Um bolsista vai trabalhar exclusivamente nesse conjunto documental para agilizar a disponibilização para os pesquisadores”, afirma Elizabeth, referindo-se ao estudante Gabriel Fortunato, do curso de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A professora acrescenta que mesmo nessa fase é possível consultar o acervo, “com todo o cuidado”, e que até o final do ano todos os documentos já deverão ter passado pelo processo de acondicionamento e disponibilização. O CDT ainda contou com o apoio do diretor da ECA, professor Eduardo Monteiro, ganhando mais salas.

Vida e obra

O Prêmio Molière recebido por Gianfrancesco Guarnieri em 1973 como melhor autor de peça nacional – Acervo de Gianfranceso Guarnieri

Gianfrancesco Guarnieri nasceu em 6 de agosto de 1934, em Milão, na Itália. Com dois anos de idade, veio para o Brasil com os pais, que fugiam do regime fascista de Benito Mussolini. Líder estudantil desde a adolescência, Guarnieri começou a fazer teatro amador com Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, e um grupo de estudantes de São Paulo que, em 1955, criou o Teatro Paulista do Estudante (TPE), com orientação de Ruggero Jacobbi. A ata de criação do TPE, com as assinaturas, incluindo a de Guarnieri, está no acervo. No ano seguinte, o TPE uniu-se ao Teatro de Arena, fundado e dirigido por José Renato.

Guarnieri ficou conhecido em 1958, quando, em crise, o Teatro de Arena de São Paulo conseguiu novo fôlego com o sucesso do seu texto inédito Eles Não Usam Black-Tie, que foi transformado em filme, em 1981, dirigido por Leon Hirszman, e pelo qual recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza. O artista multifacetado, dramaturgo, diretor e ator de teatro, cinema e televisão fez trabalhos memoráveis em cada meio em que atuou, acumulando diversos sucessos e prêmios. Em 2006, ano de sua morte, Guarnieri foi homenageado na 18ª edição do Prêmio Shell de Teatro de São Paulo por sua contribuição ao teatro brasileiro.

Leão de Ouro do Festival de Veneza, que Guarnieri recebeu pela versão cinematográfica de Eles Não Usam Black-Tie (1981), dirigida por Leon Hirszman – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

O Leão de Ouro e outros objetos valiosos, como o Prêmio Molière, que Guarnieri ganhou em 1973 como Melhor Autor de Peça Nacional, e a medalha de Ordem do Mérito Cultural, condecoração outorgada pelo Ministério da Cultura em reconhecimento às contribuições à cultura brasileira, também vieram nesse lote. Há ainda vários álbuns de fotos, incluindo imagens feitas na Itália que, segundo Elizabeth, precisam da ajuda da família para identificação. “São fotos dele ainda pequeno, e que dão um contorno humano ao artista”, diz Cacau.

“Ainda serão realizados vários trabalhos de pesquisa, mas, como professora de teatro brasileiro, dá para ver que há muito material inédito, como peças e poesias, e sei que dá para fazer, por exemplo, trabalhos de crítica genética, porque há várias versões de uma mesma peça”, afirma a coordenadora. Segundo Cacau, são vários manuscritos, peças com anotações no rodapé, correção de rubricas, além de prêmios, cartazes, recortes e programas. “Meu pai não guardava muita coisa e não tinha uma preocupação em organizar. Todo material que está no acervo é material de trabalho mesmo, e tem um valor histórico.”

Medalha de Ordem do Mérito Cultural, que Guarnieri recebeu do então presidente Fernando Henrique Cardoso por sua contribuição ao teatro – Acervo de Gianfrancesco Guarnieri – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

Segundo Elizabeth, faltam instituições que se dediquem à preservação da memória teatral e o CDT tem essa missão, que a USP já cumpre com outras áreas científicas, artísticas e culturais, visto o número de museus. “Esse teatro paulista, que dos anos 50 para cá se tornou muito mais relevante do que talvez ele tivesse sido até então, a partir do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), da Escola de Arte Dramática (EAD) e, paralelamente, do Teatro de Arena, do Oficina e de outros que surgiram, tem pouco lugar para preservar sua memória e trajetória”, comenta. E conclui: “Nós temos um papel dentro desse espectro de entidades que ‘lutam’ para a preservação da memória do teatro, e isso é imprescindível para que se continue a fazer pesquisas, revisitar a história e produzir conhecimento”.

Elizabeth Azevedo, coordenadora do Centro de Documentação Teatral e docente do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

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O acervo de Gianfrancesco Guarnieri está no Centro de Documentação Teatral (Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, Bloco B, Sala 13, Cidade Universitária, em São Paulo). Pesquisadores precisam agendar atendimento. Mais informações pelo telefone (11) 3091-8203, pelo e-mail: cdt@usp.br e no site do CDT.

Fonte: Jornal da USP

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