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Uma sociedade que queima livros terá sua liberdade sufocada pela fumaça

Jamil Chade

GENEBRA – John Milton, em seu livro Areopagitica, de 1644, foi duro: “Aquele que mata um homem, mata uma criatura, a imagem de Deus. Mas aquele que destrói um bom livro, mata a razão”.

Silenciar escritores e queimar livros não são práticas novas. Assim fez o imperador chinês Qin Shi Huang, dois séculos antes de Cristo. Joseph Goebbels, em 1933, condenou às chamas autores como Heinrich Mann e Erich Kästner. “Não à decadência e corrupção moral”, bradou, antes de uma cerimônia de queima de obras.

Na Índia, em 2010, ou na Hungria em 2013, grupos de extrema-direita e partidos populistas também promoveram queimas de livros. Cada um por seus motivos. Cada qual escolhendo seus inimigos.

O fogo que arde pode, para alguns poucos, parecer lógico na defesa de seus supostos valores. Mas um sociedade que queima livros, terá sua liberdade sufocada pela própria fumaça daquelas fogueiras.

Hoje, os alvos foram Sergio Abranches e Miriam Leitão, que tiveram suas participações canceladas na Feira do Livro de Jaraguá do Sul. O veto era pelo “viés ideológico” dos convidados, conforme a petição dos próprios moradores do local.

O prefeito da cidade tentou explicar a reação. “Em Jaraguá do Sul, não cai bem a esquerda ou a extrema esquerda perante a nossa população, que é um povo tão trabalhador”, disse, lembrando que “é a favor da democracia”.

Alguns dias antes, Glenn Greenwald foi alvo de um protesto em Paraty em outra feira literária, eventos que parecem estar ganhando o inusitado papel de trincheiras.

Rapidamente, nos tribunais das redes sociais, não foram poucos os aplausos à iniciativa de vetar e ameaçar escritores e jornalistas em eventos destinados a empurrar as fronteiras da liberdade de pensamento.

Bradbury tinha razão ao colocar num de seus personagens frases esclarecedoras. “Um livro é uma arma carregada na casa vizinha”, escreveu. “Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?”.

Na sociedade que ele descrevia, a crítica e a liberdade de pensamento tinham se transformado em crimes. Sorte nossa que não era no Brasil de 2019.

Fonte: Jamil Chade

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