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Uma experiência de jornalismo infantojuvenil no Brasil

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 04/06/2019 na edição 1040

Stéphanie Habrich. (Foto: Divulgação)

Stéphanie Habrich é uma franco-alemã que chegou ao Brasil, junto com a família, aos 8 anos de idade. Como forma de manter os vínculos com a terra natal, o pai, alemão, e a mãe, francesa, assinavam periódicos para o público infanto-juvenil, enviados pelo correio. Veio daí a paixão de Stéphanie por jornais e notícias. E também a inspiração para criar o Joca, um dos únicos jornais voltados para crianças e jovens no Brasil.

Atual diretora-executiva do jornal, Stéphanie é formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, com mestrado em International Affairs pela Columbia University, em Nova York. Atuou oito anos no mercado financeiro em Nova York e no Brasil, em bancos como Deutsche-Bank e BNP Paribas. É fundadora e sócia-diretora da Magia de Ler, organização que produz, desde novembro de 2011, o jornal Joca. A iniciativa busca trabalhar a educação midiática dos jovens e se mantém pela assinatura de pessoas físicas e jurídicas, principalmente escolas.

Na cobertura do rompimento da barragem da Vale do Rio Doce, em Brumadinho, os editores do jornal sentiram necessidade de promover uma ação de empatia com os jovens e crianças da comunidade. A ideia foi pedir aos leitores do Joca que escrevessem cartas para os moradores. Receberam mais de 2.000 mensagens, enviadas com selos para as escolas da cidade caso os alunos quisessem responder. O Joca prepara uma edição especial para a semana que vem com o resultado dessa prática dialógica.

O jornalista Pedro Varoni conversou por e-mail com a diretora-executiva do Joca sobre as motivações da iniciativa e o mercado para esse tipo de jornalismo hoje no Brasil. “Ler jornal desde a infância é uma das maneiras mais eficientes de se manter atualizado sobre os fatos do cotidiano – criando o hábito de fazer isso – e compreender o estado dos acontecimentos no mundo em que vivemos”, analisa Stéphanie na entrevista abaixo.

Qual é a linha editorial do Joca?

Joca é um jornal direcionado especificamente para o público infantojuvenil. Os fatos da atualidade são escritos para esse público em uma linguagem e formato que os torna mais acessíveis e mais interessantes. Isso faz com que a leitura de notícias tenha mais sentido para crianças e jovens. Além disso, contribui para que eles se sintam valorizados ao ter acesso às mesmas informações que os adultos têm, podendo conversar sobre o tema. Dessa forma, em casa, pais e responsáveis também podem estimular as crianças e jovens ao debate, após a leitura de notícias, sobre os assuntos mais importantes do momento.

Os principais focos do Joca são estimular o gosto pela leitura e apoiar a formação de cidadãos, apresentando o conteúdo de maneira lúdica e instigando a curiosidade. Nosso objetivo maior é trazer para a escola esse portador de gêneros variados, como mais um elemento do mundo real a ser explorado por professores e alunos. Isso dialoga com uma concepção educacional que visa formar indivíduos bem informados, críticos e atuantes, que saibam circular no mundo que está aí.

Como o jornal se sustenta? Qual é o modelo de negócio?

Assinatura. Hoje, já estamos em mais de 800 escolas públicas e privadas pelo Brasil como material obrigatório, além de estarmos também nas casas dos assinantes. A maioria das escolas privadas inclui a assinatura do jornal Joca no material obrigatório para o ano, a ser comprado pelos pais.

De onde veio a inspiração e a ideia de criar um produto como o Joca?

Publicações para crianças existem em praticamente todo o mundo. Só na França, são mais de 300 diferentes, divididas entre jovens e crianças de 0 a 18 anos. O Brasil não tem essa variedade de revistas e jornais destinados ao público infantojuvenil. As publicações são poucas (e muitas não existem mais), com pouca diversidade de gosto e interesses, e que muitas vezes trazem temas muito infantis, sendo que o público é carente de mais conhecimento e qualidade.

Na cobertura do crime ambiental de Brumadinho,vocês fizeram um ação com cartas envolvendo as crianças. Como foi o projeto?

O projeto surgiu no mesmo momento em que estávamos fazendo a primeira reportagem de cobertura sobre a tragédia, na segunda-feira seguinte ao rompimento da barragem. Chegamos à conclusão de que, além da necessidade de se informar sobre o que havia acontecido em Brumadinho, nossos leitores poderiam ter uma oportunidade de agir em solidariedade aos atingidos, praticando a empatia, por exemplo. Assim, surgiu a ideia de promover a ação das cartas: convidamos os leitores a escrever mensagens para crianças e jovens de Brumadinho e nos dispusemos a fazer o contato com as escolas da cidade para o envio das cartas.

Recebemos mais de 2.200 cartas, de diversas cidades, que foram enviadas para escolas de Brumadinho junto com selos – caso os estudantes de lá quisessem responder. Diversas mensagens foram respondidas! Fomos até a cidade conhecer algumas das escolas de Brumadinho que receberam e responderam as cartas. O resultado de nossa viagem estará em um material especial que ficará pronto na semana de 10 de junho, quando também vamos atualizar nossos leitores sobre a situação de Brumadinho mais de 120 dias depois do rompimento da barragem.

Mais sobre a ação das cartas você pode ver em dois artigos publicados recentemente na Folha de S.Paulo e no Estadão.

O que a troca de correspondência mostrou?

Uma empatia enorme entre as crianças – uma menina de 8 anos chegou a nos mandar sementes de maracujá, junto a uma cartinha, para que alunos de Brumadinho pudessem replantar e recomeçar. Solidariedade. Interesse por como vivem outras crianças, também brasileiras, passando por momentos difíceis. A certeza de que as crianças têm uma energia incrível e muita empatia. Não podemos desperdiçar essa geração. Jovens e crianças bem informadas entendem o que se passa ao seu redor, formam as próprias opiniões e se tornam cidadãos críticos e ativos, que lutam por seus direitos, cumprem seus deveres e têm as ferramentas necessárias para construir um futuro melhor para o nosso país. Temos que incluir as crianças no debate, compartilhando e discutindo notícias, ensinando-as a buscar fontes confiáveis de informação e a exercitarem o senso crítico. Se perdermos essa geração, que líderes teremos e o que eles farão para o Brasil daqui a vinte anos?

O jornalismo atravessa uma crise em várias dimensões, dos modelos de negócio à perda de credibilidade, numa sociedade marcada pela desinformação. O que a experiência do Jocatraz de reflexão nesse contexto? No que vocês seguem o modelo mais tradicional das práticas deontológicas do jornalismo, no que inovam?

Ler jornal desde a infância é uma das maneiras mais eficientes de se manter atualizado sobre os fatos do cotidiano – criando o hábito de fazer isso – e compreender o estado dos acontecimentos no mundo em que vivemos. Afinal, crianças e jovens podem mudar a direção do futuro. Por isso, essa é uma prática fundamental em qualquer idade e traz, ainda, informações úteis para estudo, trabalho e lazer.

O jornal permite um trabalho muito rico com os eixos de leitura, escrita e oralidade (comentários, debates, exposição oral) e o professor, por meio dele, organiza a leitura, apresenta os diversos gêneros textuais (notícia, reportagem, resenha, entrevista, relato, curiosidades) e promove conversas sobre os assuntos que traz, ouvindo a opinião de todos os alunos.

Danny Rubin, premiado autor e expert em comunicação para jovens, e Assunta Ng, editora do jornal Northwest Asian Weekly, listaram algumas razões para exemplificar a importância da leitura diária do jornal:

1 – Amplia a visão de mundo.
2 – Favorece a criatividade.
3 – Promove o aprendizado de algo novo a cada dia, retardando o envelhecimento.
4 – Aprimora linguagem e escrita.
5 – Dá ao leitor ferramentas para se conectar facilmente a pessoas.
6 – Habilita o profissional a posições de liderança.
7 – É fonte de inspiração, conhecimento e descoberta de soluções para questões variadas.
8 – Desenvolve a capacidade de argumentação, tornando o indivíduo um comunicador à frente de seu tempo.
9 – Forma o pensamento crítico.
10 – A leitura de notícias dá acesso a um esboço do que será a história.

Fonte: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

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