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Um em cada quatro presos é reincidente no Brasil, aponta Ipea

Ex-detentos encontram dificuldades para conseguir emprego, o que torna a ressocialização um desafio ainda maior. Muitos se queixam dos tipos de trabalho oferecidos nas cadeias, já que muitos não os qualificam para o mercado.

Biblioteca do Centro de Progressão Penitenciária de Hortolândia. Foto: Ricardo Gouveia/CBN

Por Ricardo Gouveia

“O castigo físico traz o sentimento de vingança. Uma pessoa que tem o nome na criminalidade não aceita apanhar na cara e ficar por isso mesmo. Então quando o castigo físico vem à tona, com intensidade até, a pessoa não vai pensar em mudança. Vai pensar em vingança.”

A afirmação é de Claudinei da Silva, 34 anos, quase oito deles preso em seis passagens pela cadeia. Ele atribui a ressocialização ao bom tratamento na última unidade por onde passou: o Complexo de Ribeirão das Neves, na Parceria Público-Privada com o governo de Minas Gerais. Ele tinha uma cama só dele e a comida não vinha azeda, nem era devorada por ratos. 

O preso não encontra dificuldades só dentro da cadeia. Conseguir um emprego se torna ainda mais complicado para um ex-detento.

Gilberto Bastos esteve preso duas vezes, 26 anos ao todo. Para ele, não basta trabalhar dentro da cadeia, mas trabalhar em algo que qualifique para o mercado:

“Vai ver a carteira de trabalho. A carteira de trabalho não tem aquele monte de registros. Aí fui fazer uma entrevista e perguntaram para mim: ‘quando foi a última vez que você trabalhou?’. Não tem nem como, vou falar o quê? Os caras vão falar: ‘o cara ficou oito anos sem fazer nada?'”

Ana Paula Fernandes está presa há cinco anos. Na Penitenciária Feminina de Campinas, no interior de São Paulo, ela encontrou o programa Ciranda da Leitura, um dos projetos do governo de São Paulo que estimulam a escrita de resenhas e discussão de livros:”A mente de uma presa quando começa a ler um livro é mudada. Ela começa a ser mais inteligente, mais culta, mais educada e a sentir empatia pelo próximo. Quero fazer faculdade, com certeza. Os livros vão estar comigo mais do que nunca porque Direito é um pouquinho complicado. E sim, eu quero e vou entrar nessa cadeia aqui como advogada.”

A cada dois dias de trabalho ou 12 horas de estudo, o preso recebe um dia de remissão de pena. Uma resolução do Conselho Nacional de Justiça permite que uma resenha sobre um livro renda quatro dias de remissão. Mas a medida depende da aprovação de um juiz. 

Combinando os dados mais recentes da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, que ouviu mais de 5 mil brasileiros em 2015, com os de um levantamento entre detentos feito pela UnB, a constatação é de que presos com acesso a bibliotecas leem nove vezes mais do que a média dos brasileiros.

Quem comanda o projeto Ciranda da Leitura na penitenciária onde Ana Paula vive é a pedagoga Elisande Quintino. 

Dados da Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais indicam que 41% dos presídios brasileiros têm biblioteca. Para Elisande, as autoridades brasileiras precisam entender que o cuidado com a educação é investimento:

“Já que eles estão aqui num ambiente totalmente adverso, que os separa de uma sociedade, da família do trabalho e tudo, eles teriam que aproveitar de uma melhor forma esse tempo. E esse tempo pode ser aproveitado se você oferece de fato atividades que possam colocá-los de forma mais positiva para o mundo lá fora.”

Claudinei da Silva hoje é auxiliar administrativo numa empresa particular. Gilberto Bastos é marceneiro numa fábrica. Já Ana Paula concluiu o Ensino Médio na penitenciária e já prestou o Enem.

Fonte: CBN

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