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Transformar as crianças em personagens das suas narrativas favoritas é o negócio da Dentro da História

André Campelo, Diego Aguiar e Felipe Paniago querem que as crianças tenham experiências imersivas com a literatura.
André Campelo, Diego Aguiar e Felipe Paniago querem que as crianças tenham experiências imersivas com a literatura.

Imagine seu filho, sobrinho ou afilhado recebendo em casa um livro em que ele é um dos protagonistas ao lado de personagens que ele ama. É isso que faz a Dentro da História, uma startup de impacto social fundada em 2016, em Campinas (SP), por André Campelo, 33, Flávio Aguiar, 34, Diego Moraes, 30, e Felipe Paniago, 37. O negócio deu tão certo que eles acabam de ingressar no mercado espanhol com o nome de Playstories.

A Dentro da História é uma editora que funciona por meio de uma plataforma digital em que é possível criar um livro personalizado no qual a criança é um dos personagens. O primeiro passo para fazer a publicação é escolher de qual história a criança vai participar. São 29 títulos ligados a personagens como Turma da Mônica, Show da Luna, Patrulha Canina, Smilinguido, Galinha Pintadinha, além dos 12 principais clubes de futebol do Brasil.

Em seguida, é hora de começar a criar o avatar. É possível escolher o tom de pele, o tipo de cabelo, a cor dos olhos, a roupa, o sapato e os acessórios. Há ainda opções de cadeira de rodas e óculos escuros (para crianças com deficiência) e careca (para aquelas que fazem tratamento contra o câncer). Os traços sempre seguem as características do personagem escolhido.

Depois de criar o avatar, o livro é gerado e antes de clicar em comprar é possível ver como ficou. Pronto! A criança está dentro de uma história em que interage com o personagem e vai receber o livro em casa. O preço é 69,90 reais. Desde 2016, já foram vendidos 250 mil livros personalizados e o faturamento da empresa em 2018 ficou em 12 milhões de reais — o dobro do que foi em 2017.

COMO LEVAR A EXPERIÊNCIA DA IMERSÃO PARA A LITERATURA

Em meio a um mundo digital, em que as crianças parecem já nascer sabendo usar a tecnologia, a Dentro da História acredita que encontrou uma forma de transformar um produto muito presente na realidade infantil — já que o livro faz parte do processo de alfabetização — em algo mais próximo do universo digital que elas tanto adoram.

Os livros da Dentro da História possuem na capa o nome e o avatar da criança.

André e Flávio empreendem juntos desde 2006. Eles são de Campinas, interior de São Paulo, e tiveram juntos uma agência de marketing digital e uma startup chamada Widbook, que era uma rede social de ebooks, pela qual era possível descobrir novas obras e publicar livros eletrônicos de forma gratuita. “Chegamos a ter 400 mil usuários e 60 mil histórias em 73 idiomas diferentes, mas era preciso crescer muito mais para gerar monetizações atrelada a conteúdo”, diz André.

De certa forma, essa empresa aproximou os empreendedores do universo dos livros e das editoras e fez com que eles percebessem que, ao contrário de outros tipos de conteúdo muito consumidos pelas crianças (como áudio, vídeo e games), os livros não tinham uma plataforma que conectasse produtores a consumidores.

Além disso, a indústria do livro não costuma ter experiências imersivas. “A única indústria que já nasceu completamente estruturada para o protagonismo é a do game”, diz o empreendedor. Foi aí que chegaram na ideia da Dentro da História. André fala mais  respeito:

“Queríamos fazer algo com educação, criança e tecnologia. E o conteúdo seria o caminho porque, até os 8 anos, a criança não tem o seu device e usa o tablet ou o smartphone dos pais”

A solução que encontraram foi unir o físico e o digital. A experiência começa no ambiente digital, com a criação do avatar, e termina com um livro impresso chegando na casa da família. “Na mão da criança, esse livro é um device”, afirma. Na plataforma, o processo de criação do avatar se transforma em um game.

Como o clique “comprar” é a última etapa do processo, os pequenos podem testar avatares diferentes em diversas histórias quantas vezes quiserem. Além disso, é possível ver o livro pronto e folheá-lo digitalmente antes da compra. André conta que, até o dia anterior à entrevista, o processo de criação de avatares já tinha acontecido mais de 7 milhões de vezes.

Apenas quando já estavam com o conceito pronto, Flávio e André foram buscar a expertise dos outros dois sócios, Diego e Felipe, que trabalhavam na Móvile, empresa que desenvolve marketplaces mobile. Hoje, Flávio e André cuidam da parte de negócios, Diego, de produto, e Felipe, de marketing e performance.

ELES QUEREM IMPACTAR 10 MILHÕES DE CRIANÇAS ATÉ 2023

O fato de as crianças estarem dentro do livro, lado a lado com personagens que elas gostam, tem impacto positivo no desenvolvimento e na aprendizagem da criança, segundo André. Ele cita uma pesquisa feita em Londres, em 2017, que afirma que os produtos personalizados na primeira infância ajudam os pequenos a aprender mais palavras. Por isso, a questão da identificação é um ponto central:

“Colocar a criança dentro da história tem a ver com protagonismo, pertencimento e identificação. E isso se dá pelo nome, centralidade dela no roteiro e identificação física”

Levando esse ponto em conta, desenvolver novas características para os avatares é algo que está sempre em pauta e evolução. Tem ainda a questão da memória afetiva e das relações familiares. “Os pais são a extensão da escola. Quando eles chegam em casa e vão ler com os filhos, nosso produto ajuda a gerar impacto e boas lembranças para a vida toda.”

O processo de criação do avatar é bem intuitivo e pode ser feito pelas próprias crianças, que escolhem cor de pele, cabelo, olho, roupa etc.

A meta é atingir a publicação de 1 milhão de livros no Brasil em 2019 e impactar 10 milhões de crianças no mundo até 2023. Os desafios são grandes, principalmente no Brasil, onde o hábito de leitura não é muito arraigado e há barreiras socioeconômicas a serem transpostas. “Temos muito para fazer por aqui. Em uma faixa de 0 a 8 anos, são 21 milhões de crianças com as quais podemos trabalhar”, afirma o empreendedor. A estratégia é operar em parceria com fundações e com o poder público para que os livros cheguem a diversas camadas sociais.

A CONEXÃO DIRETA COM O LEITOR DEIXOU A EMPRESA LONGE DA CRISE DO SETOR

A crise das grandes livrarias — que impactou muitas editoras — não passa nem na porta da Dentro da História. O modelo criado permite que a empresa  faça a ligação direta com o usuário final, como diz André:

“Temos um caminho completamente diferente das grandes editoras, porque não geramos custos quando não vendemos e não precisamos de intermediários para fazer a venda”

Esse novo modelo trouxe a vantagem de trabalhar sem o custo do estoque e do distribuidor, mas também trouxe o desafio de criar uma nova cadeia de produção para fazer os livros personalizados. Na Dentro da História, cada livro é um arquivo único que vai para a impressão, o que é uma novidade para o mercado gráfico. André fala mais a respeito: “Essa estruturação de produção não existia. No mercado editorial, quase não existe a possibilidade de fazer um a um, apenas baixa tiragem. Então, a gente precisou trabalhar no desenvolvimento dessa cadeia”.

O primeiro parceiro da Dentro da História foi a Turma da Mônica. O lançamento da empresa foi feito na Bienal do Livro de 2016, em um estande que comemorava os 80 anos do desenhista Mauricio de Sousa. Eles montaram uma gráfica dentro do evento e as pessoas podiam criar a história nos totens instalados no estande e pegar o livro impresso na sequência. Foi ali que os empreendedores testaram, pela primeira vez, o produto.

Em 2018, na Bienal do Livro, a Dentro da História imprimia os livros da Turma da Mônica na hora. Foi o primeiro teste de produto da empresa.

Do investimento inicial de 300 mil reais feito pelos sócios, dois terços, segundo André, foi para essa experiência. “Qualquer livro de empreendedorismo vai te dizer para não fazer isso, mas foi um sucesso.”

Entre livros digitais e cartazes com o avatar criado pela criança, eles fizeram 15 mil personalizações nos dez dias do evento. “Foi uma experiência incrível. Ficamos no estande observando as famílias. E vimos muitas discussões sobre a identificação da criança, que não necessariamente fazia um avatar parecido com ela.”

A rápida aprovação do produto trouxe um novo desafio para os empreendedores: acelerar o negócio antes do que imaginavam. “O primeiro desafio de toda startup é provar que aquilo que ela está fazendo tem sentido. A gente provou nos primeiros seis meses e aí precisamos trazer mais conteúdo.” A partir daí, eles decidiram investir no licenciamento de novas histórias e personagens.

Como atuam com marcas globais, o processo pode demorar. “Algumas aprovações demandam um ano de negociações, porque estamos falando de inovação dentro de uma cadeia global. Existem várias camadas de aprovação”, fala André. Em 2017, havia oito histórias na plataforma e, em 2018, 29. Para 2019, eles esperam chegar a 40, já que há negociações em andamento que devem ser finalizadas ao longo do ano. Os fundadores também têm participado de rodadas com investidores-anjos. André conta que quem está dando suporte para os sócios agora é Peter Vesterbacka, um dos desenvolvedores do Angry Birds.

COM O SUCESSO NO BRASIL, ELES APOSTARAM NO EXTERIOR

De olho no mercado internacional, a Dentro da História lançou, mês passado, a plataforma Playstories, na Espanha. Ela funciona exatamente como a brasileira, mas por enquanto apenas com o licenciamento da Patrulha Canina, que está entre as três histórias que mais fazem sucesso por lá. André conta:

“Ainda tem muito mercado dentro do Brasil, mas a gente entendeu que a inovação criada aqui, por ter conteúdos globais, precisaria ser levada a outros países”

Essa operação internacional é muito recente, então, ainda não há números para compartilhar. Mas a meta é estar em mais cinco países da Europa até o final de 2019. A Inglaterra é o próximo. Flávio está morando fora do Brasil desde junho passado para ficar à frente dessa nova empreitada e eles contrataram, como head da empresa lá fora, Igor Burattini, 33, que mora há mais de dez anos na Finlândia, país que tem o sistema educacional mais avançado do mundo.

Levar um modelo de negócios de sucesso para outro país traz novos desafios, já que a cultura e os hábitos são diferentes. “Para os espanhóis a principal data de compra não é o Natal, mas o dia de Reis, que é 6 de janeiro”, exemplifica André. E completa: “A sensação é que a gente está lançando uma nova startup”. Que venha uma nova empreitada em prol da leitura e da educação.

Fonte: Projeto Draft

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