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Soft skills: porque devemos desenvolver humanidades em Biblioteconomia

Era um dia perdido na memória de julho de 2018, provavelmente estava frio, mas não muito como imaginei que seria meu primeiro inverno no interior do Rio. Antes de me mudar para a cidade de Três Rios, no centro-sul fluminense, imaginei que mudaria para região serrana e que assim como os petropolitanos, meus dias gélidos seriam o cenário perfeito para gastar boa parte do cartão de crédito em roupas novas e pesadas. Ledo engano. Assim como a minha primeira mala de mudança que me fizeram andar de camisas de manga cumprida e tecido de gramatura gaúcha sob sol de quarenta graus. A cidade é mais quente que Bangu e a única coisa que tem em comum com Petropólis é a BR-040.

Depois de ter transformado esse início em uma descrição Tolkieniana totalmente desnecessária e que poderia ter sido resolvida com pesquisas ou telefonemas, aproveito este parágrafo para retomar a minha memória deste dia gélido de julho. Recebi um e-mail que mudaria todo o sentido da minha existência: um pedido de informação sobre a biblioteconomia e o futuro do trabalho pela produção do programa Globo Repórter.

Entendo que estamos em uma época esquisita, em que muita gente tenha revirado os olhos ao ler a palavra Globo, mas lá vamos nós para as minhas memórias afetivas com o programa. Lembro das sextas quando criança em que pernoitava na casa dos meus avós e juntos assistíamos o alecrim dourado sendo semeado enquanto um lobo guará escolhia sua presa lá na misteriosa floresta amazônica, narradas pelo inconfundível Sérgio Chapelin. Assim como, me apaguei fortemente ao programa depois da partida do meu avô e o usei como fortalecedor do meu relacionamento com a minha avó.

Chegava da faculdade correndo para assistirmos juntos as aventuras históricas do queijo, do pão, da serra gaúcha e fazia notas mentais de lugares a se conhecer. Era um alento para fechar o dia após 4h seguidas de normalização documentária. São muitos e muitos anos desejando ter o passaporte da Glória Maria.

Respirei fundo e respondi o e-mail. Que virou um, dois, três telefonemas. E depois mais e-mails. Remarcações de datas. Um processo único para mim que envolveu muita ansiedade, expectativa e principalmente pesquisas.

Virei a louca dos artigos científicos. Li em inglês, espanhol, cacei vídeos em outras áreas, conversei com especialistas. Tudo para me sentir preparada e segura. E dentro de tudo isso percebi que o futuro da biblioteconomia, além da informação, tecnologias, robôs, inteligências artificiais era algo muito mais importante e que a gente tende muito a não valorizar: nossa humanidade.

O que são softs skills e por que são importantes para os bibliotecários?

Sim, caro leitor. Como sempre te fiz ler mil parágrafos antes de entrar de fato no assunto. Assumo. Essa é a minha vida. Esse é o meu clube. Mas vamos lá. Soft skills são habilidades comportamentais, inerentes aos seres humanos. São muito analisadas pelos profissionais de RH para a contratação. Mas quais são essas habilidades? Bem, elas podem ser a criatividade, colaboração, adaptabilidade, inteligência emocional e entre outras que vamos comentar mais abaixo. Inclusive para Daniel Goleman, o pai da inteligência emocional, as soft skills são competências baseadas nas competências socioemocionais.

Alguns diriam que as soft skills são as coisas que a gente fala quando não se tem hard skills, as habilidades técnicas, para se glorificar ou até mesmo para suprir a falta da experiência profissional. Mas ao meu ver, as soft skills resgatam a humanidade envolvida nos processos em uma era em que IAs, IoT, algoritmos e outras muitas tecnologias fazem a parte técnica acontecer, em milionésimos de segundos. Algo humanamente impossível de superar . É claro que para o mercado, é importante dominar as hard skills e ninguém vai ser contratado só porque consegue sentir o outro. Os profissionais do futuro, para mim , do presente, precisam dominar os dois lados. Afinal, é tudo uma questão de equilíbrio.

As 5 principais soft skills do bibliotecário

  1. Colaboração: viver em biblioteca significa também viver em comunidade. Além de conviver com uma equipe na biblioteca, precisamos conhecer e colaborar com outros setores em que estamos inseridos. E lembrar que somos parte de uma classe. A de bibliotecários. A nossa colaboração nos fortifica e nos faz maior. Bibliotecários que possuem a capacidade de colaborar, ampliam a sua atuação e se fazem presentes.
  2. Resiliência: uma vez escrevi que não acreditava em resiliência, pelo significado físico do termo. Para a ciência, resiliência é a capacidade da matéria em voltar ao seu estado original, mesmo após receber alguma interferência. Eu discordo, na humildade, porque acredito na memória do objeto, na memória da matéria. E a memória, assim como os metadados de qualquer informação, jamais será filosoficamente a mesma. Mas aprendi durante a pandemia que a resiliência é mais que voltar em seu estado original. É a capacidade que temos de sermos fortes, de aguentar as adversidades e problemas. A Biblioteconomia para existir no século XXI precisou ser muito resiliente. Para continuar existindo no presente e no futuro precisamos continuar fortes.
  3. Liderança: ser líder não significa saber mandar outras pessoas. O conceito de liderança se fortificou e evoluiu ao longo dos anos. Mas isso qualquer pessoa que tenha lido Augusto Cury ou tenha caído na armadilha da reunião da Hinode já compreende bem. A liderança promove o fortalecimento de outras habilidades pessoais pertinentes como a: responsabilidade, proatividade e independência. O bibliotecário líder influencia positivamente e motiva sua equipe e seus pares; tem a capacidade reconhecer os talentos da sua equipe e gerenciá-los; aprimora habilidades de terceiros; consegue se autogerenciar e ter processos fluídos para tomadas de decisão; tem objetivos e metas claras; entre outros.
  4. Empatia: essa é a palavra do momento. Empatia é capacidade ou habilidade que o ser humano tem de se colocar no lugar do outro. Não é só ‘ah, eu entendo você’. Ter empatia é se livrar de todos os pressupostos e preconceitos, esvaziar-se de si e preencher-se do outro. É ver o mundo através dos olhos, do corpo, da dor do outro. É uma das habilidades mais humanas que possuímos. É a que nos torna pessoas. Ser empático em biblioteconomia é mais que entender o problema de pesquisa do seu usuário. É compreender o usuário. A comunidade. Se colocar no lugar deles e criar mais que serviços, é criar redes, criar uma comunidade. Aliás, um dos bibliotecários mais incríveis que conheço, David Lankes afirma “bibliotecas ruins fazem coleções, bibliotecas boas realizam serviços e bibliotecas excelentes criam comunidades”.
  5. Comunicação eficaz: é comum nas grades curriculares dos cursos de Biblioteconomia as disciplinas voltadas para comunicação em que analisamos as teorias da comunicação, seus ruídos e problemas. Inclusive, foi durante uma aula de comunicação que eu percebi que era uma bibliotecária. Sabemos então que a comunicação é um processo que compreende a troca de informação entre um interlocutor e um receptor. É o nosso primeiro processo social. Nascemos chorando para transmitir a mensagem ao mundo de ‘que droga, reencarnei de novo?’. Brincadeiras à parte, analiso que a comunicação é a soft skill mais importante para a nossa sobrevivência no mercado. A comunicação eficaz é muito além que transmitir uma mensagem a alguém. É compreender e mediar todo o processo envolvido. É conseguir compreender o usuário (empatia!) e levar a informação (seja ela qual for) da maneira que gere menos ruído possível. O quanto a máquina vai conseguir estabelecer isso?

Como aprimorar as soft skills?

Primeiro de tudo precisamos nos olhar no espelho e nos conhecer. Dessas habilidades necessárias, quais eu naturalmente tenho? É um processo de autoconhecimento. Sinceramente acredito que não há nada melhor que terapia para nos compreender, mas não é só isso que vou recomendar aqui.

Por ser habilidades humanas, não é só fazer um curso ou ler, elas precisam ser vivenciadas e exploradas ao longo do tempo. Mas leituras e cursos são primordiais para a compreensão de cada uma delas. Compreender é o primeiro passo para aprender, apreender e reconhecer durante o processo de viver. Conheça abaixo alguns livros e cursos indicados para saber e dominar mais as soft skills:

Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente – Daniel Goleman

Este livro transformou a maneira de pensar a inteligência. Alterou práticas de educação e mudou o mundo dos negócios. Das fronteiras da psicologia e da neurociência, Daniel Goleman trouxe o conceito de “duas mentes” – a racional e a emocional – e explicou como, juntas, elas moldam nosso destino. Segundo Goleman, a consciência das emoções é fator essencial para o desenvolvimento da inteligência do indivíduo.

Inteligência social: a ciência revolucionária das relações humanas – Daniel Goleman

Goleman explica neste novo best-seller a surpreendente precisão de nossas primeiras impressões, explora o carisma, confronta a complexidade da atração sexual e também descreve “o lado sombrio” da inteligência social, do narcisismo ao maquiavelismo e à psicopatia. O autor compartilha sua pesquisa com grande convicção: os seres humanos têm uma predisposição natural para a empatia, a cooperação e o altruísmo. Tudo o que precisamos é desenvolver a inteligência social.

Liderança: a inteligência emocional na formação do líder de sucesso – Daniel Goleman

Ok. Deu para perceber a importância desse autor no desenvolvimento de habilidades humanas, né? Neste livro, o autor observa que não há dúvida de que o QI é a melhor forma de encaminhar as pessoas para as carreiras que lhes são mais adequadas: é preciso um QI com um desvio padrão para lidar com a complexidade cognitiva de profissões como medicina, direito ou contabilidade, ou para ser um executivo de alto nível. No entanto, “na hora de prever quem dentre essas pessoas extremamente inteligentes irá emergir como a mais produtiva, o melhor membro de equipe ou um líder destacado, a inteligência emocional passa a ter mais importância. Isso ocorre porque as habilidades da inteligência emocional — quão bem gerimos nossa vida e nossos relacionamentos — são as habilidades que distinguem aqueles com desempenho excepcional. E quanto mais se sobe em uma organização, maior a importância da IE para distinguir os líderes mais eficazes”, escreve Daniel Goleman.

Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais – Marshall B. Rosenberg

Manual prático e didático que apresenta metodologia criada pelo autor, voltada para aprimorar os relacionamentos interpessoais e diminuir a violência no mundo. Aplicável em centenas de situações que exigem clareza na comunicação: em fábricas, escolas, comunidades carentes e até em graves conflitos políticos

 

 

Liderança com base nas soft skills – Cyndia Bressan (coord.)

Definidas basicamente como capacidades comportamentais, as soft skills ganharam importância nas corporações e, para atender a um público ávido por estratégias práticas e com comprovação científica para que possam obter os melhores resultados, esta obra reuniu especialistas que fazem uma abordagem diferente desse tema, pois seu foco é a formação de líderes bem-sucedidos. Comunicação efetiva, liderança empática, capacidade de pensamento crítico, motivação, flexibilidade em se adaptar aos cenários, administração do tempo, resolução de conflitos, aprender sempre, postura positiva, resiliência e orientação para os resultados são alguns temas desenvolvidos nos 17 capítulos de Liderança com base nas Soft Skills, uma obra essencial aos profissionais e estudiosos do ambiente corporativo.

Soft skills: conheça as ferramentas para você adquirir, consolidar e compartilhar conhecimentos – José Carlos Cordeiro Martins

Neste livro é apresentada uma caixa de ferramentas que nos permitirá desenvolver alguns soft skills importantes. São elas: leitura de livros, leitura dinâmica, mapas conceituais e mapas mentais, redações e resumos, desenhos de ideias, apresentações orais, histórias, pensamento crítico e argumentação.

 

 

O que esperar do bibliotecário do futuro?

Rudy de Waele, futurista e estrategista em inovação, acredita que o futuro é o resgate da humanidade. O que vai nos separar dos robôs é a nossa capacidade de sentir, sermos empáticos. E como isso nos projeta dentro da biblioteconomia? Particularmente, acredito que o nosso diferencial é ainda ser humano, desenvolver atividades e facilidades que nos conectam entre nós.

“O futurismo não é prever o que vai acontecer, mas fazer escolhas conscientes para criar o futuro de que precisamos”. Rudy de Waele

Resumindo, a capacidade que temos de mediar, de nos conectar e comunicar. É ter habilidade técnica (hard skill) de entender a tecnologia e capacidade humana (soft skill) de mediar para outro ser humano. O bibliotecário é o profissional capaz de traduzir a necessidade do usuário, de transformá-la e entregá-la através da mediação. É isso que nos torna humanos em biblioteconomia. E isso que nos faz sobreviver.

Fonte: Doce Biblioteca

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