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Seminário “Retratos da Leitura” Bibliotecas Escolares Bibliotecas na escola fazem diferença na aprendizagem dos alunos?

Texto por Luciane de Queiroz Modesto Mietto, Conselheira CRB-8

Com essa pergunta, esse problema a ser resolvido no cenário educacional do país, o seminário realizado com apoio do Instituto Pró-Livro, Abre-livros, Câmara Brasileira do Livro, SNEL e Itaú Cultural, espaço que recebeu palestrantes e convidados, no início da tarde do dia 23 de setembro de 2019 se auto explica.

O evento teve sua abertura com a palavra do Sr. José Ângelo Xavier, presidente do Instituto Pró- Livro (IPL) apresentando que seria anunciado no primeiro momento do encontro os resultados da pesquisa sobre o livro e a leitura encomendada ao INSPER. Relata que o objetivo dessa pesquisa é mapear o Brasil para o fomento da leitura.

A primeira a anunciar os dados coletados na pesquisa foi a coordenadora do IPL, Zoara Failla que dentre muitos indicadores apresentou a pontuação do Brasil no PISA-2015 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da OCDE) na 60ª posição entre 70 países, pontuou 27% de analfabetismo funcional, 42% de leitores com baixa compreensão e dificuldades para ler, 44% apenas não são leitores e apenas 12% dos brasileiros são leitores de romances e contos.

Colocou a importância de uma biblioteca escolar para que toda criança tenha acesso ao livro e a leitura, em especial, quando não se tem livros em casa. Abordou também sobre a triste realidade de livros que ficam guardados nas escolas sem um trabalho integrado ao currículo e ambiente informacional voltados a promoção da leitura e pesquisa. Discorreu sobre a lei da universalização das bibliotecas 12.244/10 e ao projeto de Lei 9.484/18 que amplia o prazo de 2020 para 2024.

Apresentou também a pesquisa censo MEC 2017 das escolas públicas que não possuem bibliotecas ou salas de leitura: municipais- 68%, estaduais – 40% e federais – 3%. Sendo que escolas rurais 84%, região norte e nordeste 70% não tem bibliotecas ou salas de leitura. Levantou questões sobre os desafios para a instalação desse tão importante equipamento apontando a falta de bibliotecários para atender as demandas, estrutura física das escolas para instalar uma biblioteca e os recursos orçamentários do CAQ talvez insuficientes para tal instalação.

Discorreu também sobre o modo que foi feita a pesquisa : 500 escolas públicas estaduais e municipais do ensino fundamental e nota em português na Prova Brasil (atual SAEB-Sistema de Avaliação da Educação Básica)) que informaram ter biblioteca e salas de leitura em 17 estados do Brasil. Com o objetivo de demonstrar a importância das bibliotecas escolares no processo educativo com dados na performance dos alunos nas provas de língua portuguesa.

Anunciou que nesses espaços 74% tem ensino superior, porém apenas 11,9% são bibliotecários!

A segunda palestrante dessa mesa foi Clarice Martins do Insper que apresentou vários indicadores temáticos como por exemplo: atuação do responsável pela biblioteca, atuação do professor, uso da bilioteca para desenvolvimento de atividades que refletem integração com a sala de aula, acervo interessante, diverso, atualizado; recursos eletrônicos, dentre outros. A conclusão de sua pesquisa apontou que 4 de 7 indicadores estão associados com o desempenho em português: o funcionamento da biblioteca, a atuação do responsável, do professor e os recursos eletrônicos são os responsáveis pelo bom aproveitamento escolar nessa área do conhecimento.

Usou termos como alta e baixa vulnerabilidade que indica condições socioculturais e econômicas entre os alunos para apontar o desempenho das bibliotecas escolares. Um dado muito interessante para nossa classe de trabalho é que o desempenho em português com o auxílio de um bibliotecário (termo pouco utilizado por eles, mas largamente utilizado como profissional qualificado) do 5º ao 9º ano pontuou 4 dígitos no SAEB e 15% nas escolas mais vulneráveis; ou, um adianto de um terço no ano letivo quando a biblioteca se faz presente com bibliotecário.

A terceira nessa mesa foi a presidente executiva de “Todos pela Educação” Priscila Cruz. Sua fala com muita propriedade iniciou dando um simples dado: ao finalizar o Ensino Fundamental II e ao entrar para o Ensino Médio apenas 9% dos alunos estão na média em relação ao aprendizado básico de matemática. Triste realidade…

Advogou que a política da leitura para sair da bolha tem que ir para o mundo da política e que é preciso começar a trabalhar a ideia de que a educação é realmente para todas as crianças e que para isso a biblioteca é necessária! Relatou sua experiência com crianças que por várias vezes disseram “Tia, eu não nasci para aprender, aprender não é para mim”.

Dissertou que a prática da leitura é um fator de diminuição da desigualdade e que o efeito escola (uma boa escola para as crianças mais vulneráveis) reduz a diferença educacional e isto deve ser um imperativo na estratégia para o desenvolvimento do país.

Em seu ponto de vista, há uma crença popular de que o Brasil vai melhorar com reformas econômicas, mas que nunca se ouve falar em reformas para investir em gente. Há muita dificuldade em se investir em pessoas e dessa forma a educação não é prioridade. Advogou que a formação de professores via EaD (Ensino a Distância) forma 75% de docentes nas instituições privadas e que o normal para esses profissionais é repetir os padrões daquilo que se aprendeu, que recebeu em sua formação e que infelizmente estes profissionais não são os que mais leram, os usuários das bibliotecas e que esse tipo de formação está longe de utilizar a leitura como estratégia.

Apontou a complexidade dessa questão e que a solução não virá de forma simplista, tipo um mesmo tamanho serve para todos os problemas. Como exemplo, utilizou o envio de insumos (livros) uniformizando políticas de leitura nas mais diversas regiões e contextos nacionais.

Defendeu a necessidade de uma política bem mais desenhada em prol da leitura e que a decretação de leis não é suficiente, mas uma atitude de proatividade, uma modelagem política e propostas efetivas frente aos dados da pesquisa devem ser efetivados para o alcance dos objetivos.

Os debatedores da segunda mesa:

Adriana Ferrari – presidente executiva da FEBAB iniciou a nova rodada de reflexões apresentando convidados e pegando o gancho na última fala ratificando a importância de focar na valorização do ser humano.

Na sequência o Prof. Dr Luiz Miguel presidente da Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação do estado de São Paulo) enviou representante que colocou sua instituição na posição de defesa da qualidade da educação pública municipal no país.

Ponderou os méritos das pesquisas apresentadas para mapear a leitura no país e destacou como a biblioteca escolar impacta diretamente na vida dos alunos.

Elencou as condições socioemocionais, alimentação, estrutura familiar como fatores que implicam no aspecto cognitivo e do aprendizado.

Lançou três aspectos desafiadores: – condição social pelo fato do Brasil não ser formado por uma sociedade leitora;- mudança desse cenário, como? talvez criando o hábito de leitura na educação infantil ; -enquanto escola como atingir os objetivos para se adquirir uma biblioteca escolar?

O deputado Rafael Motta do PSB-RN foi o convocando para trazer um olhar político para essa discussão. Relatou fazer parte da comissão da educação, relatou outros feitos, disse se solidarizar com a governadora de seu estado frente às dificuldades em cumprir os pagamentos das folhas salariais e que vê dificuldades dos municípios mais pobres cumprirem a lei da universalização das bibliotecas. Confessou não saber como essa lei poderá ser cumprida…

Na parte final da segunda mesa, teve a palavra o presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) Prof. Dr. Marcos Miranda dizendo que precisamos trazer a sociedade para o nosso lado fazendo um movimento para que as pessoas saibam da existência da lei da universalização das bibliotecas. Convocou os bibliotecários, professores, entidades de classe para esse movimento em prol da melhoria do nosso país por meio das bibliotecas escolares numa abordagem biopsicossocial , uma verdadeira luta por melhores condições de vida.

Levantou que essa questão passa pelo viés político porque situações de propinas, distribuições de cotas ao votar, má gestão do dinheiro público impedem a chegada das verbas para a instalação das bibliotecas escolares. Citou também a situação atual da desvalorização dos conselhos.

Posteriormente apresentou em “data show” os sistemas CFB,CRBs, a legislação em relação ao exercício da profissão de bibliotecário, a maneira que os profissionais são inscritos por todo o território nacional, o censo escolar 2018, censo da Educação Básica -2018, as dimensões da Biblioteca Escolar: filosófica, política, social, humanística, educacional, profissional, econômica e legal. Apresentou também as ações do CFB junto a entidades de classe ( FEBAB, ABECIN,ANCIB) para articulação de programas e formação profissional; sua atuação junto ao Congresso Nacional para execução de políticas públicas em prol das bibliotecas brasileiras; articulação junto ao CAPES para implantação de 14 cursos de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade EaD; articulação com os conselhos regionais; o PL 9484/2018 que propõe alteração da Lei 12244/10 para dispor sobre uma nova definição de Biblioteca Escolar e a criação do Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (SNBE).

Apresentou as propostas dos sistemas SNBE e SEBE (Sistemas Estaduais de Bibliotecas Escolares) por meio da elaboração de projetos de lei que garantam bibliotecas para as escolas, com bibliotecários; a implantação de bibliotecas escolares em todas as instituições de ensino; promova a melhoria da atual rede de biblioteca escolares; definir a obrigatoriedade de um acervo mínimo; implementar política de acervo; desenvolver atividades de treinamento e qualificação de recursos humanos; integrar todas as bibliotecas escolares do pais na rede mundial de computadores; proporcionar atualização de acervo; favorecer a ação dos sistemas em prol dos profissionais de bibliotecas escolares atuarem como agentes culturais e política de leitura nas escolas; firmar convênios com entidades culturais; estabelecer parâmetros mínimos para que o espaço da biblioteca seja inclusivo atendendo à princípios de acessibilidade.

Toda essa apresentação foi importante e talvez informação interessante para muitos representantes de entidades que ali estavam presentes e pouco sabiam sobre a organização e ações dos profissionais bibliotecários e cientistas da informação.

Nosso presidente finalizou agradecendo e deixando contatos para interessados em maiores informações sobre nossa categoria.

Certamente a luta para que esse equipamento cultural tão importante e de óbvia necessidade: a biblioteca escolar, até que se faça presente em cada escola do país, será árdua. Para isso, é indispensável o empenho de todos aqueles que acreditam em sues benefícios e nos dados apresentados nas pesquisas; e como pudemos ver e entender, a diminuição da desigualdade nesse país, se fará por meio de uma educação de qualidade em que a biblioteca é parceira e agente ativa no processo ensino-aprendizagem. Afinal, é líquido e certo que nosso crescimento como nação se fará por meio da educação!

Que sejamos multiplicadores de tudo que vimos, ouvimos e estamos lendo…

Sonhar que desde o nascimento de cada nova escola (sua construção) esteja nascendo também o espaço (embrião) de uma biblioteca, deveria ser realidade a partir de 2020. Mas que possamos sonhar e lutar para que esse casamento: escola/biblioteca aconteça definitivamente e que gere muitos frutos…

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