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Se o ato de ler é solitário, compartilhar a leitura é um prazer que une pessoas

Clubes de leitura são ponto de encontro para quem gosta de ler, reunir os amigos, refletir, aprender, trocar ideias e desbravar o mundo da literatura. Sozinho ou em grupo, o livro é um parceiro da vida

Reprodução/Internet/gahag.net
(foto: Reprodução/Internet/gahag.net)

Livros mudam as pessoas. Além da capacidade de nos emocionar, eles apontam caminhos, dão argumentos, propõem pensamentos e são fonte inesgotável de conhecimento. Sem esquecer que sempre serão companhias em todas as fases da vida para quem se dispõe a tê-los por perto. Em papel ou digital, obras clássicas ou best-sellers, se o ato de ler é solitário, compartilhar a leitura é um prazer que une pessoas, faz amigos, ensina, educa, desperta sentimentos, promove a troca de experiências, expande repertório, muda olhares, proporciona viagens por toda parte e nos apresenta outros mundos para sobrevivermos ao real.

No mundo dos livros, a ideia de se reunir em clubes de leitura nasceu com a missão de agregar leitores apaixonados, ansiosos por trocar suas percepções sobre o que leram e, quem sabe, despertar em outras pessoas o hábito de mergulhar nesse universo das mais diversas histórias, ficcionais e reais. E quem é da terra de Adélia Prado, Darcy Ribeiro, Pedro Nava, Murilo Rubião, Carlos Drummond de Andrade, Roberto Drummond, Fernando Sabino, Oswaldo França Júnior, Wander Piroli, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e o mestre Guimarães Rosa, alguns deles homenageados com estátuas que ocupam as ruas de BH, tem sementes e raízes fortes para serem despertados e guiados sob as bênçãos de uma herança literária das mais ricas.

Lara Dias/Divulgação
“Quem lê não vira adulto completamente nunca, porque mantém o poder do faz de conta. A leitura é capaz de fazer com que nós mudemos de lugar, de ideia e nos transportemos para outras realidades” – Sabrina Abreu, jornalista e escritora (foto: Lara Dias/Divulgação)

Sabrina Abreu, jornalista e escritora mineira que mora em São Paulo há dois anos, faz parte do grupo de pessoas que compartilham o amor pela leitura, a vontade emocional e quase física de querer ter sempre um livro por perto. Ela revela que sua memória mais antiga dos livros se deve ao seu pai, que é um “desses leitores bem gulosos”, que emendam um livro no outro o tempo todo. “Então, lembro-me de sempre vê-lo concentrado em alguma leitura, como se aquilo fosse algo muito digno mesmo de atenção. Minha mãe e duas das minhas tias são professoras e todas elas me encheram de livros infantis.”

Buscando suas referências, ela conta que leu O encontro marcado para uma disciplina do Colégio Batista. “Fiquei apaixonada, porque é uma história de amizade e de juventude, embora o enredo percorra da infância à vida adulta do Eduardo Marciano. O fato de a história se passar em BH foi o que me mais me cativou no início. Depois, li todos os livros do Fernando Sabino que estavam disponíveis na biblioteca do meu colégio, na do curso de inglês e também na Biblioteca Pública. Li e reli tudo dele. Eu quis ser como ele. O livro me fez querer ser jornalista e escritora. Por causa do Fernando Sabino, estou fazendo uma biografia dele para crianças.”

Coordenadora do Clube do Livro Guaja, Sabrina vem a BH uma vez por mês. Ela prepara uma apresentação e é a mediadora, mas destaca que o formato é totalmente horizontal, um bate-papo. “Gosto de falar dos livros, mas tanto quanto isso, amo ouvir os insights dos outros. A leitura é um prazer maravilhoso, mas muito solitário. O clube do livro ajuda a corrigir isso, porque permite que você compartilhe esse prazer com outras pessoas. Um livro é escolhido por mês (coloco dois em votação), as pessoas leem e nos reunimos para falar sobre ele. Em agosto, quando o clube do livro voltar após as férias, esperamos fazer pequenas mudanças. Até hoje foram três edições, então estamos testando o modo mais divertido e produtivo de conduzir o projeto.” Ele é exclusivamente sobre obras de não ficção. Começou com a biografia da Frida, passou pelas memórias de Lázaro Ramos e Marina Abramovic. Os próximos serão Só garotos, de Patti Smith, e Paris é uma festa, de Hemmingway. Um título por mês.

FONTE DE INSPIRAÇÃO 

Sabrina conta que o primeiro clube de leitura que visitou foi o da Hebraica (clube social), em São Paulo. “Achei aquilo fenomenal e quis replicar o formato em BH. Logo pensei no Guaja e, por causa da comunidade que se encontra por lá, achei que tinha a ver ler sobre pessoas reais e usar passagens dessas pessoas como inspiração para criativos em geral (o público do Guaja é formado por profissionais e empreendedores ligados à criação e às artes, majoritariamente).” Mas ela estimula qualquer pessoa a fundar o próprio clube.

Escrever é a grande paixão da vida de Sabrina. E ela vem de outra paixão, frisa, que é a leitura. Ela já publicou A voz do alemão, pela nVersos, de 2013, em coautoria com Rene Silva, um jovem comunitário do Complexo do Alemão, e O último kibutz, um livro que tem muito a ver, ele revela, com sua vida real, ao mesmo tempo em que é uma ficção. Ou “uma autoficção, termo bem difundido atualmente na literatura”.

Para quem ainda não se descobriu um leitor ou não gosta de ler, Sabrina Abreu recomenda começar por algum assunto, qualquer assunto, que lhe desperte interesse: futebol, mitologia, gastronomia. Há títulos de ficção e não ficção sobre todo assunto possível e, uma hora ou outra, acho que um livro desses vai fazer o leitor se apaixonar. Outra dica é: não insista se não estiver gostando. “Se eu estou na página 47 e não gostei, dou adeus ao livro. A vida é curta para ler livros que não me agradam.” E você, o que está lendo? Quais suas preferências? E o livro da sua vida? Que tal reunir os amigos, a família e montar o seu clube?

Em cada página um saber
Leitura e discussão dos mais diversos temas não só proporcionam um encontro entre os amantes dos livros, mas também despertam uma nova forma de pensar e ver o mundo

Dos temas mais leves e triviais aos que tocam a profundeza da alma. Cada livro uma história, um ensinamento, uma verdade dita, uma certeza posta em dúvida, um amor despertado, um sorriso solto, uma lágrima perdida, um novo olhar que se apresenta e a certeza de que o aprendizado é constante. Há 15 anos nasceu o grupo Crivo, formado por sete mulheres que decidiram se encontrar em rodas de leitura para celebrar a amizade. Maria do Carmo Vilela Bastos, Aparecida Lotti, Karina Aquino, Fátima Ferraz, Dalila Moreira, Elizabeth Meyer Camargo e Cláudia Rodrigues são as guardiãs desses encontros que injetam alegria, saberes, força, ânimo e energia para seguir em frente.

Tulio Santos/EM/D.A Press
Clube de leitura Crivo, que se reúne há 15 anos. Na foto, Aparecida Lotti, Karina Aquino, Fátima Ferraz, Maria do Carmo Vilela Bastos, Dalila Moreira e Elizabeth Meyer Camargo (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)

Maria do Carmo Vilela Bastos conta que o Crivo nasceu em 2003, enquanto um grupo celebrava a formatura de uma companheira. “No entusiasmo do encontro, uma de nós lançou a ideia já sugerindo a obra da autora americana Julian Cameron, sucesso da época. Lemos, relemos e debatemos caprichosamente cada livro, cada capítulo, tal a qualidade dos temas e a novidade do método, incluindo, tarefas práticas e criativas.”

Conforme Maria do Carmo, o grande estímulo “para o nosso interesse foi a proposta em função do nosso autoconhecimento e a notável insistência da autora em mostrar, ao longo da sua obra, a força da criatividade inerente ao ser humano em todos os aspectos da realidade”.

Outros bons autores, frisa Maria do Carmo, foram lidos. “Por ora, iniciaremos outro escritor: José Tolentino Mendonça, teólogo, poeta, reitor da Universidade Católica Portuguesa e consultor do Conselho Pontifício de Cultura e Espiritualidade em Roma. Na sua obra, escolhemos o livro A mística do instante.”

Maria do Carmo afirma que o forte no convívio do grupo é o clima aberto a outras atividades como encenações teatrais, artesanato, programas extras, como cinema, minicursos, meditação e até balada. Pedagoga e professora aposentada, cantora de coral e com habilidade para tocar piano e sanfona, ela revela que o Crivo tem um antigo sonho em vias de execução: o trabalho social, de preferência com adolescentes e jovens. Ela, professora das boas, seria uma mestra para aulas de reforço, por exemplo.

Mas, afinal, e o nome Crivo? De onde veio? Maria do Carmo explica que após dois anos de atuação, o grupo levantou inúmeras sugestões e foi aprovado Crivo. “É que, em meio às nossas vivências, ocorre em cada uma um processo de filtragem de pensamentos e atitudes, é como passar por um crivo. Em outra comparação, temo o crivo no sentido de bordado esmerado, no qual um tecido é desfiado e depois recomposto com outros fios, coloridos e modelados. Deste modo, torna-se uma obra de arte.”

Para Maria do Carmo, a boa leitura em grupo também “faz elaborar o tecido da vida, da nossa personalidade, recompondo falhas e aprimorando talentos”.

EXPERIÊNCIAS 

Já Aparecida Lotti relata que os encontros não têm a pretensão de ser terapêuticos. No entanto, desenvolveram ao longo dos tempos virtudes, aceitação, cumplicidade e companheirismo. “Como o grupo é composto por mulheres de uma faixa ampla de idades, tem o privilégio da diversidade. Cada uma traz sua experiência de vida, formação e profissão, enriquecendo-nos mutuamente. Temos no grupo talentos diversos: a criativa, a artista, a religiosa, a espiritualista. Temos aquela que nos leva às memórias afetivas sempre divertidas, pois não nos encontramos para ficar tristes. A cada encontro estudamos um texto e, com nosso olhar e nosso sentir, concordamos ou discordamos e crescemos. Assim formamos o todo que é o Crivo, que é muito maior que cada uma de nós.”

Para Cláudia Rodrigues, o grupo Crivo significa o encontro de amigas em busca do autoconhecimento. Boas e elevadas experiências. Karina Aquino conta que desde que conheceu Fátima e Dalila, o Crivo está presente em sua vida: “Elas sempre me contavam como eram as reuniões, como as participantes eram fortes, sempre tinham palavras para conforto. Há mais ou menos um ano, Maria do Carmo me convidou para participar, fiquei lisonjeada, pois sabia quão enriquecedor seria. Por eu ser a mais jovem do grupo, na maior parte das vezes me atenho a ouvi-las, pois ouvir me traz conhecimento de coisas que ainda irei viver”.

Karina destaca que as leituras são sempre animadas e cada uma coloca seu ponto de vista: “Como o nosso atual livro é extremamente rico, sempre alguém tem algum ‘causo’ para contar, fazendo um paralelo com o capítulo abordado. Sou muito grata por participar e o dia da reunião é sempre uma alegria. Parceiras que a vida me deu. Sei que sempre posso contar com elas”.

Aos 65 anos, Fátima Ferraz, mãe de dois filhos e com um neto, é visagista e tem um salão. Casada pela segunda vez com José Maria Lages Duarte, violoncelista, ela chegou ao Crivo pelas mãos da amiga Maria do Carmo. “Depois que entrei, tomei um banho de aprendizado. Estou aprendendo a lidar com o lado espiritual e a leveza do social. Voltei a estudar inglês e me abri mais socialmente. A dinâmica do grupo os ensina a amar e respeitar o próximo e a si mesma. Agradeço a Deus esta oportunidade”.

Clube das 10 mulheres 

Arquivo Pessoal
(foto: Arquivo Pessoal )

Dez mulheres, amigas, que encontraram no clube da leitura um lugar de refúgio para a vida agitada. Gostam de dizer que são como As dez mulheres, da escritora chilena Marcela Serrano, um dos livros que mais as emocionaram. Difícil trazer aqui o depoimento de cada uma delas, mas o que sentem, o que vivem, o que experimentam foi muito bem traduzido nas palavras da pedagoga Fábia Alves. Ela revela que, entre trocas de ideias, percepções, sensações, muito vinho e muita comilança fortaleceram a amizade. Os encontros começaram há 10 anos. Hoje, mesmo não sendo as mesmas pessoas que começaram a se encontrar em torno desse interesse comum, continuam sendo as amigas que dividem tudo: a dor, a felicidade, os amores e desamores. O clube já não existe mais (as reuniões foram encerradas há um ano). No entanto, deixou marcada uma história em cada uma. Aliás, Fábia revela que elas “agradecem” a entrevista do Estado de Minas porque, dizem, enxergaram como um sinal para que possam se reunir de novo e, quem sabe, até escrever um livro sobre as histórias de suas vidas. Vejam como os livros e a leitura atuaram na vida de dessas 10 mulheres, que são: Rosana Monteiro, psicóloga, Gabriela Galante, fisioterapeuta, Priscilla Dall’Agnol, fisioterapeuta, Roberta Alves, psicóloga, Juliana do Carmo, médica, Gabriela Alves, professora, Fábia Alves, pedagoga, Manoela Carvalhaes, psicóloga, Gisela Carvalhaes, gerente de projetos, e Simone Neves, psicóloga (foto).

Depoimento
Fábia Alves, pedagoga

“Somos 10 mulheres, somos amigas há muitos anos, temos histórias de vida que se confundem com os livros que já lemos. Foram casamentos, filhos, divórcios, diagnósticos de doenças que tiraram nosso chão. E a cada conquista, a cada comemoração, a cada decepção, a cada choro estamos todas lá, uma do lado da outra com os ombros prontos para servir de amparo. E foram esses vários percalços da vida que nos afastaram do clube de leitura, mas nunca, jamais, da nossa amizade. Tenho certeza de que os livros fizeram sentido nas nossas vidas e que a leitura sempre foi nosso comum e mais fecundo prazer. Lemos muitas histórias, algumas verídicas, outras de ficção, mas todas deixaram marcas e lições em nossas vidas. Lembro-me de alguns encontros em que, entre lágrimas e risos, nossa amizade só se fortalecia. Cada uma de nós tem vida agitada, cheia de compromissos, corremos de um lado para outro, adoramos ler, e adoramos contar uma para a outra o que estamos lendo de interessante. Lembrar dos encontros mexeu com a gente, nos fez parar e avaliar o quanto cada uma dessas mulheres é importante uma na vida da outra. A proposta de falar a respeito nos fez lembrar que queremos uma na vida da outra para sempre, e sempre. Lembrar dos bons momentos que compartilhamos, mas infelizmente, por várias razões, pessoais e profissionais, fizeram o encontro se desfazer, acendeu de novo a chama. Nossas vidas tomaram rumos de forma que a falta de tempo foi o nosso maior empecilho. Foram quase 10 anos de encontros com muitas risadas e, por vezes, lágrimas. Confesso que alguns livros nos fizeram arrepender de passar o cartão de crédito e outros que nos trouxeram vida, como A arte de ser leve, da Leila Ferreira. Ela, aliás, nos deu a honra de tomar um cafezinho com a gente, manhã especial e inesquecível, com muito pão de queijo”

PARA LER
O poder dos livros 

“O que você está lendo?” Essa é a pergunta que Will Schwalbe faz para a mãe, Mary Anne, na sala de espera do instituto do câncer Memorial Sloan-Kettering. Toda semana, durante dois anos, Will acompanha a mãe às sessões de quimioterapia. Nesses encontros, conversam um pouco sobre tudo: a vida e os livros que estão lendo. Will e Mary Anne terão conversas tanto abrangentes quanto extremamente pessoais, estimuladas por um conjunto eclético de livros e uma paixão compartilhada pela leitura. A lista vai do clássico ao popular, da poesia ao mistério, do fantástico ao espiritual. Eles compartilham suas esperanças e preocupações – e redescobrem suas vidas – por meio dos livros prediletos. Mãe e filho se redescobrem, falam de fé e coragem, de família e gratidão, além de ser constantemente lembrados do poder que os livros têm de reconfortar, surpreender, ensinar e dizer o que é necessário fazer com a vida e com o mundo. Uma alegre e bem-humorada celebração da vida, O clube do livro do fim da vida é uma história comovente e uma lembrança de que a leitura é um ato de liberdade diante da dor e do medo da morte. Como aponta o autor, “ler não é o oposto de fazer, é o oposto de morrer”.

SERVIÇO 
Livro: O clube do livro do fim da vida
Autor: Will Schwalbe
Ano: 2013
Páginas: 296
Editora: Objetiva
Preço: R$ 44,90

Kit literário 

Nos últimos anos, clubes literários por assinatura têm se tornado cada vez mais populares entre públicos de todas as idades. Assim, se por algum motivo não consegue reunir um grupo, há empresas especializadas que oferecem entregas mensais de livros-surpresa. Elas funcionam como espaço para trocar experiências e discutir suas últimas leituras. O cliente paga uma mensalidade e recebe em casa kits literários com curadorias luxuosas, desde grandes autores, nacionais e internacionais, até especialistas pedagógicos, no caso da leitura indicada para os pequenos. Conheça alguns clubes on-line:

– TAG Livros
– Leiturinha
– Expresso Letrinhas
– Garimpo
– Leitor Solidário
– Pacote de textos
– Leitura Quindim
– Turista Literário
– Box95
– Caixola

Sem preconceitos
Clube de literatura leva para discussão livros de Paulo Coelho a obras de Jorge Luis Borges e Dostoiévski. Reuniões proporcionam novas descobertas, emoções e conhecimento

Ilustração/EM
(foto: Ilustração/EM)

Três jornalistas tinham o mesmo sonho: fundar um clube de literatura para discutir ideias a partir da literatura. Assim, em 2006, nasceu o grupo a partir do encontro de Kátia Rezende, Marina Rodrigues e Mirian Chrystus, que convidou o mestre Reinaldo Marques, professor da Faculdade de Letras (FAL) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para participar de um grupo de pessoas amigas que estavam interessadas em ler obras literárias e queriam alguém da área para incrementar as discussões sobre as obras lidas. “Aceitei a título de fazer uma experiência, ver se funcionaria e já se passaram 12 anos. E continuamos nos encontrando até hoje, não apenas por conta da literatura, mas em razão também dos laços de amizade e estima criados ao longo desse tempo. A literatura passou a ser uma espécie de pretexto para nos encontrarmos. No fundo, acho que ela é muito isso mesmo: um convite para o encontro, o diálogo e a reflexão sobre nós mesmos e o mundo em que vivemos, com suas possibilidades, limites e desafios.”

Reinaldo conta que o grupo tem 10 participantes e seu perfil é de pessoas mais maduras, que atuam em várias áreas profissionais (jornalistas, psicanalista, pedagoga, engenheiro, promotora pública, tradutora etc.), algumas que até já se aposentaram. “Trata-se de um grupo fechado, que foi mudando um pouco ao longo do tempo com a saída de uns e a entrada de outros. Nos encontramos ao longo de oito meses por ano, duas vezes por mês, geralmente de 15 em 15 dias, às terças-feiras, menos nos meses de férias escolares. Os encontros ocorrem à noite, das 20h às 22h, normalmente na casa de um dos integrantes que nos recebe por um semestre e vai se fazendo um rodízio.”

Para o professor, tendo em vista o perfil do grupo, diria que ele é formado por um tipo de leitor que se pode chamar de o amador da literatura. “Diversamente de um leitor especializado, acadêmico, o amador se envolve com o texto literário com um olhar mais desarmado, livre, que muitas vezes é capaz de apreender significações e fazer articulações de sentido às vezes surpreendentes, traindo um secreto prazer na sua ligação com a obra artística. O leitor amador e o leitor especializado articulam leituras diferentes da obra literária, que não devem ser hierarquizadas, julgando-se um tipo superior ou inferior ao outro. Ambos os modos de leitura são válidos e legítimos, encontrando abrigo no universo heterogêneo e múltiplo das manifestações literárias. Mas respondem a contextos diferentes de demanda e abordagem da literatura. Diante disso, a dinâmica dos encontros consiste em conversarmos sobre as obras lidas e, a partir das vivências de cada um dos textos, das discussões que vão aparecendo, vamos trazendo algumas noções de teoria e crítica literárias para ampliar a compreensão dos textos, em termos da construção de sentidos, da interpretação.”

DARCY RIBEIRO E SHAKESPEARE 

Reinaldo destaca que a escolha das obras é feita pelo grupo. O que revela um gosto eclético. Já leram obras de Paulo Coelho, na linha de literatura best-seller, mas também passaram semestres inteiros desvendando tragédia grega, epopeias clássicas, Shakespeare, Dostoiévski, Borges, literatura brasileira contemporânea e hispano-americana, inglesa e americana. Mais narrativa que poesia. “Já ficamos alguns semestres lendo só poesia brasileira moderna e contemporânea. Quando possível, no caso de obras vertidas para o cinema, colocamos os filmes em discussão, cruzando cinema, literatura e outras artes.”

Arquivo Pessoal
Professor Reinaldo Marques com alguns participantes do grupo de leitura, que se encontram a cada 15 dias (foto: Arquivo Pessoal )

No primeiro semestre deste ano, por exemplo, Reinaldo diz que o grupo leu obras de autoria negra feminina, como Ponciá vicêncio e Olhos d’água, de Conceição Evaristo, Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, e Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Neste segundo semestre, eles vão ler obras escritas por autores indígenas e obras sobre os índios – Iracema, de José de Alencar, e Maíra, de Darcy Ribeiro: “O intuito é fazer uma imersão no mundo indígena, cuja contribuição para a cultura brasileira é tão fundamental quanto a dos africanos e afrodescendentes. Com isso, o grupo já tem um repertório bem consistente de leitura e já vai conseguindo colocar as obras lidas em diálogo, num exercício de memória cultural, literária.”

Na visão de Reinaldo, não apenas a literatura, mas a obra de arte de maneira geral, constituem um saber sobre nós mesmos e o mundo, a realidade em que vivemos. “Num texto literário temos acesso às vezes de forma muito mais vívida e contundente aos labirintos do desejo humano, às contradições da nossa realidade, do que em tratados históricos, psicológicos e científicos. Para tanto, é preciso desarmar a oposição entre realidade e ficção, a fim de se perceber que as fronteiras entre realidade e ficção são porosas, uma se constitui a partir da outra, contaminam-se mutuamente. Por isso, a obra literária mais potente, aquela regida por pressupostos mais artísticos e que transita pelo imaginário, é capaz de desenvolver nos leitores uma profunda consciência de si mesmo e do mundo em que se vive. Ainda mais porque a literatura convida os outros saberes e artes para dançar. Quando interpretamos uma obra literária, acabamos transitando por outras artes e outros saberes. E tudo isso contribui para que sejamos pessoais mais conscientes, politizadas e críticas no exercício da cidadania.”

A formação atual do grupo conta com a participação de Cláudia Spranger, Elisamara Coutinho, Heloísa Azevedo, Kátia Rezende, Letícia Costa, Maria Eunice Donato, Marina Mourão, Mary Arantes, Renata Donato e Ricardo Elias. Kátia Rezende, destaca Reinaldo, tem o papel de liderança do grupo. É quem coordena a turma com avisos e olha os anfitriões de cada semestre.

Depoimentos 

Ricardo Elias, engenheiro 

‘‘Sempre gostei de ler, incentivado pelo meu tio, que foi presidente da Academia Belo-horizontina de Letras. Naquela época, contava com alguns escritores dissidentes da Academia Mineira de Letras. Assim, fui criado no meio de livros. Como me formei em engenharia elétrica e exerci a profissão, me vi cercado de pessoas que não tinha o hábito de ler. Procurava informações em jornais e revistas atrás de novas dicas, já que não tinha mais meu tio por perto. O papel do grupo é este. Colocar as pessoas que têm o hábito de ler em contato e, principalmente, ter um mentor, um orientador altamente capacitado, que nos direciona para novas leituras, nos incentiva e mesmo nos introduz a novos desafios’’

Kátia Rezende, jornalista 

‘‘O grupo foi criado em maio de 2006 por três jornalistas: eu, Marina Rodrigues e Mírian Crysthus. O nosso objetivo sempre foi debater ideias e por meio da literatura ampliar nosso conhecimento, nosso mundo e nossas emoções’’

Mary Figueiredo Arantes, designer 

‘‘Participar desse grupo de literatura é renovação e aprendizado. Reinaldo é um sábio, e como todo sábio, carrega simplicidade e bagagem, cultural e humana, de forma extraordinária. Os livros nos levam à política, economia e caminhos que circundam uma boa leitura. Tenho a sensação de que o livro é uma provocação para trilharmos caminhos tão diversos. Saber que aos 61 anos ainda tenho muito a aprender me faz sentir um ser humano feliz, por esta incompletude. Sem contar a companhia do grupo e a confraternização que cada encontro gera”

Maria Eunice Donato, pedagoga aposentada 

‘‘Com o professor Reinaldo e profissionais de diversas formações, começamos uma caminhada cheia de descobertas, alegrias, encantamento e, sobretudo, de constantes surpresas pelos novos caminhos, novos olhares e novas visões do ato de ler e escrever. Ele é o confrade que aderiu à nossa busca de conhecimento. Hoje, temos literatura do mais alto nível, amizade a tecer nossos encontros e muita leitura. É sempre um prazer repetido’’

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