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Sala de leitura


Um ilustre viajante: o livro


Rosemary Conceição dos Santos - 20/01/2010


Produto intelectual, que encerra em suas páginas conhecimento, técnicas e sensibilidade, o livro, ao viajar pela história, tornou-se um bem e, como tal, produto de consumo que teve a produção industrializada, salvo os ainda artesanais. Produzido e distribuído nos quatro cantos do planeta, se ao seu autor coube a elaboração de conteúdo, ao seu editor atribuiu-se a responsabilidade de torná-lo comercializável. Em extensa rede de trabalho, foi o livro que propiciou vagas de trabalho aos que o organizam em bibliotecas, bem como, aos que o ofertam ao público, ou os colecionam, ilustram e, finalmente, aos que o lêem, assessorando editores a selecionar títulos para publicação. E, ainda que se ouça sobre o prazer que o leitor dele frua, é certo que, para todos os envolvidos no processo, o livro é mais que um bem e produto: é uma companhia, um amigo, uma “pessoa” da família.

Inovações técnicas, melhor conservação, maior acesso à informação e otimização da produção, condizente com a distribuição a ser feita, tornaram-se marcos de sua história. Uma história sempre ligada às contingências políticas e econômicas e à história de idéias e religiões. Do surgimento da escrita, na Antiguidade, à criação do livro de bolso, na idade Moderna, a própria disseminação da informação acabou por ser transformada: num crescendo, jornais, quadrinhos e romances de banca foram vistos como suportes cada vez mais viáveis para levar notícias, imaginação e subjetividade à toda população. Somando-se a estes as novas mídias, como os registros sonoros, a fotografia e o cinema, entre outros, novas influências lhe foram acrescidas, ampliando seu alcance no mundo, bem como, o do mundo junto à indústria editoral.

É quando, no final do século XX, chega ao mercado o livro eletrônico, ou seja, o livro no suporte eletrônico computador. Sucessor do livro tradicional? Ou apenas uma variante deste? Sem podermos afirmar se um, ou se outro, considerando sua menina chegada ao Brasil, o que se tem de concreto é a divulgação, nos meios de comunicação, da preocupação manifestada pelos adeptos à apresentação tradicional do mesmo: a de que o livro, no suporte papel, desapareça. De acordo com especialistas do assunto, existem livros eletrônicos disponíveis para computadores de mesa e de mão (palmtops). E, ainda que concorra com a leitura no suporte papel, cerca de 1,2 vez mais rápida, sua indústria já solicitou a pesquisadores sugestões para otimizar a visualização nos mesmos.

Entretanto, enganam-se os que presumem ser o livro eletrônico tecnologia atual. De acordo com historiadores, o mesmo foi inventado em 1971, com Michael Hart, americano fundador do Projeto Gutenberg, o mais antigo projeto voltado à digitalização, arquivamento e distribuição gratuita de obras culturais através da Internet. Consta, também segundo historiadores, que o primeiro documento digitalizado por Hart foi a “Declaração de Independência dos Estados Unidos da América”. Honrando Gutenberg, inventor alemão que contribuiu para a tecnologia da impressão e da tipografia no século XV, Hart deu ao seu projeto o nome deste. Inicialmente atualizado pela digitação manual dos dados, e conteúdos, das obras, a criação de digitalizadores de imagens, e de programas de reconhecimento óptico de caracteres, otimizou, sensivelmente, sua disponibilização de novos títulos, contribuindo para a popularidade do Projeto.

Críticas? Sim, existiram. A falta de rigor em detalhes importantes, como, por exemplo, a utilização de edições inadequadas, a omissão de prefácios, e críticas, sobre a obra, originalmente publicados, foram levantadas. O que foi construtivo, uma vez que, a partir das mesmas, o Projeto se esforçou em informar a edição e os prefácios legítimos. Por adição, ainda que as versões digitalizadas não sejam atuais, uma vez que estas ainda não caíram em domínio público, é o Projeto Gutenberg uma proposta, e aposta, no formato que, para muitos, será o mais legível num futuro próximo.

Dentre as obras em língua portuguesa publicadas no Projeto, consta que a primeira ocorrência deu-se em 2001, com a inserção digital de “Lendas do Sul (1913), do brasileiro João Simões Lopes Neto. Inserção esta seguida de “Os Lusíadas”, de Camões, em 2001. Em 2007, 70 obras em língua portuguesa já estavam disponíveis. Ilustre viajante do tempo, o livro certamente conseguirá se preservar em todos os seus formatos, seja pelo cuidado de colecionadores, seja pela preferência dos leitores. Logo, vida longa a todos os livros, bem como, aos que se sabem seus amigos.

Rosemary Conceição dos Santos é Pós-Doutora em Cognição, Leitura e Literatura pela USP-RP.

Publicado originalmente em  'Brasil que Lê - Agência de Notícias')
Contato: agencia@brasilquele.com.br


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