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Resgate de uma memória dolorida

Professora Mariana Cabral descreve as perdas do incêndio no MHNJB, que atingiu coleção de esqueletos indígenas: “É uma tragédia humana”

Texto por Mariana Cabral / Coordenadora do Centro Especializado em Arqueologia Pré- histórica do MHNJB

Área do Museu de História Natural e Jardim Botânico atingida pelo fogo
Rogerio Pateo / NAV/ DAA UFMG

Minha quarentena acabou com a ligação assustada da minha colega Maria Jacqueline Rodet: “Mariana, houve um incêndio no museu?” Eu demorei um pouco a entender e saí ligando em busca de informações. Nosso museólogo, André Leandro, me atendeu com uma voz tensa: “É verdade, Mariana, estou indo para lá”.

Era segunda-feira, 15 de junho, meu 88° dia de quarentena. Já circulavam fotos do prédio da Reserva Técnica 1 com o teto desabado e fumaça. Fiquei com um aperto no peito. Pensei no Museu Nacional, que queimou há menos de dois anos. Será que a gente não aprendeu nada?

Mandei áudios e mensagens para colegas do Museu de História Natural de Jardim Botânico (MHNJB), enquanto pegava uma máscara e a chave do carro. Não lembro nada do caminho: só a entrada no Museu e o porteiro, Ramon, me olhando, sério: “Você tá sabendo do incêndio, professora?”

Os bombeiros ainda mantinham a mangueira ligada, e um deles me explicou que estavam usando água com cuidado porque sabiam que as peças eram delicadas. Bem, havia mesmo peças delicadas… mas havia muito mais do que “peças” na coleção queimada.

Algumas dezenas de esqueletos, oriundos de diversos sítios arqueológicos de várias regiões de Minas Gerais, compunham uma das maiores coleções de esqueletos arqueológicos indígenas antigos da América do Sul. Muito além da tragédia científica, o incêndio nessa coleção é uma tragédia humana.

Essas pessoas, que foram cuidadosamente sepultadas por suas famílias e grupos, há 1 mil, 2 mil, 5 mil, 8 mil anos, foram escavadas em pesquisas científicas conduzidas desde meados do século passado por pesquisadoras e pesquisadores que tinham no Museu o ambiente institucional para receber e guardar essas coleções.

Existe um amplo debate ético na arqueologia sobre os modos como lidamos com sepultamentos, desde a decisão de escavá-los, retirando os esqueletos dos lugares onde seus grupos decidiram descansá-los, até o uso de suas imagens em publicações, expondo muitas vezes seus crânios e faces, sem uma autorização de fato. É uma discussão complexa, que o tempo todo permeia a arqueologia, essa disciplina especializada em estudar as coisas e as pessoas de outros tempos.

A coleção arqueológica que se queimou no museu, contendo muitos esqueletos humanos, foi construída como escolha consciente de pesquisadoras e pesquisadores, baseada na compreensão de que retirar esses corpos e suas tralhas era essencial para narrarmos suas histórias. Histórias que foram, de fato, contadas em livros, em artigos, em trabalhos acadêmicos ou não e mesmo na exposição que o Museu inaugurou em dezembro passado. Mas ver essas coleções queimadas gera um sentimento de frustração – e até de culpa – que é difícil contornar: como pode um acervo desses se queimar?

A coleção arqueológica que se queimou no museu, contendo muitos esqueletos humanos, foi construída como escolha consciente de pesquisadoras e pesquisadores, baseada na compreensão de que retirar esses corpos e suas tralhas era essencial para narrarmos suas histórias.

Nestas duas semanas posteriores ao incêndio, estruturamos uma verdadeira força-tarefa de resgate nos escombros, com o acompanhamento constante da Polícia Federal, que investiga as causas do fogo. Por ora, a arqueologia oferece o conhecimento e as práticas essenciais para a escavação do acervo queimado. A museologia nos orienta sobre a organização prévia do espaço e das coleções. A conservação disponibiliza o saber e as técnicas para garantir a preservação do acervo resgatado, que se encontra nos mais variados graus de combustão: desde as suaves coberturas de fuligem à transformação absoluta em cinza, passando por amálgamas inéditos que misturam embalagens de vidro com pedaços da coleção, invólucros de plástico que aderem às peças que protegiam, metais retorcidos que ainda sustentam delicados ossos humanos.

Para além dos vestígios sobreviventes das coleções ali armazenadas, a equipe agora trabalha também no resgate de uma nova coleção, a coleção do incêndio, uma memória dolorida que não podemos deixar para trás.

Fonte: Universidade Federal de Minas Gerais

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