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Resgate de livros de judeus roubados pelos nazistas se intensifica

Pesquisadores desenvolveram roteiro para rastrear as obras, muitas das quais ainda estão nas prateleiras de bibliotecas em toda a Europa.

Milton Esterow, The New York Times

A busca pelos milhões de livros roubados pelos nazistas durante a 2.ª Guerra, embora prossiga silenciosa e cuidadosamente por décadas, tem sido largamente ignorada, mesmo com a procura por obras de arte perdidas chegando às manchetes. Os volumes saqueados raramente carregam o mesmo glamour das pinturas saqueadas, que eram muitas vezes obras-primas no valor de milhões de dólares.

Mas recentemente, com pouco alarde, a busca pelos livros se intensificou, incentivada por pesquisadores dos Estados Unidos e da Europa que desenvolveram um roteiro para rastrear os livros roubados, muitos dos quais ainda estão escondidos em plena vista nas prateleiras de bibliotecas em toda a Europa.
Força-tarefa nazista faz inventários de livros roubados na Estônia Foto: Yad Vashem Photo Archives/NYT

O trabalho deles foi auxiliado por arquivos recém-abertos, pela internet e pelo crescente número de bibliotecários europeus que tornaram essas pesquisas uma prioridade. “As pessoas têm procurado longe por tanto tempo”, garantiu Anders Rydell, autor de The Book Thieves: The Nazi Looting of Europe’s Libraries and the Race to Return a Literary Inheritance (Os ladrões de livros: o saque nazista das bibliotecas da Europa e a corrida para devolver uma herança literária).

Dada a abrangência do saque, a tarefa à frente é imensa. Em Berlim, por exemplo, na Biblioteca Central e Regional, quase um terço dos 3,5 milhões de livros são suspeitos de ter sido saqueados pelos nazistas, segundo o pesquisador Sebastian Finsterwalder. “A maioria das grandes bibliotecas alemãs tem livros roubados pelos nazistas.”

Mas os pesquisadores dizem que há sinais de que eles podem estar à beira de fazer progressos importantes em restituições.

Nos últimos 10 anos, por exemplo, bibliotecas na Alemanha e Áustria devolveram cerca de 30 mil livros para 600 proprietários, herdeiros e instituições, segundo pesquisadores. Em um caso, em 2015, quase 700 livros roubados da biblioteca de Leopold Singer, um especialista no campo da engenharia de petróleo, foram devolvidos aos seus herdeiros pela biblioteca da Universidade de Economia e Administração de Viena.

“Definitivamente, há progresso, mas bem lento”, afirmou Patricia Kennedy Grimsted, pesquisadora do Instituto Ucraniano de Pesquisas da Universidade de Harvard e uma das maiores especialistas em bibliotecas e arquivos roubados durante a Segunda Guerra Mundial.

Livros saqueados recuperados após a 2ª Guerra em Frankfurt Foto: Yad Vashem Photo Archives/NYT

Os números, por si só, muitas vezes não fazem justiça ao que um único exemplar devolvido, ou mesmo um volume mais prosaico, possa significar para uma família. Na Alemanha, no ano passado, a biblioteca da Universidade de Potsdam deu um importante volume do século 16 para a família de seu dono, um homem morto em campo de concentração em 1943. O livro, escrito por um rabino em 1564 e posteriormente saqueado, explica os fundamentos dos 613 mandamentos da Torá. O neto do proprietário identificou-o a partir de uma lista de trabalhos saqueados que foram publicados online. Então ele e seu pai, um sobrevivente do Holocausto, voaram de Israel para a Alemanha para recuperá-lo. “Foi uma experiência muito emocional para meu pai e para mim”, disse o neto, David Schor.

O trabalho de Grimsted de rastrear os volumes perdidos avançou bastante desde 1990, quando descobriu dez relações de itens saqueados de bibliotecas na França pelo Einsatzstab Reichsleiter Rosenberg (ERR), uma força-tarefa liderada pelo ideólogo nazista Alfred Rosenberg. O grupo saqueou mais de 6 mil bibliotecas e arquivos na Europa, mas deixou para trás registros detalhados para rastrear o que foi roubado.

Centenas de milhares de registros da força-tarefa e de outras fontes foram publicados online nos últimos anos, parte de um esforço da Conferência sobre Reivindicações Materiais Judaicas Contra a Alemanha, a Organização Mundial Judaica de Restituição e outras instituições, para facilitar o caminho para pesquisadores, bibliotecas, museus, historiadores e famílias rastreando as obras. O trabalho de Grimsted tem sido fundamental para a tarefa, e sua publicação, Reconstruindo o Registro da Pilhagem Nazista: um guia para os arquivos dispersos do Einsatzstab Reichsleiter Rosenberg (ERR) e a recuperação do pós-guerra de ERR Loot é, entre outras coisas, um inventário de onde muitos documentos podem ser encontrados.

A Biblioteca Nacional de Israel também se apresentou para ajudar a catalogar e identificar livros roubados na Croácia e tornar as listas acessíveis a pessoas que falam hebraico, ladino, iídiche e outros idiomas.

Embora Rosenberg, enforcado como criminoso de guerra em 1946, fosse a principal força por trás do saque de livros, ele tinha uma espécie de concorrente em Heinrich Himmler, chefe da SS, cujos agentes também coletavam livros, particularmente os associados à maçonaria.

A pesquisadora Patricia Kennedy Grimsted em Minsk, 2016 Foto: Biblioteca Científica Central Yakub Kolas Bielorrússia/NYT

Os alvos nazistas eram principalmente famílias, bibliotecas e instituições dos judeus, mas também incluíam maçons, católicos, comunistas, socialistas, eslavos e críticos do regime nazista. Embora bibliotecas tenham sido destruídas e alguns livros queimados pelos nazistas logo no início, eles posteriormente transferiram muitas das obras para bibliotecas e o Instituto para Estudo da Questão Judaica, que foi estabelecido pela força-tarefa em Frankfurt em 1941.

“Eles esperavam utilizar os livros, depois que saíssem vitoriosos da guerra, para estudar seus inimigos e sua cultura, a fim de proteger os futuros nazistas dos judeus”, informou Patricia Kennedy Grimsted.

Markus Stumpf, pesquisador vindo da Biblioteca da Universidade de Viena, explicou que cerca de 15 bibliotecas austríacas retornaram pelo menos 15 mil livros desde 2009. “A parte mais difícil do trabalho é localizar proprietários ou descendentes. Alguns vêm com facilidade. Alguns levam anos, se não houver herdeiros. Em muitos dos livros, as placas de identificação, selos ou assinaturas foram arrancados e os nomes estão, às vezes, ilegíveis.”

Maria Kesting, pesquisadora da Biblioteca Estadual e Universitária de Hamburgo, contou ter devolvido livros a cerca de 360 herdeiros, proprietários e instituições nos EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, Israel, África do Sul, França e outros países. “Chegar aos herdeiros é sempre uma questão delicada. Para eles, muitas vezes é doloroso ser confrontados com sua história familiar de perseguição, morte e perda. As restituições são sempre momentos muito especiais e emocionantes.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Fonte: Estadão

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