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Resenha “Mediação da Leitura Literária em Bibliotecas”

Texto por Lygia Canelas

Eu começo a resenha reafirmando uma das frases do livro “Meu mundo é pequeno diante dessa imensidão de falas” (FREITAS, 2019, p.101).

Da mesma forma que a profissão do bibliotecário em torno da informação ampliou significativamente o seu alcance em diferentes mercados profissionais, a biblioteca, como equipamento cultural extrapolou seus limites físicos e leva os mediadores de leitura para diferentes espaços e ambiências.

O livro “Mediação da Leitura Literária em Bibliotecas” é um desses grandes presentes que os bibliotecários merecem receber e devem divulgar para que se entenda de maneira bastante efetiva o alcance verdadeiro da atuação do bibliotecário como profissional a serviço das pessoas, em primeiro lugar. Organizada em 15 capítulos, a partir da curadoria de Jorge do Prado, a obra apresenta interlocuções atuais sobre diferentes aspectos em torno da mediação da leitura literária em bibliotecas, todas elas pautadas em um objetivo: o “acesso democrático e igualitário à literatura de qualidade” (PRADO, p.15). Cada capítulo é um recorte cuidadosamente registrado por um bibliotecário diferente, de várias regiões do país.

Quero apenas sinalizar inicialmente a minha felicidade ao ver tantos textos de uma escrita excepcional. Eu, que amo escrever, sempre presto muita atenção nisto, embora não seja uma nobel da literatura e esteja a anos luz de distância disto. Mas destaco o texto conciso, embora extremamente rico pelos termos escolhidos, pelas construções lindíssimas de frases que buscaram poesia em diferentes momentos e pelas referências trazidas.

Outro presente desta obra: para compreender o conceito de mediação de leitura, o professor, Mestre e Doutor em Ciência da Comunicação Oswaldo Francisco de Almeida Junior, retrocede até o início dos primeiros grupos de estudos sobre o tema, até que possamos conhecer a origem do termo e quais relações estabelece, desde sua origem, com a mediação cultural e da informação.

A mediação da informação seria “Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais – , direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais”. (ALMEIDA JÚNIOR, p. 18)

Entendendo que o profissional da informação não pode agir com neutralidade, que a “mediação da informação exige um entendimento da informação como tendo uma existência em um processo. Ela já é gerada com significados e vai recebendo inúmeros outros no transcorrer de seu ciclo de vida”. O contexto de cada ambiência na qual ocorre a mediação da leitura proporcionará diferentes formas de apropriação informacional e essa apropriação terá continuidade a partir da interação com outras informações também apropriadas pelo sujeito, permanecendo como informação e ao mesmo tempo integrando para tornar-se conhecimento. E a leitura? “A leitura está no cerne da apropriação da informação”. A partir daqui, é que se pode iniciar uma leitura com um embasamento adequado para seguir caminho pelas experiências nas próximas páginas.

Mozilene Neri, no capítulo “Da palavra ao gesto: o ato de ler literatura”, resgata Humberto Maturana com a frase “O viver humano se faz no conversar”. Ela, como educadora, relata suas experiências com o projeto Rodas Literárias enquanto nos convida a refletir sobre a relação das mediações literárias e o fomento à leitura a partir de quatro questões fundamentais: 1. “[…] somos autores de nossas leituras e o que dizemos e construímos no coletivo tem imenso valor”; 2. As relações humanas não podem ser excludentes, precisam basear-se na aceitação do outro e na convivência; 3. A escuta é peça fundamental na relação entre o texto e o leitor; 4. A questão de ordem estrutural que permite a continuidade dos projetos e os vínculos entre os leitores e a leitura.

O segundo capítulo trata da leitura amorosa proposta por Rubem Alves e do tempo necessário para a sua fruição. Aqui temos Regina Garcia Brito, contextualizando brilhantemente nossa sociedade da informação e o mediador de leitura literária que não pode abster-se planejar a mediação “[…] à luz de conhecimentos específicos, dado que não se constitui como simples transmissão ou mera permissão de acesso aos bens culturais […]”, mas sim no ato de criação de vínculos simbólicos a partir de ambientes e dispositivos informacionais pensados para tal fim.

Regina relaciona a Sociedade da Informação em uma definição, que não pode restringir-se apenas às TICs, mas sim aproximar-se cada vez mais aos processos necessários na realização de troca de saberes e conhecimentos (o que transcende aparatos tecnológicos), do tempo necessário para isso e do estado mental necessário para se realizar “boas perguntas”. Esse tempo é fundamental para termos consciência da contextualização de cada informação disponível por aí, para que haja efetiva “ruminação intelectual” diante do compartilhamento de conhecimentos que hoje ocorre em velocidade surpreendente.

A autora do capítulo nos fala da importância da leitura como experiência singular e irrepetível e como os mediadores estão envolvidos no processo de criação de leitores autônomos e conscientes de suas opções, diante de acervos que devem ser diversificados para garantir o pertencimento. Quem é que pode nos dizer o que devemos ler? Talvez seja o mediador como alguém que escute verdadeiramente, que reconheça, valorize e incentive a fala dos leitores.

Maria Cristina Palhares e Lorisa Hermínia Pinolevi nos apresentam inúmeras iniciativas espontâneas de acesso ao livro em um capítulo que apresenta projetos realizados por pessoas comuns ou coletivos populares, com o intuito de incentivar e promover a leitura de fato, sem burocracias e sem constrangimentos, com simplicidade e utilizando espaços alternativos informais. Não bibliotecários que atuaram como agentes coletivos diante de práticas sociais que verdadeiramente intervieram em suas comunidades de forma transformadora.

Neste capítulo, as autoras nos alertam para a parte mais humana de nossa profissão: as pessoas, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade social. “A realização profissional de um bibliotecário não deve implicar em estantes cheias de livros organizados, livros que voltam intocáveis, sem riscos, amassados, isto não corresponde à realidade, a realidade precisa ser vivida e vivenciada”. (PALHARES; DIAS; 2019, p. 64).

As autoras Fabíola Ribeiro Farias e Cleide Aparecida Fernandes tratam das atividades lúdicas ou que muitas vezes não estabelecem relação entre o que é desenvolvido e o texto literário em si, em bibliotecas públicas, atividades estas que podem afastar os leitores da verdadeira experiência de contato com a atividade intelectual, confiscando o tempo necessário para a reflexão a partir do conteúdo escrito. Texto bastante interessante e que nos traz trechos da obra magnífica de Ítalo Calvino, “Um general na biblioteca”. Também aqui se fala, dentre outros pontos, da importância do tempo para pensar, do silêncio, da introspecção e da observação atenta quanto às ações que podem acabar tratando a literatura como mera mercadoria e não como suportes que “carregam em si discursos políticos, econômicos, de raça, de classe, de gênero e, principalmente, um ideal de homem educado”. (FARIAS; FERNANDES; 2019, p. 75).

No capítulo 5, temos vários exemplos práticos de planejamento de mediação de leitura na biblioteca escolar, de atividades realizadas ao longo de 2018 e 2019 no Colégio Marista Santa Maria. As autoras Cristina Troller e Marina Marostica Finatto propõem atividades e ações de baixo custo, com aproveitamento dos recursos da escola. Sendo o mediador um agente que possui responsabilidade social, o objetivo dessas ações é transformar, intervir na realidade da comunidade escolar promovendo o encantamento pela leitura.

Deixarei o sexto capítulo para o início e para o final.

Carla Souza apresenta a Biblioterapia no capítulo sete e apresenta relatos de profissionais que atuaram com atividades biblioterapêuticas. Aqui também se fala em afeto, de como a biblioterapia desenvolve a mediação afetuosa da leitura literária e a sensibilização dos envolvidos, no acolhimento de diferenças, para que essas ações e transformações transcendam até o coletivo, permitindo que todos aprendam a conversar, a ouvir e que “faz bem fazer o bem”.

O capítulo “Mediação da leitura literária na biblioteca escolar: um relato de experiência sobre a implementação da Lei n. 10.639/2003” trata de um relato de experiência realizado no Colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro. As autoras Daviane da Silva e Patrícia Vargas Alencar tratam da escola como o lugar para legitimação e transmissão da nossa verdadeira cultura nacional, em contraponto ao embranquecimento europeu que estruturou nossas relações sociais desde o colonialismo. A lei que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino é tema de interesse de todos os bibliotecários, profissionais que poderão encontrar neste texto diversas propostas para ações relevantes a serem realizadas em bibliotecas escolares.

Aqui temos o oitavo capítulo com Evandro Jair Duarte. Ele trata da leitura na infância, da importância dos momentos lúdicos e prazerosos em torno da leitura ou da mediação, pela qual a experiência estética da arte da leitura encontra formas para ocorrer e revelar as relações de autores e leitores com o mundo enquanto se encontram na escrita e leitura da mesma obra. O autor fala sobre a leitura de fruição e da motricidade na leitura, na qual nosso corpo não toma as decisões para trocar de página ou ajeitar-se em melhor posição, uma vez que está imerso na história. Um dos pontos que mais me tocou na leitura deste capítulo foi quando o autor fala sobre a criança criar sua própria biblioteca interior, cujo acervo é formado pelas recordações de obras que a tocaram, as quais ela pôde identificar, imaginar e interpretar… jogar e recriar.

Pensando nas crianças e jovens acabamos por lembrar que muitos consideram uma guerra entre esse público e o contato digital que erroneamente pode parecer nocivo e inimigo da leitura ou do estudo. No entanto, Gabriela Bazan Pedrão traz em seu texto dados sobre a atual realidade sobre os novos caminhos para a dinâmica da leitura que convivem com os modos tradicionais, se é que podemos dizer desta forma. Com o advento da internet surgem comunidades virtuais nas quais as pessoas, além de produzir conteúdos, compartilham e se aproximam de seus interesses com velocidade e facilidade surpreendentes. Idealizadora do Canal do Youtube “É o último, eu juro!”, a autora nos contextualiza sobre o início dos blogs literários e de como as discussões literárias em texto migraram dos blogs para o formato de vídeos na plataforma Youtube, ao final traz um pouco de sua própria experiência com a mediação de leitura literária digital a partir deste projeto iniciado em 2014. Aqui o leitor pode entender as características dessa nova forma de mediar a leitura literária e sobre o comportamento dos leitores diante de um formato que assemelha-se a uma “recomendação de amigo”, uma vez que elimina barreiras diversas e não constrange o leitor a partir de uma visão duramente crítica ou especialista.

Ciro Monteiro é autor do capítulo “Clube de leitura na prisão: a prática transformadora do ato de mediar”. O texto traz relatos emocionantes sobre atividades educacionais e a experiência de mediação de leitura literária a partir de um Clube de Leitura em uma unidade prisional no interior de São Paulo. Aqui o mediador também atua fortemente no letramento e do incentivo do desenvolvimento das habilidades dos educandos/leitores e da sua reintegração social.

Você saberia dizer o que é uma fanfic e sabia que elas são citadas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC)? O capítulo de Eliana Andressa Martins Gomes e Nanci Oddone nos apresenta as características e o contexto em torno das fanfictions e fandoms e de que forma podem ser utilizadas como instrumentos de aprendizagem em escolas e também em bibliotecas. O texto cerca o tema de forma bastante elucidativa sobre o que são essas comunidades, qual o conteúdo gerado em sua produção cultural, sua linguagem multimidiática e como se estabelece a dinâmica desses agentes ativos em todo o processo inovador, proporcionado pela web, de interação com conteúdos lidos ou assistidos.

Um ponto importantíssimo trazido pelo texto é a preocupação com o desenvolvimento da prática da argumentação em debates e como respeitar o ponto de vista dos colegas, discussão atualíssima diante da intensa utilização das redes sociais por este público.

A mediação da leitura pode ser estratégia para a promoção da saúde? Sim, da mesma forma que a Biblioterapia promove o bem-estar entre outros benefícios. Poliana Fragatti e Noely Santos escrevem sobre o projeto Promovendo a Vida, de parceria entre a biblioteca de uma Instituição de Ensino Superior e o curso de Enfermagem para atuarem na promoção da saúde de crianças sobreviventes do câncer, cujas repercussões físicas, psíquicas e emocionais causadas pelo tratamento tornam necessárias ações multiprofissionais para promover a ressignificação de suas existências.

E a leitura está sempre em torno de histórias que se escrevem e histórias vivenciadas, ainda que na própria prática de ler. Felícia Fleck vem falar sobre a contação de histórias como prática ancestral de experiência estética, literária e de fabulação. Seu texto traz os relatos e as reflexões de contadores de histórias atuantes em Santa Catarina e em Barcelona.

O último capítulo, das autoras Paula Renata Mariano e Tatiana Soares Brandão apresenta a mediação da leitura por meio de tecnologias assistivas e sinalizam as competências e habilidades que o profissional bibliotecário precisa desenvolver para atuar na democratização do acesso à informação e autonomia aos deficientes visuais. Especificamente, a pesquisa das autoras elenca serviços, opções de tecnologias assistivas, atividades e acervos especiais a partir da experiência da Biblioteca Pública Municipal de Lagoa Santa, em Belo Horizonte (Minas Gerais) que desde 2011 oferece o serviço de acesso à informação para deficientes visuais.

Felínio Freitas traz no sexto capítulo (agora sim, trago o sexto capítulo para a conversa) um dos textos que mais me encantou sobre este tema. Tanto que o deixei para o final. Logo de cara nos encanta com uma frase de Carlos Bernardo Skliar sobre o momento da leitura, conexão singular que nos detém no presente de cada frase sendo lida. O autor do capítulo observa o mundo e as pessoas a sua volta, em suas relações solitárias com aparelhos de celular, e se pergunta sobre quem são essas pessoas e qual a relação de cada uma com a leitura, como chegaram até a leitura se é que chegaram… e que leituras são essas? Felínio aproxima a mediação da leitura ao conceito de mediação cultural e nos fala sobre uma narrativa-mediadora como estratégia para gerar diálogos. Diálogos que poderão incentivar ou permitir processos a partir dos livros, para criar vínculos e conexões. “A preparação para a mediação começa na escolha do livro (objeto gráfico, ilustrações, as relações entre texto e imagem, metáforas que podem ser criadas por aquelas obras), passa por pensar no perfil do público leitor e na preparação para o encontro com o público leitor. O principal, neste encontro, é ouvir as falas, desejos e gestos.

Palavras que observei em todos os textos que tratam da mediação da leitura literária e cada vez que se repetiam me tocavam um sino na mente por criar automaticamente uma conexão com o que eu já havia lido ou estudado há pouco: escuta, vínculo, tempo, fruição, literatura, social, cultural, encanto, histórias, pessoas, planejamento ou preparação, amor, leitura, oralidade, comunidade, silêncio, apropriação, interferência, sentimento, informação, conhecimento, processo, alternativo, mediador, troca, velocidade, autonomia, coletivo, tecnologia, vivência, aprendizado, experiência, escrita, escritor, leitor… mundo.

A palavra biblioteca ou bibliotecário apareceu também, inúmeras vezes, mas me fez pensar que trata-se de ambiente, nada determinante para que o processo da mediação da leitura literária de fato possa acontecer. O ambiente é o mundo e o cada um dos envolvidos neste propósito. Portanto, um presídio, uma geladeira, um ônibus, uma sala, uma biblioteca ou uma caixa, um pedaço de chão podem permitir a mediação e o vínculo em processos de leitura literária.

Então é isso? Não é, vai sendo, vai se construindo… o vínculo e o amor se constroem, se estabelecem nas relações entre livros, autores, mediadores e vivências pessoais e coletivas… A mediação da leitura literária é processo incansável porque se reinventa a partir da ambiência na qual está envolvida e se propõe a atuar.

Quando lemos algo nossa voz é quem narra o escrito do outro, nossa voz se “submete ao escrito, une-se a ele”, como bem diz Cavallo e Chartier (1998, p. 49) citado por Felínio Freitas. Então nesse momento singular da leitura somos narradores também, a história que lemos rumina conhecimentos, lembranças e vivências em nós, e nesse momento único em que conversam o escritor, a história e o eu, acabamos por ser autônomos de nossos próprios pensamentos, sentimentos e conexões que se criam a partir das leituras de fazemos.

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