Este livro é fruto do discurso escrito por José Ortega y Gasset, proferido no Congresso Internacional de Bibliotecários em 20 de maio de 1935, e faz parte da bibliografia básica de muitos cursos de Biblioteconomia, eu li no primeiro ano da graduação e a revisitei agora, pensando no dia 12 de março, dia em que se comemora o dia do Bibliotecário, data instituída pelo Decreto nº 84.631, de 9 de abril de 1980, em homenagem a data do nascimento de Manuel Bastos Tigre, que se formou em engenharia, mas após conhecer Melvil Dewey, durante uma viagem, ficou encantado com a Biblioteconomia e ao retornar ao Brasil se dedicou a estudá-la e a exercer a profissão, além disso, também era escritor e poeta.

Isto posto, voltemos a José Ortega y Gasset e seu discurso, que inicia com o questionamento: o que é missão? Etimologicamente é “aquilo que um homem deve fazer em sua vida”, e citando Descartes, o autor acrescenta “Quod vitae sectabor iter?”: aual caminho de vida escolherei?.

“Missão é isto: a consciência que cada homem tem de seu mais autêntico ser, daquilo que está chamado a realizar. A idéia de missão é, pois, um ingrediente constitutivo da condição humana […] Sem homem não há missão […] Sem missão não há homem.”

Ortega y Gasset discorre ao longo do seu discurso sobre o que ele acredita ser a missão do Bibliotecário e em como essa missão está diretamente relacionada com a evolução da sociedade, o que faz com que a profissão esteja sempre se reinventando, uma vez que está atrelada à necessidade social que o livro representa para esta sociedade.

Discorre ainda sobre a facilidade de acesso ao livro, que em outras épocas não existia, e como estão sendo produzidos sem critérios, em série e como esse fenômeno é prejudicial até mesmo para o “homem de ciência” que está com dificuldades em “orientar-se na bibliografia de seu tema”, fazendo referência a torrente informacional que segundo o autor aflige a humanidade.

Explana acerca da nova missão do bibliotecário, que segundo o autor é o papel de higienista, de abrir caminho em meio ao surgimento de tantos livros, que estão se tornando um perigo para o homem, já que “muitos deles são inúteis ou estúpidos, e sua existência e conservação constituem um lastro a mais para a humanidade, que já anda exclusivamente curvada sob o peso de outras cargas”. Em contrapartida, outros de extrema importância estão escassos.

E finaliza seu discurso expondo a construção da memória que era guardada por meio da memória dos anciãos, ou seja, pela oralidade, e que a invenção da escrita os libertou e as materializou, colocando o conhecimento a disposição de todos. O autor ressalta que somente a escrita e a leitura não bastam, é necessário revisitar o contexto em que o livro foi escrito, se aproximar do autor, fazer o mesmo caminho que ele, demonstrar que “antes de ler o livro pensou por conta própria sobre o tema e conhece suas trilhas”. O autor encerra com uma fala de Platão:

“Confiando os homens no escrito, acreditarão compreender as ideias, e assim as tomam por sua aparência, graças a indícios exteriores, e não a partir de dentro, por si mesmos […] Abarrotados de supostos conhecimentos, que não adquiriram de verdade, julgar-se-ão aptos para julgar tudo, quando, a rigor, nada sabem e, ademais, ficarão insuportáveis porque, ao invés de sábios, como se imaginam, serão apenas carregamentos de frases”.

No posfácio consta a circunstância política e social em que o discurso “Missão do bibliotecário” foi escrito e recebido pelos leitores da época.

Vamos refletir?

Autor: José Ortega y Gasset

Tradução e posfácio: Antonio Agenor Briquet de Lemos

Editora: Brinquet de Lemos

Ano: 2006

82 p.

Fonte: Bibliothinking