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Quais tipos de leitura são recomendados pela escola?

Quais tipos de leitura são recomendados pela escola?
Para Silvia Castrillón, escolas devem abrir diferentes espaços para a leitura. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

Em todas as fases escolares é preciso ler livros. Mas que referências os educadores estão ajudando a perpetuar? Pesquisadores afirmam que é preciso repensar a indicação de livros, para dar voz a todos os personagens que compõem a história do País. É preciso fazer uso da leitura e da escrita no sentido mais amplo, afinal todo o conhecimento divulgado pela humanidade faz parte de uma construção da história de forma coletiva. Assim sendo, é um dever apresentar aos alunos a diversidade que compõe essa “colcha de retalhos”. Esse foi um dos temas discutidos durante o II Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura, promovido no Sesc Pinheiros, em São Paulo*.

A escritora e professora Rosane Borges, colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda da ECA/USP e conselheira de honra do grupo Reinventando a Educação, lembra que a leitura foi passando por diversos estágios ao longo do tempo, mas sempre as relações de poder se mantiveram. “Se você for leitor de mundo e da vida, você será munido de conhecimento”, disse.

Ela falou sobre leituras que não são acessíveis nas escolas. “Devido a isso, nossas formas de escrita já nasceram a partir de um olhar que visibiliza e invisibiliza. A gente não recorre a corpos e vozes negras para serem leitores e falarem de suas perspectivas”, aponta. “É por meio da leitura e escrita que eu refundo o universal, a humanidade, e se Clarice Lispector pode, Conceição Evaristo também pode. Nossa educação desumaniza pessoas negras, indígenas e trans.”

Bianca Santana, escritora, colunista da Revista Cult e pesquisadora da memória e escrita de mulheres negras, complementou dizendo que aqueles que querem outras narrativas, têm de ir atrás, porque não são apresentadas espontaneamente na escola. E essas outras composições, disse, não são para ninar. “São para não dormir mais”, frisou.

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“Com a palavra podemos recuperar e construir o que somos”, diz Margarita Valencia. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

A escritora colombiana Margarita Valencia, do Instituto Caro y Cuervo, que estuda literatura e linguística, ressaltou que a palavra é formadora de identidades e raízes. “Com a palavra podemos recuperar e construir o que somos. E somos múltiplos.” Margarita disse que acredita numa escola mais reconhecedora do que instrutora. “É preciso reconhecer o saber do outro antes de se posicionar como instrutor.”

Como o assunto principal foi a leitura, todos os estudiosos convidados para participar do seminário falaram sobre a importância dos mediadores de leitura, que são os responsáveis por facilitar o encontro entre livros e leitores.

O professor chileno Felipe Munita, doutor em didática de língua e literatura pela Universidade Autônoma de Barcelona, citou um projeto em que os jovens recebem uma bolsa de apoio para ler, mas de tudo. São 20 jovens que devem ler, cada um, 50 obras. “Os grupos dominantes sabem que a linguagem muda a realidade”, disse. Ele também fez questão de ressaltar que as escolas precisam de bons professores, que sejam bem remunerados e contem com bons materiais.

Já a bibliotecária, escritora e editora colombiana Silvia Castrillón, observa que a leitura deve ser definida em função dos seus objetivos educativos e que as escolas devem abrir espaços de leitura em lugares diferentes, que as pessoas possam ficar à vontade, em meio a almofadas e sem sapatos. Também reforçou: “A presença do Estado deve assegurar docentes bem formados para fazerem intervenções educativas potentes.”

Jardson: um jovem armado de livros

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“Me identifiquei e compreendi que a leitura tem potencial transformador”, diz Jardson. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

A leitura é importante não apenas para o vestibular e isso os educadores precisam ter em mente. É preciso que se ofereça opções para além da questão profissional, mas pensando também na humanização e no tipo de leitura que seus alunos precisam, de acordo com seus contextos de vida. Isso porque a leitura também serve para mudar realidades, é um agente transformador e não faltaram exemplos de vida no Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura para falar sobre isso.

Jardson Remido, 25 anos, é um dos jovens que se considera “resgatado” pelos livros. “Me identifiquei e compreendi que a leitura tem potencial transformador.”

Ainda menor de idade, em 2012 Jardson foi apreendido e obrigado a cumprir medida socioeducativa, tendo sido enquadrado no artigo 33 (tráfico de drogas). Ao sair, mudou de bairro e passava o dia escutando um CD de rap do cantor Sabotage. Foi quando percebeu a força da palavra e, na quinta faixa, intitulada “Cocaína”, ouviu algo que o fez despertar: “um dicionário no bolso e a leitura de um livro é necessário”. Desde então, entendeu que a leitura “tira do tiro da viatura”.

Jardson afirmou que no momento em que se deu conta que estava reproduzindo o que o sistema queria dele, resolveu mudar. E ao se debruçar nos livros, veio a necessidade de passar esse conhecimento a outros jovens. Ele tem realizado palestras em locais como a Fundação Casa, escolas públicas e universidades. E aconselha a todos: “é bem melhor quando a polícia chegar e perguntar se tu tem passagem, você responder que tem passagem sim, mas na biblioteca, por inteligência.”

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Jardson mudou a realidade de sua vida e seu futuro com os livros. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

Ele afirma que manteve a gíria em seu jeito de falar porque não queria “suicidar” a sua linguagem para se adaptar à linguagem dos playboys. “Isso é política também”, disse. O fato de manter a gíria também o ajuda a se aproximar dos jovens da periferia, que estão em situação de vulnerabilidade social. “Muitos jovens acham que a única perspectiva deles é o crime, porque acreditam que é o único lugar que lhes cabe na sociedade”, frisa. Na opinião de Jardson, existem várias empresas multinacionais com grande estrutura que poderiam oferecer oportunidades para essas pessoas, mas não conseguem estabelecer um diálogo com o jovem favelado, pobre e negro. “Elas precisam se reinventar. O afeto regenera, uma palavra positiva, com um sentimento genuíno, levanta. Basta chegar nessas pessoas e falar: preciso de tu aqui, não tenho como fazer esse corre sozinho. A vida do jovem da periferia é muito difícil. O próprio Estado ensina a ele a quebrar o Código Penal, a pegar numa arma, porque não dá a ele o acesso às oportunidades.”

Jardson afirma que o caminho é o empresariado se abrir para esses jovens, perceber o potencial que têm. “Tem de trocar ideia, olhar no olho mesmo e falar papo reto, estar sempre investindo nele. É preciso se unir para todo mundo transcender junto.”

Para Bruno, literatura humaniza as pessoas

Um jovem que conheceu os livros após uma experiência desagradável foi Bruno de Souza. A direção da escola onde estudava o deixou “de castigo” na biblioteca. Foi com os livros que descobriu que aquilo que a diretora falava que era rebeldia, em suas leituras falava que era empoderamento. “Sou muito grato aos livros e a tudo o que a leitura proporcionou em minha vida.” Atualmente, ele estuda Pedagogia e é um dos gestores da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, situada em um cemitério no bairro Parelheiros, em São Paulo.

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Um “castigo” na biblioteca apresentou Bruninho aos livros. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

Para Bruninho, como é conhecido, a literatura é seu território de afeto. “É onde a gente pode se encontrar, se perceber, sentir como aquela leitura nos afeta. Por meio da leitura a gente pode questionar a desigualdade social, o racismo, entender nosso lugar no mundo e criar outras possibilidades.” Na visão de Bruninho, a leitura também é responsável por colocar o pé no chão do mundo e trazer responsabilidade. “A gente passa a pensar e aí, o que você vai fazer com isso? Então, a literatura tem esse papel de humanizar o indivíduo.”

Ele conta que costuma dizer para os amigos que quer ser professor. “E a literatura tem me provocado tanto que minha meta é ser o próximo ‘Paulo Freire pretinho do rolê’”. A ideia de Bruninho é pensar uma Educação que tenha a ver com as pessoas que se parecem com ele. “Precisa ter alguém que enxergue a nossa quebrada, o nosso território. Temos pessoas que estão fazendo uma trajetória para além das histórias únicas que nos são oportunizadas, então é isso que a literatura tem me proporcionado e eu quero proporcionar aos outros. Minha missão é fazer com que minha história e as oportunidades que tive não sejam exceção, mas direito para as outras pessoas.” Bruninho também destaca a importância do mediador de leitura nesse processo. “Ele precisa entender o contexto que o jovem está inserido, o que ele está sentindo. Um livro só faz sentido quando tem história de vida relacionada.”

Ele lembra que ainda hoje viver a juventude tem sido direito de alguns. “Ser jovem preto, na quebrada, é lutar pelo direito de existir.” Mesmo assim, apesar das dificuldades, ele e tantos outros estão desenvolvendo ações importantes para a transformação de suas comunidades. “Eu faço parte de coletivos que vêm discutindo mudanças, desde ampliação de avenida, até mesmo conseguimos fazer com que o governo adquirisse um clube interditado para ceder para projetos. Faço parte dos encrespados que pensam uma educação antirracista.”

Conforme Bruninho, a sociedade precisa olhar para uma ótica mais da abundância que pela escassez. “As escolas deveriam evidenciar o positivo. Estamos vivos e produzindo. Tem muita gente como nós fazendo isso e há muito tempo.”

O músico José Miguel Wisnik, que é professor de literatura brasileira na USP, encerrou o seminário fazendo um breve registro do momento atual do País. Wisnik endossou tudo o que foi mostrado durante os três dias. Ele resumiu tudo dizendo que as periferias estão mostrando uma capacidade de articulação e expressão inequívoca. “Esse é o maior acontecimento na cultura brasileira, que veio substituir o grande ciclo modernista”, ressaltou.

Naquela época, citou Wisnik, intelectuais letrados queriam incorporar a realidade popular, a cultura popular. “Isso foi mostrado em suas obras, nos textos, nas pinturas, no Cinema Novo, na canção.” De acordo com Wisnik, os homens letrados queriam entender o que era o Brasil, queriam descobrir aquilo que é próprio do povo brasileiro. Também queriam mostrar a desigualdade e exclusão, e fizeram por meio de uma incorporação artística que mostrasse isso. Agora, de acordo com sua observação, a questão ganhou outro corpo. “As periferias conquistaram uma força pela palavra que altera esse quadro. Não tem mais a figura dos mediadores da classe média intelectualizada como eu. Estamos em outro período histórico.” (Daniela Jacinto)

* O seminário aconteceu nos dias 19, 20 e 21 de março e foi resultado de parceria entre o Itaú Social, Sesc Pinheiros, Comunidade Educativa Cedac e Instituto Emília. A reportagem esteve presente a convite do Itaú Social.

Fonte: https://www.jornalcruzeiro.com.br

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