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Professora Carminda Nogueira de Castro Ferreira, estrela-guia da Biblioteconomia

Por (*) CIRILO BRAGA

Professora Carminda Nogueira de Castro Ferreira, estrela-guia da Biblioteconomia - Crédito: Álbum de Família/FPMSCCrédito: Álbum de Família/FPMSC

Neste dia 26 de outubro, quando a Prefeitura inaugurar oficialmente o CEMEI Carminda Nogueira de Castro Ferreira, no Residencial Eduardo Abdelnur, o município de São Carlos terá concretizado uma necessária e muito justa homenagem à memória de uma educadora inesquecível. Certamente uma das maiores da rica história da educação e da cultura na cidade.

O Centro Municipal de Educação Infantil petrifica a lembrança de uma mulher de ideias e ações avançadas, que viveu à frente de seu tempo.  No âmbito familiar, na profissão e na comunidade, alguém que com espantosa vitalidade soube ao longo da vida ministrar aulas memoráveis de ética, correção e idealismo. E empreendeu nesse mundo uma caminhada alicerçada na fé. A mesma fé com a qual durante décadas se tornou um expoente na integração entre portugueses de brasileiros.

A professora Carminda adotou São Carlos como sua terra logo ao chegar em 1948, procedente de Portugal onde nasceu em Espinho no ano de 1921. Uma mudança e tanto, pois na ocasião estava grávida do quarto filho. Ao lado do marido, o Cônsul Honorário de Portugal Oscar Ferreira, falecido no ano de 2000, ela constituiu uma respeitável família de 11 filhos que lhe deram 35 netos e 34 bisnetos.  Admirável, conseguiu conciliar muitos afazeres sem nunca abrir mão de exercer suas potencialidades – sobretudo intelectuais – conservando na fala um delicioso sotaque e sobre o peito o colar de pingente com figuras que representavam seus filhos.

O começo da vida além-mar não a intimidou e, aos 27 anos, foi à luta: deu aulas de bordado, ensinou a fazer quitutes, cultivou flores e fez arranjos para casamentos. Tornou-se Bibliotecária, ao concluir o curso na faculdade aberta em São Carlos no começo dos anos 1960, para acompanhar o filho mais velho, que não fora aprovado em Engenharia. No futuro iria dar aula e assumir a direção da mesma faculdade.

Carminda lutou pelo movimento associativo no Brasil, integrando a Diretoria Executiva da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições-FEBAB, onde foi por muitos anos, conselheira. De 1979 até o fim da vida, deu consultoria a empresas como Itaú, Duratex e TAM, entre outras, sendo ainda consultora da ONU e Unesco para assuntos documentais.

A sólida formação que recebeu moldou seus caminhos de educadora. Doutora em Letras Românicas pela Universidade de Coimbra e mestre em Biblioteconomia, era Pós-graduada em Ciência da Informação e Administração de Empresa e especialista em organização de arquivos empresariais e públicos.

Sua contribuição a São Carlos foi muito além da importante participação na fundação da Escola de Biblioteconomia e do trabalho na implantação da UFSCar.

Dinâmica e incansável, a professora lecionou no Colégio São Carlos e no Colégio Diocesano, deu aulas inclusive no ensino fundamental e médio, além de coordenar seminários de nas áreas de informática e reprografia.  E cursos, muitos deles, sobre temas como novas tecnologias, estrutura organizacional, secretaria, gestão do conhecimento, atendimento ao cliente e outros.Também trabalhou em assessoria a escritórios de advocacia e em áreas de comunicação e organização em importantes empresas.

Em paralelo, foi muito presente no apoio à Paróquia de São Benedito e atuou como diretora social do São Carlos Clube.

A Igreja de São Benedito possui uma imagem de Nossa Senhora de Fátima doada pela família Castro Ferreira. Uma peça valiosa, encomendada diretamente ao artesão que esculpiu em Portugal a imagem que está exposta no Santuário de Fátima.

A professora que costumava levar doces portugueses quando visitava os amigos mais próximos, foi agraciada com o título de “Cidadã Honorária de São Carlos” e por duas vezes recebeu homenagens da União Cívica Feminina, tendo participado daquela entidade. Em 12 de março de 2010 foi homenageada pela Câmara na primeira sessão comemorativa ao “Dia do Bibliotecário”.

Mas foi mesmo a Biblioteconomia que a teve como referência a grande impulsionadora do segmento e fonte de inspiração para os profissionais que formou. Mais do que transmitir conhecimentos, apontou caminhos, motivou seguidores, entre os quais sua filha Rosa.  Ficou na memória das alunas e alunos como uma grande incentivadora. “Pessoa maravilhosa”, “a melhor professora que tive” é como muitos a definem. Pessoas que conheceram seu otimismo, visível no sorriso e no olhar da professora. Em 2010, a então vice-presidente da FEBAB, Regina Célia Baptista Belluzzo, a descreveria muito apropriadamente como “uma verdadeira Estrela Guia da Biblioteconomia brasileira”.

Carminda cunhou certa vez, dirigindo-se a seus alunos, uma frase memorável: “O Bibliotecário não tem futuro! O bibliotecário é o futuro”. E, com seu costumeiro entusiasmo pela vida, dizia: “Imagine se eu pudesse desmembrar todas as lembranças que tenho!”

Vastas lembranças, tão grandes e intensas como a saudade que deixou ao falecer em 14 de outubro de 2010. Véspera do Dia do Professor. Nada mais emblemático para lançar ao tempo a mensagem eterna de sua fecunda e luminosa presença entre nós.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

Crédito: Álbum de Família/FPMSC

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