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Prédio receberá o nome do doador de verba

Por Francisco Lima Neto
Complexo Cultural Roque Melillo
Leandro Torres/AAN

Complexo Cultural Roque Melillo

O último desejo do campineiro Roque Melillo, conhecido como o milionário excêntrico, está perto de ser realizado. Passados 45 anos, a Prefeitura de Campinas deve editar um decreto para batizar o prédio que abriga a Biblioteca Pública Municipal Professor Ernesto Manoel Zink e o Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Panceti de Complexo Cultural Roque Melillo. Ocorre que o milionário doou ao Município boa parte de sua fortuna para a construção da biblioteca e de uma escola de música. A exigência era de que os dois prédios levassem seu nome. O primeiro não recebeu e o segundo nunca existiu.
Para entender o enredo é preciso voltar ao passado. A história da família no Brasil começou com a chegada do casal italiano Antônio Melillo e Maria Thereza a Campinas. Aqui tiveram oito filhos. Cinco homens: João, José, Luís, Vicente e Roque. Além de três mulheres, que se tornaram freiras.
Desde pequeno, Roque buscava ser independente. Entre 8 e 10 anos teve o primeiro emprego, como assistente de bibliotecário, contra a vontade do pai, alfaiate, para comprar uma bicicleta. Ganhava 50 mil contos de réis e ajudava com as despesas da família. “Estudei engenharia por correspondência e, com os anos, passei a bibliotecário”, disse em uma entrevista.
Com o aumento no ordenado e sempre economizando muito, passou a viajar nas férias. Numa dessas viagens, resolveu voltar à Paris, sua grande paixão, em 1914. Para seu azar, o único navio disponível no porto de Santos partia para Nova Iorque. Mesmo a contragosto, com 25 anos, embarcou com a intenção de partir dos Estados Unidos para a França.
No entanto, ele ficou preso na terra do Tio Sam. Naquele ano, estourou a 1ª Guerra Mundial e Roque Melillo acabou “ilhado” no país por nove anos. “Os piores anos da minha vida, quando passei até fome”, dizia ele.
Por um golpe do destino, antes de sair de Campinas, Melillo comprou 100 ações do Banco do Brasil. Elas foram se multiplicando e, quase da noite para o dia, ficou rico. O milionário permaneceu nos Estados Unidos por 62 anos e conheceu praticamente o mundo todo. Foi jornalista, escritor e traduziu filmes. Para o Brasil, a passeio, voltou 32 vezes.
Ele era considerado excêntrico porque, entre outros motivos, mesmo sendo rico, morava em um prédio simples no bairro do Queens, em Nova York. Era aficionado por bibliotecas e cultura em geral, tendo feito várias doações para esse tipo de lugar. “Ele tinha uma personalidade muito exótica. Tinha uma cadeira reservada no Carnegie Hall — famosa casa de espetáculos na 7ª Avenida — por conta das inúmeras doações. Mas era muito simples. Morava em um apartamento muito pequeno e sem aquecimento central. Ele colocava uma chaleira no fogo para esquentar o apartamento durante o Inverno. Sem contar a bagunça de livros para todo lugar”, lembra o advogado Arthur Lemos, que esteve com ele várias vezes.
Já quase no final da vida, Melillo, que nutria grande amor por Campinas, decidiu doar a maior parte de sua fortuna para a Prefeitura. O objetivo era que fossem construídas uma biblioteca e uma escola de música.
“O prefeito Lauro Péricles recebeu uma carta dele no gabinete falando sobre isso. Mas, quando a esmola é grande a gente desconfia”, lembra Lemos, que era secretário de Fazenda à época.
Ele ligou para o consulado do Brasil em Nova York e confirmou que Melillo realmente era conhecido por lá, pelo seu jeito excêntrico, pelo amor à cultura, por já ter informado ao consulado seu desejo de fazer a doação.
Lemos, que é advogado, foi destacado para fazer os trâmites. Ele esteve várias vezes em Nova York com Melillo, até mesmo acompanhado pelo então prefeito.
Mas a iniciativa não agradou a todos. Quatro sobrinhos do milionário ingressaram na justiça, tentando embargar a doação, sob alegação de que o tio não estava bem de suas faculdades mentais. Isso, mesmo sem contato com ele há anos.
“Não entendo porque minha família está contra mim, me acusando de mania por bibliotecas. Eu devo muito às bibliotecas. Na Biblioteca de Campinas comecei a trabalhar e aprendi muita coisa. Foi numa biblioteca que aprendi a tocar piano. Insisto nisso porque a biblioteca faz o homem”, rebateu.
“Eles deveriam lembrar que, quando meu pai morreu, eu fui o único a recusar o que ele deixou. E deveriam ter protestado também quando, há cinco anos, eu fiz uma doação para um asilo dirigido por um dos meus sobrinhos. Naquela época ninguém me chamou de excêntrico”, cutucou.
Um médico brasileiro radicado em Nova Iorque atestou a sanidade mental de Melillo. Em 1974, ele doou para a Prefeitura 80% de suas ações do Banco do Brasil e todas as suas ações da Companhia Docas de Santos e da Companhia Industrial e Agrícola Santa Cecília, totalizando 4 milhões de cruzeiros. As ações foram vendidas e o prédio da biblioteca foi construído.
Sua exigência era de que a biblioteca e a escola de música recebessem seu nome. Além disso, pediu um casa com banheira, um enfermeiro e um carro com motorista. No entanto, ele adiou sua volta ao Brasil diversas vezes. Até que em 15 de outubro de 1976, ele foi encontrado morto em seu apartamento, aos 87 anos.
O
prédio recebeu seu nome, mas a biblioteca foi batizada de Professor Ernesto Manoel Zink. O mesmo prédio abriga o Museu de Arte Contemporânea José Pancetti. “Eu que tomei a frente para que a doação se efetivasse. Estava mexendo na documentação e minha consciência me cobrou para resolver isso e pedir que a Prefeitura cumpra a parte dela”, explica Lemos.
Ele fez contato com a Administração, que achou que a melhor solução é transformar a biblioteca e o museu em um complexo cultural e batizá-lo de Roque Melillo, segundo o secretário de Cultura, Ney Carrasco.
Fonte: Correio

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