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Por que pais que não leem desejam tanto ter filhos leitores?

Rodrigo Casarin

“Crianças Lendo”, do francês Édouard Vuillard.

No final do ano passado, o Ministério da Cultura e Esporte da Espanha, em parceria com a federação de editores locais, divulgou uma pesquisa apontando que 49,3% dos espanhóis são leitores frequentes, acompanhados de 12,5% de pessoas que leem ocasionalmente. Um outro número seria motivo para comemorar: a quantidade de pessoas que dizem nunca ler caiu de 40,1% para 32,8%. José Guirao, o ministro responsável pela pasta de cultura, no entanto, criticou: disse que ainda é um problema gravíssimo ter um país onde quase um terço dos habitantes nunca lê. Concordo com ele.

Uma reportagem publicada neste domingo pelo El País, contudo, olhou para alguns pormenores da pesquisa. Crianças de 10 anos estão lendo uma hora a menos por semana do que liam em 2017 e o número de adolescentes de 15 anos que se dizem leitoras caiu de 70,4% para 44,7%, uma redução impressionante. O veredito dos especialistas sobre o fenômeno aponta para algo um tanto óbvio: os jovens estão deixando de ler livros para passar mais tempo com o celular na mão, curtindo fotos no Instagram e assistindo a vídeos no Youtube.

Ao indicar uma solução para o problema, uma leitora assídua ouvida pela reportagem enfatizou: “Não podemos exigir nada dos jovens se nós não damos o exemplo. Se queremos que leiam, devem nos ver lendo”. O recado é claro: uma pessoa que não lê e que não dá o exemplo da leitura dificilmente conseguirá fazer com que o outro leia. É aí que lembro de um conhecido que há alguns anos resolveu ter filho e agora se desespera com a formação do moleque. O causo é dele, mas a história se repete aos montes por aí. Outro dia, enquanto conversávamos, ele veio com a grande questão:

– Cara, como faço para que meu filho leia mais? Ele está com uns problemas na escola, a professora disse que ele lê muito pouco, em casa mesmo a gente nunca vê ele lendo. – Você e sua mulher costumam ler? – joguei no ar mesmo sabendo da óbvia resposta. – Não. Não consigo me concentrar num livro, tô sempre cansado… – blá blá blá.

Para encurtar o papo, o camarada quer que o filho seja um leitor porque sabe que ler é importante, mas ele mesmo não tem a leitura como hábito. Penso desde então: por que pais que não leem desejam tanto ter filhos leitores? Por que dizem se importar com a leitura, ainda que não leiam? A pergunta também pode ser encarada de maneira mais ampla, sem ter filhos na parada: por que tanta gente considera que ler é importante, mas não lê?

Ainda que eu tenha diversas possíveis respostas, é essencial que cada um nessa situação tenha uma discussão consigo e chegue ao próprio um parecer. Agora, para quem deseja ver o filho lendo, o melhor é começar a ler também. Existem alguns caminhos para isso, como sentar a bunda na cadeira e meter a cara num livro ou seguir essas outras sugestões menos diretas. Na reportagem do El País, a assídua leitora fala que todo dia há um momento para a leitura na casa onde vive, antes de todos dormirem.

Seguindo passos semelhantes, uma possibilidade é que os pais reservem um momento do dia para lerem junto com os filhos. Se não quiserem fazer isso diariamente, que guardem uns três dias na semana para tal. Sentem e leiam juntos por, digamos, meia hora. Essa leitura pode até ser dividida entre livros que todos leiam (em voz alta, por exemplo) e livros que atendam ao interesse de cada um, permitindo que apenas compartilhem o momento de silêncio e imersão nas páginas que têm em mãos. Ler não é um hábito que brota do nada, precisa ser plantado e bem cuidado para que exista – e normalmente dê ótimos frutos.

Fonte: Blog Página Cinco

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