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POR QUE ABRIR UMA LIVRARIA NO MEIO DA CRISE DO MERCADO EDITORIAL?

RUAN DE SOUSA GABRIEL

Rui Campos, que acaba de abrir uma loja da Travessa em São Paulo, dá dicas para quem pensa em virar livreiro

A nova loja da livraria da Travessa, em São Paulo Foto: DivulgaçãoA nova loja da livraria da Travessa, em São Paulo Foto: Divulgação

No ano passado, as duas principais redes de livrarias do país, a Saraiva e Cultura, pediram recuperação judicial e fecharam dezenas de lojas. Uma pesquisa da Fipe, a Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas, informou que a venda de livros em livrarias caiu 20,6% em 2018. Outra pesquisa mostrou que o mercado editorial encolheu 35% desde 2006. Quem, sabendo disso, pensaria em abrir uma livraria? O mineiro Rui Campos, dono da Livraria da Travessa, que acaba de abrir, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, a décima loja da rede. A Travessa Pinheiros abriu as portas no dia 9 de agosto, mas a festa de inauguração é neste domingo (18), das 14 horas às 22 horas.

A Travessa foi fundada em 1986, no centro do Rio de Janeiro, e cresceu aos poucos. Hoje são seis lojas no Rio, uma em Ribeirão Preto, uma em Lisboa (inaugurada em maio) e duas em São Paulo: uma no Instituto Moreira Salles (IMS), na Avenida Paulista, e a novíssima loja em Pinheiros. A nova livraria ocupa um sobrado de 200 metros quadrados e tem 18 mil livros no acervo. O projeto foi assinado pela arquiteta Bel Lobo.

Na tarde da última sexta-feira (16), conversei com Campos na varanda da nova loja para entender melhor por que alguém resolve abrir uma livraria quando uma dura crise ameaça o mercado do livro.

Nos últimos anos, assistimos ao fechamento de muitas livrarias e as duas principais redes do país, a Saraiva e a Cultura, estão em recuperação judicial. Por que abrir uma livraria no meio de uma crise tão severa do mercado editorial e livreiro?

Dizem que a gente enlouqueceu, porque só neste ano abrimos duas livrarias: a de Pinheiros e a de Lisboa. E vamos abrir uma outra, em Niterói. Mas mantemos o pé no chão. No mundo todo, o mercado editorial vem passando por mudanças. Assistimos às quedas de grandes redes de livrarias, como a Barnes & Noble e a Borders. Esse modelo não dá mais tão certo. Mas também assistimos ao surgimento de operações menores, o que o pessoal chama de “livrarias independentes”. Mas esse “independente” é bem discutível, né? O que é, exatamente, “independente”? São livrarias onde o dono está à frente do negócio, atrás do balcão. Apesar de ter dez lojas, a Travessa mantém isso. Somos oito sócios e seis de nós estamos o dia inteiro nas livrarias. Entre 2010 e 2012, as livrarias brasileiras estavam num bom momento. A Saraiva atendia a base da pirâmide de uma maneira muito interessante e com muita capilaridade. A Cultura crescia, com lojas ótimas, de muita qualidade. Mas, naquele momento, veio o e-book, o e-commerce, e elas apostaram muito nesse rumo. Eu brinco que nós, da Travessa, sofríamos bullying, porque nos diziam que o livro ia acabar e nós não acreditávamos. O e-book ocupou uma faixa muito pequena do mercado. A Saraiva e Cultura investiram milhões para ocupar o mercado digital. Elas também cresceram muito rápido, e livraria tem de ter personalidade, não dá para ficar replicando um modelo sem perder a identidade. O leitor percebe quando a livraria é de verdade e quando é só uma reprodução sem charme. Eles enveredaram muito por esse caminho e, quando a economia quebrou, foram pegos num momento muito sensível.

O que permitiu que a Travessa continuasse se expandindo em tempos de crise?

Nós nos guiamos pelo tripé “acervo, arquitetura e atendimento”. Não abrimos mãos de nossos livreiros mais antigos, como outras livrarias, que demitiram os mais qualificados porque tinham salários mais altos. Um bom livreiro não se forma em um, dois ou três anos, leva muito tempo. O dia a dia é fundamental para a formação dos livreiros. Nós tentamos sempre renegociar aluguéis e conter os custos. Nós não tivemos queda nas vendas em nenhum ano. Em 2016 e 2017, as vendas se mantiveram, mas não houve perda. A grande pancada foi o aumento dos custos, de todos os custos. Em 2018, voltamos a crescer. O Natal de 2018 foi muito bom, vendemos 40% a mais do que no ano anterior. Infelizmente, parte disso é por conta da queda dos concorrentes. Mas também porque as pessoas abraçaram as livrarias.

A nova loja da livraria da Travessa, em São Paulo Foto: Divulgação
A nova loja da livraria da Travessa, em São Paulo Foto: Divulgação

A crise das livrarias também colocou em cheque a consignação…

Recentemente, todo mundo resolveu jogar pedra na consignação. Eu concordo: consignação mal administrada é o pior negócio do mundo. Mas consignação bem administrada é o que proporcionou ao Brasil passar por um bom momento de crescimento das editoras. Faz diferença armazenar livros num depósito esperando os pequenos pedidos das livrarias e guardar seu estoque na Livraria da Travessa, que tem uma arquitetura maravilhosa, uma iluminação linda e uma refrigeração adequada. Aí o livro corre até o risco de ser vendido! Durante alguns anos, eu fui sócio da editora Aeroplano, onde pensava a parte comercial, do varejo. Quando saía um livro novo, tudo o que eu queria era que as livrarias aceitassem recebê-lo. Queria ver uma pilha do meu livro na livraria. Algumas pediam só três exemplares, mas, quando o livreiro era meu amigo, eu ligava e dizia que em vez de três ia mandar 30. Porque se você tem três exemplares na loja, provavelmente vai vender um ou dois. Se tem 20, vai vender sete ou oito. Aqui na Travessa nós desenvolvemos um software para administrar a consignação. Estamos lançando um outro agora que vai permitir às editoras acompanhar a trajetória do livro dentro da livraria. Já estamos testando, primeiro com a Companhia das Letras e depois com outras editoras. O editor vai poder ver quantos exemplares do livro novo do Milton Hatoum estão na Travessa, em quais lojas, quantos exemplares foram vendidos, se foi no Leblon ou em Ipanema, tudo. Porque às vezes o editor trabalha no escuro, distribui o livro mas não sabe se está vendendo. Tem de ligar ou mandar gente à livraria para olhar a pilha.

As pequenas redes de livrarias sempre mencionam a importância da curadoria. Como fazer uma boa curadoria?

A livraria tem de conversar com o público frequentador e tentar interpretá-lo. Uma vez um cliente me perguntou: “Quem escolhe os livros aqui?”. Eu respondi: “Você”. A gente riu, mas é verdade. Temos de ouvir o cliente e ter livreiros apaixonados e atentos ao que está rolando.

Quem entra na Travessa de Pinheiros vê, à esquerda, livros sobre feminismo, especialmente sobre feminismo negro, e temáticas LGBT. À direita, encontra edições portuguesas. Como foi feita a curadoria dessa loja?

Começamos a frequentar Pinheiros por conta da Casa Azul, que organiza a Flip e fica aqui perto. Vínhamos em reuniões com o Mauro Munhoz(diretor-geral da Flip) , que sempre foi um entusiasta da Travessa em São Paulo. Passeávamos por Pinheiros e ele me mostrava lojinhas, restaurantes, brechós, sebos. Um dia, passando aqui na rua, vimos esse sobrado e entendemos que Pinheiros pedia uma loja pequena, com uma curadoria refinada, que refletisse o público daqui. Se você for a livrarias de Nova York ou Paris, vai ver que os livros sobre feminismo, questões raciais e de gênero estão em destaque. São temas muito quentes e o mercado editorial está refletindo isso. O destaque dado aos livros portugueses é porque fomos arrebatados por Lisboa. Da mesma forma que o forte da loja de Lisboa são os livros brasileiros, queremos trazer livros portugueses para o Brasil. E é um sucesso! Levamos muitos livros portugueses para a livraria da Flip e esgotou! Tivemos de correr para repor os livros antes de abrir a loja aqui em Pinheiros.

Apesar da crise, assistimos ao fortalecimento de pequenas livrarias, de livrarias de bairro. Que conselho você dá a quem está pensando em empreender e abrir uma livraria?

Não existe uma livraria igual a outra. É por isso que nenhuma pode fechar. Cada livraria é única, tem uma personalidade. É uma pena quando a Saraiva fecha lojas, porque a Travessa nunca vai fazer o que a Saraiva faz. São propostas diferentes. O segredo, não do sucesso, mas da sobrevivência, é a livraria ter personalidade. A Travessa de Botafogo tem um clima parecido com a de Pinheiros: vende bem poesia, questões de gênero, literatura de vanguarda. É uma livraria mais jovem. A Travessa da Barra á uma livraria de shopping, bacanuda, que vende de tudo. A do Leblon é mais sofisticada. A de Ipanema é de vanguarda, vende bem livros de arte. Cada uma tem sua característica. Sempre há lugar para uma livraria que tenha uma identidade, que saiba conquistar o público e inventar a venda. É por causa das livrarias que os leitores descobrem que querem determinados livros. O barato da livraria é criar demanda, inventar a necessidade de livros de que o leitor jamais imaginou precisar. Por isso, quanto mais livrarias, e mais diversificadas, cada uma com seu sotaque, melhor.

Qual livro você está indicando para os clientes da loja de Pinheiros?

Nós, livreiros, somos muito sugestionados. É muito atropelo, você mal começa um livro e já chega outro. Hoje mesmo eu recebi a mensagem de um dos nossos livreiros, o Marcelão, que me mandou a capa de Serotonina , o novo livro do Michel Houellebecq, e disse que era “inacreditável”. E o Marcelo não fala isso toda hora, não.

Fonte: ÉPOCA

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