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Periódicos dos séculos 19 e 20 são digitalizados em Santa Catarina

O jornal mais antigo em circulação em Santa Catarina, “Correio do Povo”, teve o primeiro lote da digitalização entregue na semana passada

PAULO CLÓVIS SCHMITZ

Alzemi Machado contribuiu com a tarefa de digitalizar jornais antigos – Marco Santiago/ND

Em tom de ameaça, um dono de terras de Jaraguá do Sul proibia, em anúncio publicado no “Correio do Povo” de 8 de janeiro de 1921, que invadissem sua propriedade, ranchos e plantações. “Armei laços e mundéos e não me responsabiliso [grafia da época] por qualquer dano causado” era a frase que concluía o reclame. Esta é apenas uma das preciosidades que os jornais de um século atrás traziam em suas páginas, onde se mesclavam notas locais, anúncios de açougues e remédios, textos de fundo político-partidário e até sonetos que abriam a capa, ao lado de notícias sobre um terremoto na Albânia ou os milhares de refugiados famintos que perambulavam pela Europa depois do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Quem tem a tarefa de digitalizar jornais antigos pode topar com esse tipo de conteúdo e, se for um interessado por cultura e história, deliciar-se com descobertas relativas ao modo de pensar, agir, comportar-se socialmente ou comprar brigas com os desafetos e adversários daqueles anos – bem diferente e ao mesmo tempo semelhante à guerra surda das nossas redes sociais. É o caso do bibliotecário Alzemi Machado, 32 anos de serviços prestados ao governo e responsável, com uma pequena equipe da Biblioteca Pública do Estado, pela digitalização de 36 mil edições de periódicos catarinenses dos séculos 19 e 20. As 220 mil páginas já salvas e arquivadas são o resultado de muitas jornadas – em cinco horas, até 800 arquivos podem ser transferidos para o formato digital. Assim vem ganhando forma e corpo a Hemeroteca Digital Catarinense, acessível a todos os interessados pelo seu site oficial.

O “Correio do Povo”, o mais antigo jornal em circulação no Estado (foi criado em 1919), teve o primeiro lote da digitalização entregue na semana passada na cidade de Jaraguá do Sul. Até o início dos anos de 1940, período do Estado Novo, quando começou a perseguição aos descendentes de alemães, o periódico tinha um suplemento na língua de Goethe e parte dos anúncios também voltados aos que falavam predominantemente o idioma dos imigrantes. “Este jornal teve e tem grande importância, porque traz a memória da cidade e região, com aspectos de sua economia, política e cultura”, diz Machado. O mesmo vem sendo feito, no momento, com o “Correio do Norte”, criado em 1947 em Canoinhas, com o “Correio Lageano”, de Lages, e com “O Estado” e “A Gazeta”, de Florianópolis.

Jornais com fortes vinculações políticas

Uma passada de olhos pelo material do “Correio do Povo” no site da hemeroteca permite descobrir, por exemplo, que já em 1930 havia reclamações com o elevado preço da gasolina – “hoje, um artigo de primeira necessidade”, segundo o periódico. Aquele, aliás, foi um ano atípico, cheio, quando Getúlio Vargas marchou sobre o palácio do Catete, no Rio de Janeiro, e destituiu o presidente Washington Luís. Os jornais locais, quase sempre ligados a agremiações políticas, repercutiam esses acontecimentos, carregando nas tintas de acordo com os interesses dos grupos que representavam.

36 mil edições de periódicos catarinenses já foram digitalizadas pela hemeroteca – Marco Santiago/ND

Acusava-se os adversários por “intrigas e falsidades”, alimentando as refregas locais em que os principais partidos (UDN/União Democrática Nacional e PSD/Partido Social Democrático) se digladiavam nas câmaras e nas urnas. Foi com um discreto tom de regozijo que o “Correio” noticiou o julgamento de Luiz Carlos Prestes, Pedro Ernesto e João Mangabeira, “cabeças do comunismo no paiz”, na edição de 15 de maio de 1937.

Em Canoinhas, o “Correio do Norte” publicou um texto de capa com jeito de editorial em que defendia os udenistas contra um veículo concorrente a que chamou de “folhetim fascista”. O PSD, dizia a matéria, era “aliado dos comunistas”, uma acusação que não combinava com a vocação governista do partido de Nereu Ramos. O mesmo jornal criticou, na edição de 2 de maio de 1950, o governo do Estado por descumprir a palavra empenhada de auxiliar financeiramente o ginásio de Canoinhas, ao mesmo tempo em que “malbaratava o dinheiro público” ao conceder CR$ 30.000,00 a uma companhia de comédias que passou por Florianópolis.

O porteiro que salvou o acervo

A digitalização de jornais extintos ou ainda em circulação é o único programa que aproxima a Biblioteca Pública do Estado dos catarinenses que não residem na Grande Florianópolis. “Ela é confundida com uma biblioteca municipal, e esta é a primeira ação estadualizada da instituição”, diz o bibliotecário Alzemi Machado. Fruto de parceria com o IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), a Hemeroteca Digital Catarinense trabalha desde novembro de 2013 no armazenamento e disponibilização de títulos para consulta pública – hoje, eles já são 815. Relatório recente mostra que no segundo semestre de 2017 o site foi acessado por pessoas de 164 cidades do Estado e por 150 estrangeiros de 22 países diferentes.

O bibliotecário exibe um exemplar original do periódico “Correio do Povo” – Marco Santiago/ND

Jornais do século 19, como o pioneiro “O Catharinense”, de 1831, “Regeneração” (1868/1883) e “O Moleque” (1885), assim como “A Republica”, importante veículo do Partido Liberal Catarinense que circulou entre 1889 e 1937, podem ser consultados mediante busca pelo título do periódico ou pela cidade em que estavam sediados. O mesmo vale para o atualíssimo “Zero”, do curso de Jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), criado em 1982. Um convênio permitiu que a série “Blumenau em Cadernos”, lançada em 1957, tivesse a digitalização autorizada. A um clique está também “O Clarão”, jornal anticlerical que circulou entre 1911 e 1918 e que se autodefinia como “um órgão de combate legalmente constituído”.

Alzemi Machado se interessou muito pela história de um porteiro da Biblioteca Pública chamado João Crisóstomo Paiva, que no final da década de 1920 se mobilizou para impedir que o então diretor acabasse com a coleção de jornais do século 19 em posse da casa. Primo de Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva (o arcipreste Paiva), ele conseguiu evitar o fim do precioso material, no que contou com a ajuda, entre outros, do professor e historiador José Boiteux, fundador e ex-presidente do IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina). Aposentando como amanuense arquivista em 1938, ele foi porteiro da biblioteca durante 23 anos e era citado pelo escritor Carlos da Costa Pereira, diretor da instituição nas décadas de 1940 e 1950, como o responsável pela salvação do acervo.

Um caderninho com fatos relevantes

Mesmo diminuta, a equipe da Hemeroteca Digital Catarinense quer ir além da digitalização do próprio acervo e de outros que sejam oferecidos por terceiros. Neste sentido, busca empresas, pessoas físicas e instituições detentoras de patrimônios editoriais e patrimoniais de periódicos para que disponibilizem esse material, garantindo a sua conservação. O trabalho é longo, árduo, braçal, expondo os profissionais ao contato com a acidez e as patologias do papel. O mais importante jornal de Santa Catarina, “O Estado” está digitalizado de 1915, ano de sua criação, até 1955, faltando o longo período até 2008, quando deixou de circular. Em compensação, 98% dos jornais de século 19 estão digitalizados e disponíveis para consulta, pesquisa e transferência de arquivos.

Jornais como “O Moleque” (1885) foram transportados para o mundo digital por meio da digitalização – Marco Santiago/ND

Também são metas da equipe publicar um catálogo ilustrativo do acervo de periódicos raros da Biblioteca Pública do Estado e realizar uma exposição com capas de jornais manuscritos e escolares já editados em Santa Catarina. Em setembro, em Lages, vai acontecer o 1º Seminário Estadual da Hemeroteca Digital Catarinense.

Alzemi Machado tem o hábito de anotar as coisas que mais chamam a sua atenção, mesmo sem tempo para se deter na leitura de cada página que digitaliza. Em seu caderninho estão, por exemplo, datas em que fatos relevantes foram noticiados, como a inauguração do cine São José, em Florianópolis, em 1954, e a abertura da célebre Confeitaria do Chiquinho, na rua Felipe Schmidt, na primeira década do século 20. “Pelos jornais, podemos saber como eram as cidades muitos anos atrás, totalmente horizontais, as alterações da arquitetura urbana, os tipos de vestuário, as modas e os valores de épocas diferentes”, diz o bibliotecário. Também chamou sua atenção que há jornais em que os exemplares publicados durante os primeiros anos da ditadura não fazem parte do acervo da biblioteca.

Fonte: Notícias do Dia

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