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Parâmetros para a composição de um acervo em literatura infantil: o conto

Por Cristiane Mori

Dando início à série de posts sobre composição de acervo, a professora Cristiane Mori fala sobre os contos e indica o que não pode faltar numa biblioteca infantil

 

Este texto é o primeiro de uma série de textos que faremos aqui no Blog Singularidades, objetivando apresentar alguns parâmetros para a composição de um acervo de livros que potencialize o trabalho didático com a literatura infantil e contribua para a formação do leitor literário, a ampliação de seu repertório e o desenvolvimento de critérios de escolha que possam apoiar o mediador de leitura a empreender, gradativamente, uma curadoria. Começaremos com este item:

Contos

‘Contos’ é uma categoria que pode ser denominada ‘guarda-chuva’, uma vez que sempre há, especialmente no caso da literatura infanto-juvenil, um ‘sobrenome’ a completar e especificar de que conto se trata: de encantamento, de repetição, cumulativo, de esperteza (ou de enganação), de assombração, dentre outros.

Além disso, a expressão contos populares pode, em certa medida, ser aplicada à maioria desses contos listados – se não, a todos –, porque todos os contos nasceram na tradição popular, eram contados oralmente e foram passados de boca em boca até serem coletados e registrados.

Isso aconteceu com um conto como Chapeuzinho Vermelho e também com um conto de enganação, que tem Pedro Malasartes como personagem, ou com Cinderela. Nesse caso, costuma-se falar em contos de fadas, mas Câmara Cascudo (2006)[1] indica o emprego do termo mais amplo contos de encantamento ou maravilhosos, para designar aquele conjunto de contos que apresenta um elemento mágico.

Cascudo, a propósito, em suas incursões pelo Brasil, coletou e registrou centenas de contos e propôs uma classificação que inclui, ao lado dos contos de encantamento ou maravilhosos, também os contos humorísticos, contos de exemplo, contos religiosos, contos de animais, contos novelescos ou de amor e recompensa e os contos de fórmula ou acumulativos, que já mencionamos.

Quando se pretende organizar o acervo de uma biblioteca – seja escolar, de sala ou pessoal – é mister incluir as coletâneas de contos. O mercado editorial coloca à nossa disposição uma miríade de títulos, no entanto,  nem todas primam pela qualidade, seja dos textos seja das ilustrações.

Muitos não são fiéis às versões originais e apresentam adaptações que resultam em textos mal escritos e com enredos empobrecidos. Por isso, é fundamental conhecer aquelas coletâneas que buscaram ser fiéis aos textos originais, o que facilitará a escolha de qual coletânea comprar e/ou adotar na escola.

Contos populares clássicos

As coletâneas de contos de encantamento coletados e registrados por Charles Perrault e pelos Irmãos Jacob e Wilhem Grimm são presença obrigatória em qualquer biblioteca. Foram histórias contadas por adultos, camponeses que viviam na França nos séculos XVII e XVIII, que se transformaram nos contos que conhecemos e (re)contamos até hoje.

Vivendo os tempos de horror do reinado de Luís XIV, os camponeses sofriam toda sorte de privação e eram perseguidos, caso não seguissem o cristianismo. Os contos – ao lado de outras manifestações populares, como danças e canções – eram sua forma de manter viva as tradições pagãs e, principalmente, de retratarem os horrores que viviam e as soluções – que só poderiam ser mágicas – para suas infelicidades.

Era comum que esses camponeses trabalhassem como servos na casa dos burgueses e foi assim que os contos de sua tradição chegaram até nós, principalmente, pelas mãos de Charles Perrault.

De acordo com Darton (1986)[2] – historiador americano, especialista em história da França do século XVIII – Perrault provavelmente coletou a tradição oral do povo francês com a babá de seu filho. No entanto, ele modificou tudo, para que os sofisticados frequentadores dos salões apreciassem a sua primeira versão dos Contos de Mamãe Ganso, publicada pela primeira vez em 1697.

Assim, quando publicados, os contos não tinham mais todas aquelas tintas de incesto, canibalismo, sedução e outros elementos próprios à tradição popular; ao contrário, foram amenizados e ganharam, na pena de Perrault, uma perspectiva moralizante e pedagógica.

Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, O Pequeno Polegar, Barba Azul, As Fadas, O Gato de Botas, Pele de Asno, Cinderela, Os Desejos Ridículos, Ríquete de Topete estão entre os contos que compõem a coletânea de Perrault que, para a maioria dos pesquisadores, inaugura a literatura infantil. E até hoje, mais de 320 anos depois, os contos de Perrault continuam a ser editados e a encantar crianças de todo o mundo, inclusive as nossas!

Na Alemanha, os irmãos Wilhelm e Jacob Grimm coletaram mais de 200 contos e, em 1802, reuniram-nos na coletânea Contos para o lar e as crianças. De acordo com Ana Maria Machado (2002)[3], o próprio título já mostrava que, diferentemente de Perrault, o livro não se destinava à leitura pela corte; seu objetivo era o de ‘preservar um patrimônio literário tradicional do povo alemão’ (p. 71), razão pela qual procuraram, em sua prosa, manter uma linguagem fiel àquela empregada pelos contadores populares.

Além de novas versões para os contos de Perrault, os irmãos Grimm deixaram como legado alguns dos clássicos preferidos pelas crianças (e pelos adultos, também), como Branca de Neve e João e Maria, dentre tantos outros.

Finalmente, encerrando uma espécie de trilogia dos contos de fadas, encontramos o dinamarquês Hans Christian Andersen. Entre 1835 e 1842, ele lançou seis volumes de contos para crianças.

Além de recontar contos populares, como haviam feito Perrault e os irmãos Grimm, Andersen criou novas histórias, as quais, segundo Machado (2002), seguiam ‘o modelo dos contos tradicionais, mas [traziam] sua marca individual e inconfundível – uma visão poética misturada com profunda melancolia’ (p. 72).

A importância da obra de Andersen é tamanha, que se comemora o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil na data de seu aniversário – 2 de abril – e o mais importante prêmio para escritores do gênero tem seu nome. Seu legado inclui, dentre outras, histórias como O Patinho Feio, A Roupa Nova do Imperador, Polegarzinha, A Pequena Sereia e Soldadinho de Chumbo.

Ainda de acordo com Machado (2002), a escrita autoral de Andersen animou outros escritores a incursionarem no universo da literatura para crianças e alguns escritores já consagrados o fizeram, como Oscar Wilde – cujos contos O Rouxinol e a Rosa e O Gigante Egoísta são simplesmente imperdíveis – e Ítalo Calvino, que nos presenteou com as belíssimas Fábulas Italianas, uma coletânea de contos da tradição popular de seus país, a Itália.

A fim de conhecer toda a riqueza da obra desses autores, recomenda-se a leitura de:

– PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. 4 ed. Rio de Janeiro: Villa Rica, 1994. (Coleção Grandes obras da cultura universal, 8).

– IRMÃOS GRIMM. Contos maravilhosos infantis e domésticos (1812 – 1815). Ilust. J. Borges. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

– ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio e outras histórias. Trad. Heloísa Jahn. São Paulo: Editora 34, 2017.

CALVINO, Italo. Fábulas italianas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 

Contos populares brasileiros

A tradição popular europeia, representada nos contos de Perrault, Grimm e Andersen, chegou no Brasil, onde se mesclou à tradição oral africana e indígena e deu origem ao que se pode denominar tradição oral brasileira.

Para conhecê-la, recomenda-se especialmente os Contos Folclóricos Brasileiros, de Marco Haurélio (São Paulo: Paulus, 2010. Coleção Lendas e Contos), que segue a classificação proposta por Câmara Cascudo e traz exemplares para cada tipo de conto.

Histórias à brasileira: a Moura Torta e outras (Ilust. Odilon Moraes. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002) inaugura uma série de 04 volumes, em que Ana Maria Machado retrata de forma bastante extensiva a nossa tradição popular. 

Contos cumulativos

São inúmeros os títulos disponíveis no mercado que trazem contos cumulativos ou acumulativos, ou seja, contos em que a estrutura do enredo se repete e, a cada ação, um novo elemento é introduzido e acrescentado aos anteriores.

A formiguinha e a neve, da tradição popular, ou A casa sonolenta (WOOD, Audrey. Ilust Don Wood. 16 ed. São Paulo, Ática, 2009. Coleção Abracadabra) são só alguns dos inúmeros exemplos.

Num bom acervo não pode faltar a Coleção Conta de novo, da editora FTD, de Ana Maria Machado, que conta com títulos como Ah, cambaxirra, se eu pudesse, O rei Bigodeira e sua banheira, O domador de monstros, Pimenta no cocoruto, Uma boa cantoria e O barbeiro e o coronel: 

Contos de esperteza ou de enganação

Aqui, recomendam-se, especialmente, as coletâneas que trazem as aventuras de Pedro Malasartes, como Malasartes: Histórias de um Camarada Chamado Pedro (PESSÔA, Augusto, Rio de Janeiro: Rocco, 2007. Coleção Na Boca do Povo).

Contos de assombração

Os contos de assombração também integram a tradição popular de muitos países e, no caso do Brasil, é de Ricardo Azevedo o título indicado: Contos de Enganar a Morte (São Paulo: Ática, 2003.

Contos populares do mundo

Assim como o Brasil, muitos países têm uma vasta tradição de contos populares e, atualmente, o mercado editorial coloca à nossa disposição inúmeras coletâneas que nos permitem entrar em contato com as tradições de vários lugares do mundo. Para a composição do acervo das bibliotecas – escolar, de sala ou pessoal – recomenda-se, especialmente:

– NEIL, Philip. Volta ao mundo em 52 histórias. Trad. Hildegard Feist. Ilust. Nilesh Mistry. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998.

– HIRATSUKA, Lúcia. Contos da montanha. São Paulo: SM, 2005.

– E a coleção Histórias de outras terras, editada pela FTD, que, em cada volume, traz as histórias árabes, greco-romanas, africanas e russas, todas recontadas por Ana Maria Machado.

Tantos outros excelentes títulos poderiam ter sido mencionados, mas esses que recomendamos aqui já são, com certeza, o início de um acervo, cuja qualidade contribuirá para a formação pequenos (e grandes) leitores literários!

[1] CASCUDO, Câmara Luís da. Literatura oral no Brasil. 2 ed. São Paulo: Global, 2006.

[2] DARTON, Robert. O grande massacre de gatos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

[3] MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

Fonte: blog.singularidades.com.br

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