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Para despertar a reflexão, autora permite download gratuito de livros infantis

Olga de Dios cria histórias que trabalham temas como diversidade, colaboração e meio ambienteTexto por Paula Salas

Olga de Dios lê seus livros em escolas Foto: David Corral

A autora espanhola Olga de Dios é arquiteta de formação, mas desde 2006 trabalha como ilustradora. Publicou seu primeiro livro “O Monstro Rosa” em 2013 e a partir de 2014, dedica-se à criação de seus livros. Ela já publicou seis títulos, dos quais chegaram quatro ao Brasil pela Boitatá – selo infantil da editora Boitempo – entre eles, o mais recente: Rã de três olhos.

Seu trabalho carrega a crença na potencialidade das crianças para discutir temas como diversidade, sustentabilidade e trabalho em equipe. “Nos meus livros busco aproximar esses assuntos com a infância e pela minha experiência é que eles costumam entendê-los com muita facilidade e tem a capacidade de trazer esses valores para suas vidas e relações”, conta Olga.

A alta receptividade de suas histórias por pais e professores a motivaram a mudar o tipo de direitos de autorais com que publica seus livros para poder disponibilizar o conteúdo e para que este seja compartilhado e transformado. Então, no seu site é possível fazer o download gratuito dos livros na íntegra – inclusive as versões em português-, as ilustrações, desenhos para colorir e materiais didáticos que outros educadores criaram com base em suas obras.

Olga de Dios concedeu uma entrevista para NOVA ESCOLA para falar sobre a relação de seu trabalho com a Educação. Confira:

NOVA ESCOLA: Como você vê o lugar da literatura infantil na educação?

OLGA DE DIOS: Cada dia há uma maior presença de temas e materiais digitais, talvez menos livros impressos. Porém, minha experiência é que os livros ilustrados continuam despertando o interesse de diferentes públicos. Tanto nas escolas que os utilizam para trabalhar diversos temas como nas famílias que compartilham aquele material entre pessoas de diferentes idades, inclusive crianças que ainda não sabem ler, mas que se divertem com as ilustrações e que gostam de compartilhar esse momento com quem lê os contos. Na minha opinião, é muito importante criar livros para uma infância de qualidade tanto em conteúdo quanto visualmente, que despertem a criatividade, incentivem o questionamento e a busca por soluções coletivas para problemas que nos afetam e continuarão, sem dúvidas, afetando as gerações futuras. Tanto nos livros quanto em todos os materiais digitais que dialogamos com a infância acredito que devemos nos esforçar para incentivar o pensamento crítico e educar em liberdade.

Os livros infantis sempre estiveram na sua vida? Como surgiu esse interesse na literatura infantil?

Fiz um longo percurso até chegar na literatura infantil. Sempre tive muito interesse pelo desenho e representação gráfica. Sou formada como arquiteta e me especializei na representação gráfica da área. Depois dos 30, ampliei minha formação em uma escola de arte como ilustradora. Nesse momento que comecei minha trajetória como autora de livros ilustrados. Então, meu interesse pela literatura infantil está relacionado ao meu interesse pelo livro ilustrado. Meu primeiro contato como autora infantil foi com o meu livro “O Monstro Rosa” e, a partir desse momento, meu interesse tem aumentado. Hoje sou especializada em ilustração e conteúdos para a infância.

Qual a importância de trazer em uma linguagem interessante e acessível para as crianças temas como diversidade e sustentabilidade?

Considero que são temas muito importantes e sobre os quais devemos gerar mais referências para a infância. Trabalhar esses temas nos livros infantis cria a possibilidade de falar sobre eles com as crianças, refletir e pensá-los com a infância. Queremos construir sociedades mais justas e para tal precisamos falar de valores como igualdade, diversidade e a importância de compartilhar o conhecimento para encontrar soluções. Nos meus livros busco aproximar esses assuntos com a infância e pela minha experiência é que eles costumam entendê-los com muita facilidade e têm a capacidade de trazer esses valores para suas vidas e relações. Sem dúvida, o uso responsável dos recursos do planeta é um tema que temos que enfrentar na infância e que contradiz muitas mensagens publicitárias dirigidas para as crianças que fomentam o consumo irresponsável e necessidades falsas e excessivas em torno da infância.

O que te inspira para construir suas histórias e personagens?

Trabalho em torno de temas que me preocupam e com bases nesses assuntos crio histórias que tragam ideias e valores. Sobre cada história, busco trabalhar muito com as ilustrações e com detalhes de maneira a que cada livro possa ter muita vida e dê lugar para que cada pessoa possa lê-lo e compartilhá-lo de diferentes formas. Me dedico à criação artística de cada personagem para que sejam frescos e espontâneos ao mesmo tempo que transmitam emoções e gerem empatia. Além disso, trabalho muito com personagens monstruosos para tentar quebrar com modelos estereotipados e criar referenciais que quero pensar que torna as crianças mais livres.

Você costuma receber feedback dos leitores pequenos? Tem alguma história que emocionou?

Muitos. Desde meu primeiro livro tenho compartilhado meu trabalho com muitas escolas, bibliotecas e associações nas quais tenho visto crescer algumas crianças que me seguem desde muito pequenas. Em geral, me emociona muito compartilhar meu trabalho, gosto como percebem os detalhes dos desenhos e que talvez à primeira vista não são fáceis de ver, me surpreendem muito as perguntas que fazem de cada personagem em situações que nem eu mesma me havia perguntado. Lembro de um dia em uma sala de Educação Infantil na qual alunos de 3 anos me perguntaram como o Monstro Rosa faz xixi. De primeira não entendi o sentido da pergunta, mas eles mesmos me explicaram ao gerar um debate com suas respostas sobre se ele fazia no banheiro ou na fralda. Então, compreendi o sentido da pergunta para o grupo, aprendi muito com suas respostas e me aproximei um pouco mais do mundo deles apenas escutando o debate.

Nas suas entrevistas e no seu site, você comenta sobre a licença de Creative Commons e menciona a disponibilidade do material para professores, o que te motivou a tomar essa decisão?

Meu interesse por este tipo de licença surgiu no começo da minha trajetória. Meu primeiro livro, o Monstro Rosa, alcançou muita repercussão e começou a ser utilizado em muitas casas e salas de aula. Em uma dessas casas, uma família decidiu adaptá-lo a pictogramas para que seu filho com autismo pudesse aproveitá-lo. Este trabalho foi compartilhado na internet para que outras famílias o pudessem utilizar. Isso é uma obra derivada que o copyright bloqueia e que o mercado editorial não contempla por não serem financeiramente vantajosas. Sempre que o uso não seja comercial, esse tipo de criação pode estar dentro de alguns modelos de Creative Commons e seja possível difundi-las. Com esse tipo de licença, é possível o download livre dos meus livros no formato digital através do meu site (www.olgadedios.es), ali é possível ler meus livros e, se interessar, pode comprar. Esses downloads também me permitem chegar em contextos internacionais onde o mercado editorial não chega ou demora muito. Sei que meus livros são utilizados em aulas de países onde o mercado editorial não levou meus livros impressos ou que são muito difíceis de conseguir. Esta é a minha forma de defender a cultura livre, minha intenção é apoiar outros modelos de produção cultural mais livres e menos hierárquicos, no qual leitores não sejam meros consumidores, mas que coparticipem de uma experiência coletiva baseada na livre difusão do conhecimento.

Você recebe informações dos professores sobre como o seu trabalho é utilizado em sala de aula? Como eles utilizam estes materiais? Imaginava que seu trabalho seria amplamente utilizado na educação?

Tanto nas minhas visitas a centros educacionais quanto na internet, estou em contato com muitas pessoas que trabalham em ambientes educativos, seja em escolas, bibliotecas ou associações. São pessoas que retroalimentam meu trabalho, porque vão muitas vezes além dos meus livros e isso é muito motivador. Agora levo em consideração seus apontamentos ao fazer o meu trabalho. Por exemplo, eu sou muito mais realista nos desenhos de espécies de animais e vegetais porque sei que isso permite que professores utilizem os desenhos em sala de aula. No meu site, é possível baixar gratuitamente materiais que professores me pediram para usar em sala, ali também é possível ver blogs criados pelos educadores para compartilhar o uso que fazem dos meus materiais. Esse tipo de publicação criada pela e para a comunidade educacional são enriquecedoras para mim como criadora de conteúdo.

Qual a relação da educação e seu trabalho? Há algo na sua relação pessoal com a educação que impacta no valor educacional que encontramos nos seus livros?

Entendo meu trabalho como uma expressão artística e, portanto, é um fator de socialização como o são as produções artística e culturais. Faço um esforço para gerar conteúdos com qualidade artística que transmitam valores que são importantes para mim. Sem dúvidas é um reconhecimento que meu trabalho seja utilizado para trabalhar alguns desses assuntos em espaços educativos. Gosto muito também que sejam utilizados espaços informais como dentro das famílias para debater e falar sobre emoções, pois é um lugar considerado menos educativo, mas nos quais os meus livros são muito utilizados. No que diz respeito à minha experiência, tenho aprendido e continuo aprendendo muito tanto dentro quanto fora das salas de aula.

Algum professor marcou sua trajetória?

Sempre gostei muito de aprender, estudei diferentes disciplinas e continuo estudando até hoje. Atualmente estou estudando na área de design gráfico. Desde a minha infância, os professores me marcaram e me transmitiram confiança e liberdade que embasaram meu pensamento livre.

Em seus livros, notamos um apurado uso da cor com o contraste acentuadamente gráfico para potencializar a ilustração. Como você pensa nas cores de suas obras?

Dentro da ilustração entendo a cor como uma ferramenta de comunicação. Eu a utilizo para reforçar a mensagem que quero transmitir nas minhas ilustrações e seu uso vai mudando. Há ilustrações que utilizo muitas cores e contrastes para gerar imagens chamativas, em outros momentos utilizo a cor para centralizar a atenção em uma parte da narrativa ou, inclusive, em alguns momentos utilizo a cor como um elemento conceitual. No caso do Monstro Rosa, a escolha da cor rosa está relacionada aos estereótipos de gênero. Minha ideia era transgredir atribuições do rosa na nossa sociedade e abrir outras possibilidades. O uso da cor depende de cada obra, gosto muito de trabalhar com a cor e busco extrair o maior proveito delas.

* entrevista originalmente em espanhol, tradução livre para o português.

Fonte: Nova Escola

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