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Os tesouros da Biblioteca Joanina, do livro gigante tão antigo como Portugal à Bíblia que faz chorar os judeus

Texto por Osvaldo Bertolino

Delfim Leão é vice-reitor da Universidade de Coimbra e João Gouveia Monteiro é diretor da Biblioteca

Professor João Gouveia Monteiro, tendo ligação familiar muito forte à Universidade de Coimbra, pois o seu pai foi reitor, recorda-se da primeira vez que entrou na Biblioteca Joanina?

J.G.M. – Foi seguramente antes da tomada de posse do meu pai como reitor, em fevereiro de 1970, portanto, teria 12 anos incompletos. Nasci e cresci em Coimbra.

Para um jovem que gosta de ler, entrar nesta biblioteca do século XVIII é como entrar num local quase sagrado…

J.G.M. – Sim, é um templo, um templo laico. Quando se entra, é essa sensação que se tem, com D. João V lá ao fundo no altar, e aquela arquitetura, aquela estrutura de sala e aquela decoração são difíceis de encontrar num edifício laico. Portanto, sim, é um templo sagrado, e para quem tem amor aos livros tem um significado especial.

Professor Delfim Leão, recorda-se de quando foi a primeira vez que entrou na Biblioteca Joanina?

D.L. – Sou do Porto e o meu contacto com a Joanina é muito marcado pela minha experiência já enquanto estudante, e está também ligado à pessoa que, na altura, era o diretor da Biblioteca Geral, um professor carismático, já falecido, Aníbal Pinto de Castro. Ele foi também meu professor e foi, de certa forma, pela mão dele que visitei a Joanina, com a exigência, com o humor cáustico, mas também com o sentido de que estávamos a pisar solo sagrado; ou seja, entrar ali implicava não apenas o respeito pelo património construído, pelo valor imaterial de todas as obras que lá estão reunidas, mas também pelo que significa entrar numa biblioteca com este peso, com esta tradição, com este conhecimento acumulado, e de que forma é que isso se reflete depois sobre o ser estudante, o próprio respeito que se tem pela investigação e pelo estímulo que se recebe. Sou da área dos Estudos Clássicos, portanto, a minha área de trabalho são o Grego e o Latim, o Português também, mas a antiguidade é algo com que eu lido muito – a edição do próprio texto e, depois, aqueles problemas de perceber uma palavra que não se consegue transcrever e tentar adivinhar o que esteja por detrás – e, entrar numa biblioteca onde todos os sentidos ficam alerta, o deslumbramento, a visão que se tem, o próprio olfato, faz que haja todo um conjunto de pequenas sensações que se retiram a partir daí, até o estalido de abrir um livro, que é algo que me impressiona sempre.

Quando é que, como estudante, teve de recorrer à Biblioteca Joanina?

J.G.M. – Creio que no meu tempo de estudante nunca requisitei nenhuma obra da Biblioteca Joanina. Mas, de facto, há muitas obras que ainda hoje vêm à consulta. Estimamos que cerca de 680 obras da Joanina vêm para a Biblioteca Geral para serem consultadas na nossa sala de leitura pois os leitores que requisitam obras da Joanina consultam-nas nesse outro edifício. Já não há a utilização dos gabinetes de leitura, que são lindíssimos, têm vista para o Mondego, ficam do lado esquerdo quando entramos na biblioteca e têm particularidades fantásticas. Têm dois banquinhos de pedra e uma mesa no meio, que desliza para trás e para a frente para poder ser utilizada por canhotos e por destros, e tendo em conta a luz solar, tem a luz vinda da esquerda para os destros e da direita para os canhotos.

Mas o professor, enquanto estudante de licenciatura, não consultou a Joanina, foi mais como investigador?

J.G.M. – Enquanto estudante de licenciatura trabalhei muito aqui na Biblioteca Geral, mas não me recordo de ter requisitado nenhum livro da Joanina, não tinha necessidade disso. Como sou de História, trabalhava até mais no arquivo da universidade e, portanto, isso não aconteceu, e como sou de História Medieval, tão-pouco aconteceu mais tarde, uma vez que a documentação que me interessa e as obras que me interessam são sobretudo dos séculos XIV e XV, e a Joanina isso não tem.

Quem requisita as tais 680 obras? Estamos a falar de investigadores portugueses, estamos a falar também de académicos estrangeiros?

J.G.M. – Sim, estamos a falar de uns e de outros. A Joanina tem cerca de 60 mil obras com uma cronologia aproximadamente entre o século XVI e o século XVIII.

Professor Delfim Leão, no seu caso, sentiu alguma vez necessidade de recorrer à Biblioteca Joanina?

D.L. – Bom, no meu caso, ainda recuo mais no tempo. Trabalho essencialmente textos dos séculos VIII-VI a.C., em particular obras gregas. A nossa biblioteca não tem esse tipo de obras, embora tenha dotações que foram sendo feitas ao longo do tempo, em particular traduções em latim, que era a grande língua de comunicação, a língua franca. Há colegas da minha área que trabalham muito, por exemplo, a época do Renascimento e a receção dos autores clássicos, e aí tem. Penso, por exemplo, na coleção dos Conimbricenses dos comentários a Aristóteles que são, de facto, traduções feitas em latim, extremamente válidas e que conheceram edições que se espalharam por todo o mundo de então, verdadeiramente globais enquanto manuais de apoio ao estudo da filosofia aristotélica. Portanto, continuam a encontrar aqui material em primeira mão, utilíssimo para fazer precisamente este processo de transposição para a atualidade, não apenas da digitalização das obras para se poder trabalhar com uma cópia e não pôr em causa a preservação dos originais, mas também a transcrição do próprio texto para suportes digitais atuais e também a sua impressão num livro que, digamos, seja moderno, assim como a sua tradução e interpretação.

Alguém que desconheça a Joanina iria dizer que os seus livros são sobretudo em português, mas tem também em latim. E que outras línguas comporta?

J.G.M. – São línguas muito diversas. Na Biblioteca Joanina há muita obra em português, há muitíssima obra em latim e também há obras noutras línguas – espanhol, francês, inglês. A cronologia daquelas obras vai até ao século XVIII e é fácil encontrar uma variedade grande de línguas. Há obras em alemão. Também é isso que ajuda a explicar porque é que a biblioteca é procurada por estrangeiros, se fosse só em português haveria a barreira da língua e ficaríamos reduzidos à Península Ibérica, ao Brasil e pouco mais.

O fundo original não é do rei, D. João V manda construir a biblioteca, mas os livros não são dele?

J.G.M. – O espólio da Biblioteca Joanina, antes de existir o edifício do século XVIII que D. João V mandou construir, era já da biblioteca da Universidade de Coimbra, que era uma biblioteca muito rica e que não tinha um edifício próprio, mas que já tinha muita procura por parte de intelectuais portugueses e estrangeiros. Foi exatamente por se sentir um pouco, digamos, envergonhado por esta situação que o reitor na altura, que era Nuno da Silva Teles, escreveu a D. João V uma famosa carta, no dia 8 de junho de 1716, em que lhe expõe a situação, e é isso que funciona como trigger junto do rei para decidir então rematar o complexo do Paço das Escolas com a construção deste edifício extraordinário, com esta fisionomia de templo, tão templo que até está encostado à Capela de São Miguel.

Há notícia de D. João V visitar a Biblioteca?

J.G.M. – Seguramente, visitou tanto a biblioteca como a capela. Aliás, a minha suposição é que a inauguração do órgão barroco da Capela de São Miguel tenha sido feita pelo próprio Carlos Seixas, que era um homem de Coimbra, músico desde muito jovem e que se tornou músico da corte de D. João V. Foi para lá trabalhar com Domenico Scarlatti, que logo que ouviu Seixas tocar terá feito um comentário do género: “Eu é que vou ter lições consigo”, porque, de facto, Seixas era um músico extraordinário. Portanto, essa ambiência há de ter trazido aqui, segura e merecidamente, o rei.

Dos livros da Biblioteca Joanina, quais escolheria se eu lhe pedisse para enumerar dois ou três tesouros?

J.G.M. – Bem, se quisermos utilizar um critério cronológico – que também interessa, porque a antiguidade dos livros só por si é um mérito -, escolheria aquela obra que é habitualmente chamada Bíblia “atlântica”. É uma obra que é da idade da fundação de Portugal, tem uma cronologia que se aponta para meados do século XII, em quatro volumes. É o livro mais antigo da biblioteca, de enormes dimensões, e é por isso que tem esse nome; atlântica não tem que ver com o oceano, tem que ver é com a figura mitológica do gigante Atlante, pois um livro daquele tamanho tinha de ser carregado por uma pessoa musculada. Depois, uma das outras obras, seria a Bíblia hebraica, que é, aliás, muito visitada até por delegações de Israel.

Estamos a falar de um livro impresso?

J.G.M. – Estamos a falar de um livro dos finais do século XV. Os manuscritos hebraicos praticamente desapareceram por causa da Inquisição. Não sabemos se foi impresso em Portugal, mas provavelmente é da Península Ibérica. Pode ter sido em Sevilha. Em Portugal, até ao século XV existem menos de 20 bíblias deste género e só estão nas bibliotecas mais ricas do mundo. Portanto, pela sua antiguidade, por um certo mistério que o seu trajeto encerra – diz-se que pode ter estado ligado a uma família muito famosa de judeus que foram expulsos de Portugal nos finais do século XV, os Abravanel, um dos quais foi tesoureiro de D. Afonso V e depois teve uma função de destaque também na mesma área das finanças na corte de Isabel, a Católica; depois acabou por ter de fugir também, foi para Itália. Esta bíblia sabe-se que foi comprada no século XIX, até se conhece o valor da compra, 700 mil reis, e é de certa maneira um símbolo. É por isso que as comunidades israelitas que aqui vêm observam aquilo com verdadeira comoção, chegam a chorar perante aquela obra. É um pouco o testemunho sob a forma de livro da diáspora da comunidade judaica.

Existe alguma primeira edição de Os Lusíadas?

J.G.M. – Sim, existe uma primeira edição de Os Lusíadas, naturalmente, e também a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Os tesouros da biblioteca estão distribuídos por diversas zonas, pela Biblioteca Joanina, pela casa-forte, pela Sala de São Pedro, também pela Livraria do Visconde da Trindade. Portanto, poderíamos incluir aqui uma série de outros títulos, estou só a destacar estes quatro ou cinco que me parecem suficientemente emblemáticos, mas poderia incluir as famosas Tábuas dos Roteiros da Índia, de D. João de Castro, que é um livro que tem ilustrações absolutamente fantásticas, e que acrescentam tanto àquilo que as narrativas da Índia nos dizem que ainda hoje é consultado por investigadores que querem ver as ilustrações, as marcas de água, tudo isso. Outras obras, que estão mais ligadas ao grande progresso da ciência no século XVIII, também, no sentido para o qual a reforma pombalina na década de 1770 encaminhou a Universidade de Coimbra, mais virado para o experimentalismo, para a observação da natureza. Temos entre milhão e meio e dois milhões de volumes.

Professor Delfim Leão, em relação aos visitantes, há-os como a comunidade israelita que vem aqui quase pelo simbolismo de determinado livro, mas outros vêm pela beleza. Os turistas que chegam a Coimbra procuram mais a biblioteca do que a própria universidade?

D.L. – A Joanina é claramente a joia da coroa dentro do património construído da universidade e, também, com todo o valor intangível que lhe está associado. Eu diria que são dois princípios que jogam completamente um com o outro – a ideia da universidade, com a antiguidade, o peso central que tem na lusofonia, o espaço onde durante séculos as elites dos vários países lusófonos foram sendo formadas, e a biblioteca como símbolo visível dessa mesma dignidade. É isso mesmo que impressiona quem nos visita. Para nós também é um desafio grande porque a universidade tem tido um acrescento de visitantes, já anda perto da casa do meio milhão por ano – este ano é atípico, pelas razões conhecidas da pandemia – e isto cria desafios grandes, concretamente para quem tem a responsabilidade de gerir o próprio património e, sobretudo, garantir que ele vai ser mantido para as gerações que se seguem. Na verdade, recebemos um património que foi bem preservado e temos essa obrigação também. Neste momento visitam-nos sobretudo portugueses, mas habitualmente visitam-nos muitos brasileiros que vêm à procura daquilo que são as raízes da própria identidade.

Porque até à independência do Brasil praticamente todos os seus licenciados eram formados em Coimbra.

D.L. – Exatamente. E eles sentem que a riqueza do Brasil também ajudou a dar à Universidade de Coimbra e à própria Biblioteca Joanina este carácter especial.

Foi mesmo o ouro do Brasil que permitiu a D. João V ter os meios para esta biblioteca?

D.L. – Essa é a tese dominante, mas há uma outra que diz que dependeu mais até das pessoas aqui da zona, que com os seus tributos mais modestos ajudaram a construir este monumento.

J.G.M. – As últimas investigações que têm sido feitas pelos nossos melhores especialistas de História da Universidade de Coimbra, como o professor Fernando Taveira da Fonseca, apontam muito mais para um grande investimento da própria universidade na construção da Biblioteca Joanina. A construção decorreu entre 1717 e 1728 e está averiguado que a universidade investiu nesta construção uma soma de 67 contos de reis, o que era mais ou menos um terço das receitas totais da universidade nesta altura. Portanto, não foi o ouro do Brasil. O Brasil está representado na Biblioteca Joanina, evidentemente, pelas madeiras extraordinárias que lá estão – pau-santo, ébano, etc. -, sobretudo nas mesas, no mobiliário, porque as estantes são de madeira de carvalho, mas a edificação da Biblioteca Joanina assentou muito no esforço financeiro da Universidade de Coimbra.

Conservar estas obras com séculos é um esforço diário?

J.G.M. – Sim, claro. É uma luta, e é uma luta difícil, porque os recursos humanos não são muitos, a responsabilidade é enorme na gestão e na conservação daquele património. Não há nenhum livro na Biblioteca Joanina que não tenha sido retirado, limpo e recolocado no período do último ano, por exemplo. Tem sido feito um investimento grande na reabilitação de livros que são mais atacados por fungos ou por bactérias, através, por exemplo, do restauro das encadernações que é feito pelos próprios funcionários que limpam o espaço, se forem coisas relativamente diminutas. A Biblioteca Geral e o Arquivo da Universidade juntaram-se para, com o apoio da Fundação Engenheiro António de Almeida, passarem a ter, a partir do final deste ano, uma oficina de conservação e restauro boa e modernamente equipada aqui na Biblioteca, que sirva toda a comunidade universitária. Portanto, é preciso utilizar as técnicas mais modernas de desinfestação dos livros, o que se pode fazer agora melhor, porque o meu antecessor, o professor José Bernardes, teve a boa ideia de adquirir duas câmaras de anoxia que permitem sufocar os bichos, porque transforma o oxigénio em azoto e ao fim de 21 dias esses livros saem desinfestados.

Os tesouros da Biblioteca Joanina, do livro gigante tão antigo como Portugal à Bíblia que faz chorar
© Fernando Fontes / Global Imagens

Com toda essa tecnologia para cuidar dos livros, os morcegos são um mito?

J.G.M. – Os morcegos não são um mito. Existem duas colónias, mas não sabemos se foram colocados de propósito ou não, possivelmente não. Há uma coincidência aqui com a biblioteca de Mafra nesse aspeto, que também é da lavra de D. João V, e também não há nenhuma dúvida de mais duas coisas. Primeiro, que eles são úteis a comer bicharada que faria mal aos livros, gerando ali uma espécie de nicho ecológico que ajuda a proteger as obras. A outra coisa que também é certa é que, provavelmente, essas duas colónias já são extremamente reduzidas. Só saem durante a noite, por uma frestazinha que nunca podemos entaipar na porta principal da Joanina, para se hidratarem, para caçar, reentram, às vezes fazem umas aparições fugazes durante um concerto noturno, por exemplo, lá assustam um ou outro espectador, mas em geral não incomodam e prestam um serviço. Não são eles, por si só, que mantêm a dignidade do espaço, isso é também o esforço das pessoas que lá trabalham. Agora, devo dizê-lo, temos a alegria de ter a reitoria da Universidade de Coimbra sensibilizada para fazer as intervenções de manutenção daquele edifício que são precisas, designadamente ao nível da cobertura, do telhado e de algumas paredes onde há deteção de infiltrações de humidade. É um edifício robusto, com paredes de mais de dois metros, mas, de qualquer maneira, todos os edifícios, por mais robustos que sejam, tal como os organismos humanos, também precisam de ser protegidos e acarinhados. Isso vai ser feito, até porque há muito tempo que se fazem monitorizações quinzenais de temperatura, humidade e poluição dentro do espaço da Biblioteca Joanina.

Professor Delfim Leão, há também um esforço para dar acesso ao que está na Joanina e na Biblioteca Geral através de meios informáticos, certo?

D.L. – Não é possível ter nenhum tipo de biblioteca realmente marcante sem um investimento programático sério. Podemos pegar na primeira das grandes bibliotecas emblemáticas, a de Alexandria, no reino dos Ptolomeus, que só foi possível construir porque os faraós entenderam que deveriam consignar a essa biblioteca uma parte muito substancial do seu rendimento. Vimos na construção da Joanina que além do investimento que foi feito pela coroa, pelo rei, houve uma decisão programática da universidade de afetar à sua biblioteca uma parte importante dos seus rendimentos. Isto leva-nos, naturalmente, a tomar decisões também programáticas, não apenas na curadoria daquilo que é o livro tradicional no seu formato mais analógico, mas naquilo que é a decisão de apostar em bibliotecas digitais e na sua abertura ao mundo. Este é um tema profundamente importante, atual, porque nunca na história, como aconteceu nos últimos meses, nunca a humanidade ficou em grande parte vedada de ter acesso às fontes do conhecimento. De facto, as bibliotecas digitais e, sobretudo, o movimento do acesso aberto foram absolutamente centrais para que fosse possível continuar a investigação, no fundo também a ocupar as pessoas, dar-lhes esperança naquilo que estão a fazer. Claramente, esse é um movimento que já tem expressão e vai ser reforçado. A universidade está muito empenhada não apenas em ser um ponto de referência, mas até em liderar, em parte, esse processo aberto no que respeita à informação e às publicações sobretudo. Isto cria desafios de natureza vária, não apenas digitalizar e tornar disponíveis documentos muito importantes para serem consultados a partir do exterior. Isso permite proteger os originais porque não têm de ser tão manuseados. Temos aqui, à parte da Biblioteca Geral, provavelmente um dos fundos musicais mais importantes da Península Ibérica muito pouco estudados. Temos matéria para gerações de músicos estudarem, que está a ser neste momento curada, portanto, os manuscritos, os objetos em si, estão a ser recuperados por uma empresa espanhola. É um investimento conjunto da Biblioteca Geral, da reitoria, do centro de investigação. Esses documentos são digitalizados, tornados públicos, são depois transcritos e, finalmente, tornados matéria viva, ou seja, para que aquela música que tem estado em silêncio há séculos possa voltar à vida. É um processo realmente notável. Agora, isso implica opções estratégicas importantes porque não basta digitalizar, importa garantir que aquilo que se digitaliza não leva ao esquecimento do objeto original, que não pode ficar descurado. Aquilo que se digitaliza implica um esforço de curadoria futura importante. Eu até diria, talvez mais exigente do que o livro tradicional, porque o livro tradicional resiste nesse formato. Podemos esquecer-nos do livro durante anos e, em princípio, se não houver um acidente, um incêndio, uma inundação, ele resiste. Com o objeto digital não podemos lidar da mesma forma.

Por exemplo, a Bíblia “atlântica” é um desses livros que faz sentido digitalizar?

D.L. – Penso que sim. Temos a alma mater que é precisamente a biblioteca digital dessas preciosidades, está catalogada segundo alguns dos temas que são mais relevantes, muitas vezes ligados a projetos de investigação que têm interesse particular num determinado acervo. Eu diria que estas joias, por assim dizer, faz sentido digitalizá-las e torná-las acessíveis. É uma opção nem sempre fácil, porque se é um objeto único, naturalmente que se o digitalizamos e tornamos completamente público e aberto podemos correr o risco de ele não atrair tanta gente ao processo de veneração do original. Por outro lado, diria que é um risco que vale a pena correr, porque torna-se conhecido, torna-se visível a todos, e isso é algo que é extremamente positivo, mas, por outro lado, a emoção de ver o original torna-se uma experiência sensorial única.

J.G.M. – Queria só acrescentar que um dos projetos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra – isto até é em primeira mão – é o de fazermos em 2022 um colóquio sobre grandes bibliotecas da história da humanidade. Pode ser muito interessante quer para estudiosos quer para satisfazer a curiosidade do público em geral, seja sobre grandes bibliotecas seja sobre grandes documentos da história da humanidade, como a Magna Carta, por exemplo, que é uma coisa de uma página e é um dos grandes produtos de exportação da cultura inglesa no mundo. Tínhamos também previsto para este outubro, mas vamos repô-lo num calendário diferente, provavelmente em meados de abril de 2021, um colóquio sobre turismo e património, para trazermos cá de diversos outros lugares da Europa, do Alhambra de Granada, de França, de Itália, do Trinity College de Dublin, gente que tem esta experiência de necessidade de equilibrar o património com o turismo. Isto para virem contar aqui o seu percurso e partilhar connosco as soluções, para que nós nos possamos também iluminar um pouco mais nas decisões que temos de tomar para conseguirmos preservar o património sem deixar de corresponder à pressão turística. Em anos normais – não é o caso -, entre março e outubro, a chamada época alta, temos na Biblioteca Joanina 1600 visitantes por dia. (Diário de Notícias)

Fonte: O outro lado da notícia

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