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Os livros e a liberdade frente ao ódio

Em sua coluna, Paulo Tedesco recomenda a editores e a autores que não tenham medo de assumir posições e publicar sem medo

Nas épocas de crise é que o livro ganha valor. Isso acontece em especial quando a crise anda a conquistar as formas que todos assistem: manifestações de ódio e ameaça de violência gratuita, respaldados pelo desejo de rearmar indiscriminadamente o povo e transformar, em segundos, situações pacíficas em violência real e sangrenta, onde vítima e criminoso se confundem.

Nessa instância, de grande e crescente tensão, publicar sem medo e assumir posição nos debates é o mais recomendado. Em outras palavras, dar voz é a melhor maneira de se aliviar a pressão de quem quer falar, e mesmo que o que digam seja não muito recomendável, é preciso dar-lhes espaço e voz.

E o livro e o mundo editorial têm seu papel a cumprir, pois as ditaduras se valem, sempre, da primeira lei: a da mordaça. Sim, é a censura direta e indiscriminada a primeira das violências quando a democracia cambaleia. Nossa tarefa, de quem está no meio editorial, é, com afinco, procurar vozes novas e dar curso a outras ainda que discordemos. O que me lembra das recentes palavras de um editor amigo: devemos publicar mesmo o que não nos agrada.

Essa roleta russa, de dar espaço a ideias, só é perigosa para quem não tem a confiança em si. Afinal, é disso que se valem  as instituições que não aceitam que seus afiliados tenham vez em suas próprias opiniões ou que possam buscar aprender novas posições na busca do esclarecimento.

E por que um livro ganha valor na crise? Porque em tempos multiconectados, em que a censura de grandes corporações internacionais como Google e Facebook, muitas vezes secundados por elementos estranhos ao livro, como a Justiça institucional e polícias estrangeiras como o FBI, é algo corrente e cotidiano e claramente vem interferindo no comportamento do cidadão, é talvez a melhor e mais democrática resposta aos arautos do silêncio. Afinal, nem Google, nem Facebook nem o FBI conseguem “derrubar” um livro, e talvez justamente por isso é que as livrarias possam voltar a ser um local de resistência, assim como os canais online livres da censura e totalmente independentes.

Um dos maiores pré-requisitos da liberdade é a multiplicidade de ideias, o respeito às diferenças e a tolerância dos contrários. E a melhor, e certamente mais eficaz forma, é o mercado editorial permitir e colaborar para que tudo, eu disse tudo, seja passível de publicação.

Não temamos dar páginas a quem desgostamos, pois elaborar uma ideia nefanda em livro, num verdadeiro livro, geralmente permite que essas ideias estapafúrdias, como as de Bolsonaro, por exemplo, mostrem sua absoluta insanidade e fragilidade. E o oposto também é verdadeiro: ideias positivas mas que carecem de argumentação e construção, uma vez em livro, num bom livro, também pode mostrar suas fraturas e impossibilidades. E assim se constrói um debate, abrindo portas e janelas.

É de se entender, portanto, que ser editor e autor, é dotar-se de coragem, de ousadia. Não por coincidência que se queimam livros nos períodos de repressão, pois estão a queimar ideias e autores. Democracia sempre!

Texto por Paulo Tedesco

Fonte: Publishnews

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