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Os livros de Philip Roth voltam para ‘casa’

Biblioteca de Newark onde o escritor se formou como leitor recebeu, após a morte dele, um legado de 7.000 volumes e dois milhões de dólares. Apesar da pandemia, uma equipe trabalha para catalogar esse tesouro

O escritor Philip Roth, diante de uma de suas lanchonetes favoritas de Newark, em dezembro de 1968.THE LIFE IMAGES COLLECTION VIA GETTY IMAGES BOB PETERSON

Texto por Pablo Guimón

Do fundo de uma caixa de papelão emerge o álbum de graduação de Philip Roth, guardado desde 1946, depois de sua passagem pela escola da Chancellor Avenue, em Newark, Nova Jersey. Lema: “Não pise no desvalido”. Canção: It Might As Well B Spring, da comédia musical A Feira da Vida, que tinha obtido o Oscar de melhor canção original em 1945. Embora suas colegas de classe lhe deixassem mensagens românticas e beijos de batom nas folhas, seu interesse então parecia residir principalmente no beisebol, seu esporte preferido. Escritor favorito: o autor de romances juvenis de beisebol John Tunis. Herói: o jornalista radiofônico Norman Corwin. Philip Roth queria ser jornalista. “Tenho toda a confiança em você”, escreveu-lhe seu pai, com aquele clássico carinho carregado de exigência.

A caixa é uma das que estão distribuídas pelas humildes estantes metálicas de uma recôndita sala, à qual se chega por um labirinto de corredores cheios de livros, no andar térreo da biblioteca pública de Newark. O álbum é um caderno pequeno, com páginas do tamanho de cartões-postais e capas duras azuis, metido em um estojo de cartolina já quebrado. Nas primeiras folhas, o aluno, prestes a se formar, preenche um questionário com essas pinceladas pessoais. As páginas seguintes estão cheias de dedicatórias, de seus pais, de seus colegas.

Uma relíquia simpática, que permite saber o que se passava na cabeça de um menino de 13 anos que se transformaria em um dos grandes romancistas norte-americanos. Descobrir, por exemplo, como esses livros juvenis de Tunis contribuíram para o imaginário do autor, a ponto de, em Pastoral Americana, seu alter ego Nathan Zuckerman recorrer a um dos personagens de Tunis para descrever o Sueco, seu ídolo de juventude, através do que Roth mostra o lado sombrio do sonho americano.

O pequeno álbum abre uma porta pela qual transparece o mundo do escritor adulto. Permite compreender um pouco mais como se entrelaçam em sua obra a realidade e a ficção. Há passagens mais indeléveis na impudica O Complexo de Portnoy, mas naquele romance de 1969, que lançou Roth ao estrelato, Alexander Portnoy conta como preencheu o questionário pessoal de seu álbum de graduação na escola primária. O lema que escolheu é o mesmo que o próprio Roth havia escrito no seu. Mas Portnoy quer ser advogado, não jornalista. E seus heróis são Thomas Paine e Abraham Lincoln, não Norman Corwin. Tanto se debateu sobre o que é fictício e o que autobiográfico em O Complexo de Portnoy que, em Zuckerman Libertado (1981), o autor zomba dessas especulações. Naquele livro, o protagonista Nathan Zuckerman é atacado por leitores incapazes de acreditarem que as cenas de sexo de Carnovsky, o romance dentro do romance de O Lamento de Portnoy, fossem apenas um produto da sua imaginação.

Lei a matéria completa publicada no site do EL PÁIS.

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