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O poder terapêutico dos contos

Grupo formado por 24 especialistas lança livro sobre o valor educativo das narrativas

Por ANA ELIZABETH DINIZ

Engana-se quem pensa que as fábulas, os contos e as histórias são narrativas infantis, dotadas apenas de intenção lúdica. Há muita força nesse universo capaz de auxiliar no desenvolvimento e em descobertas transformadoras.

Um exemplo é o da consultora Ludmila Leite, que rompeu uma relação abusiva ao se lembrar de um conto indiano. “Nele, Buda caminha com seus discípulos quando surge um sujeito destemperado à sua frente, gritando impropérios. Buda nada faz, escuta tudo calmamente. Desconcertado pela não reação de Buda, o homem atormentado vai embora. Assim eu fiz. Num episódio de agressão verbal, virei as costas e fui embora”, relata Ludmila.

Trabalhando efetivamente com a força dos contos em abordagens terapêuticas e educativas, um grupo de 24 especialistas vai lançar o livro “Contos que Curam” (ver agenda), que tem coordenação editorial de Claudine Bernardes e Flávia Gama e trata de temas relevantes, como: autoaceitação, resiliência, gratidão, ressignificação, amor, entre outros.

Segundo Flávia Gama, empreendedora, pesquisadora e especialista em storytelling, por trás da aparente simplicidade dos contos, muitas vezes desprezados pelos adultos, há assuntos complexos e negações que são impostas pela nossa cultura.

“No conforto de uma história há uma permissão para viver suas angústias e encarar suas dificuldades a partir de um lugar seguro. A narrativa não é sobre quem está lendo (diretamente), é sobre o personagem, então ele pode se permitir experimentar todos aqueles sentimentos conflitantes e que trazem desconforto. E ele faz isso porque é uma história”, analisa Flávia.

Os símbolos presentes nos contos de fadas, diz ela, são carregados de poderosas metáforas sobre questões profundas que, muitas vezes, crianças e adultos não conseguem identificar e nomear.

“Percebe-se ali algo que incomoda, mas, quando o indivíduo mergulha na história, ele consegue identificar. Quando a pessoa escuta ou lê um conto ou uma história, ela se conecta mais fácil e profundamente com a história”, comenta Flávia.

Ao se conectar com os elementos simbólicos da narrativa, diz Flávia, “ela consegue atingir um grau de empatia, acaba se colocando no lugar do outro e identifica o que está sentindo. Quando o personagem sente raiva, medo, inveja, não sou eu, é o personagem, mas começo a reconhecer esse sentimento também em mim”, diz a pesquisadora.

Um elemento sempre presente nos contos de fadas é o final feliz. “Isso é muito importante, principalmente para as crianças, porque traz esperança e as incentiva a buscar novos caminhos para conquistar seu próprio final feliz. Quando identifico no personagem o que ele pensa, sente e como se supera naquela história, encontro minhas próprias respostas, começo a me organizar internamente, a nomear minhas emoções e posso criar um novo final para minha própria história”, propõe a pesquisadora.

Quando idealizou esse projeto, Flávia pretendia que ele fosse um instrumento de desenvolvimento humano, de cura para sentimentos e emoções e um caminho de educação emocional.

“Quando as pessoas descobrem seu poder de criar os próprios finais felizes, de ressignificar suas histórias de dor, reescrever os capítulos da própria vida numa versão mais encantada e leve, elas encontram a cura para suas almas”, finaliza.

O ser humano é muito simbólico

Claudine Bernardes vive há 15 anos na Espanha, onde trabalha como professora de técnicas narrativas e contoexpressão, na Escuela de Terapia Psicoexpresiva Humanista del Instituto Iase. Essa trajetória só foi possível depois que passou a usar os contos para se comunicar melhor com seu filho que tem Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

“Sentia-me agoniada por não exercer a maternidade de forma efetiva. Até que, durante uma contação de história, percebi que consegui me comunicar com meu filho e que ele assimilou a mensagem mais facilmente”, relembra Claudine.

A educadora diz que trabalha com os contos sempre com a intenção de se comunicar com o interior da outra pessoa, com seus símbolos e provocar nela uma mudança, desde que ela deseje e que seja benéfica.

“Utilizamos os símbolos do inconsciente pessoal e coletivo e as metáforas, que são uma forma de nos comunicarmos com a outra pessoa a partir do que ela já conhece da vida. Os contos terapêuticos são construídos com essa função de comunicar-se com a outra pessoa, de convidá-la a iniciar uma jornada de mudança”, revela Claudine.

O conto se comunica com a outra pessoa na medida em que ela necessita mudar. “Cada conto será interpretado de forma diferente por cada pessoa, de acordo com sua experiência de vida. Isso porque o ser humano é altamente simbólico”, observa a educadora.

Dramas do protagonista incitam mudanças em quem escuta

A proposta do livro “Contos que Curam” é extrapolar a história. “Queremos ajudar os profissionais que trabalham com o desenvolvimento humano a explorar as emoções e as percepções, tanto pelo método socrático quanto pelas dinâmicas que propomos em cada capítulo do livro, que traz histórias poderosas capazes de despertar tudo isso. Após cada conto apresentado, há uma oficina proposta para educadores, psicólogos e contadores de histórias”, comenta Flávia Gama.

Para Claudine Bernardes, a ideia do livro é compartilhar o conhecimento de forma didática e ajudar as pessoas em seu crescimento pessoal e simbólico.

“A sociedade atual está cada vez mais racional e rasa simbolicamente, e isso é um problema, pois impossibilita nosso crescimento como seres humanos. Ao vivenciar os dramas do protagonista do conto, a pessoa identifica-se com suas lutas e dificuldades e faz a jornada do herói. O processo de crescimento e amadurecimento traz um conhecimento que leva a uma mudança de conduta”, finaliza.

Estímulo

Função. O conto é mágico ao estimular a imaginação; ético ao transmitir ensinamentos morais; e espiritual ao promoverem a compreensão de verdades metafísicas.

Agenda

O lançamento do livro “Contos que Curam” será nesta quarta (20), dia 20, às 19h30, no Ateliê Ananda Sette, na rua Conde de Linhares, 1.051, bairro Luxemburgo. Entrada gratuita. Informações: (31) 98571-8801.

Lançamento

  • “Contos que Curam”
  • Coordenação editorial de Claudine Bernardes e Flávia Gama
  • Literare Books International
  • 216 páginas, R$ 49,90

Fonte: O TEMPO

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