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O papel do livro digital na crise editorial brasileira

POR CECÍLIA FERNANDES
Diante de crise no mercado editorial dos livros impressos no Brasil, a literatura digital aparece como alternativa para consumo e venda, ainda que como comércio emergente no país.

Reprodução: FreeStock e Pexels
Em abril deste ano, a nova edição da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro revelou uma recessão de 25% do mercado editorial entre 2006 e 2018, sendo o ano passado o quinto consecutivo em que houve queda do faturamento do setor. Realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sob encomenda da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), a pesquisa tem como objetivo apresentar a situação geral do mercado editorial, estabelecendo um comparativo entre setores e resultados dos anos anteriores.

Para o presidente do SNEL, Marcos Pereira, os números divulgados pela FIPE classificam um desastre. “Infelizmente a recessão aguda dos anos 2015 e 2016, com o desemprego atingindo mais de 13 milhões de brasileiros, aliado à queda nos índices de confiança do consumidor, provocaram o “desastre”, representado por 75 milhões de livros a menos vendidos na comparação entre 2014 e 2018”, explicou em entrevista ao G1.


Tabela relacionada ao faturamento de obras gerais na pesquisa “Desempenho Real do Mercado Livreiro” | Reprodução: FIPE

Situação geral

A pesquisa mostra que todos os subsetores apresentaram queda nas vendas, situação atenuada pelo aumento nas compras de materiais didáticos pelo Governo Federal. O setor que menos sofreu com as mudanças no mercado editorial foi o de Religiosos, que apresentou resultado nominal positivo, um crescimento de 1,1%, e o setor com pior desempenho foi o de livros Científicos, Técnicos e Profissionais (CTP) com queda de 17,33% em relação ao ano anterior.
Quanto ao quadro dos livros CTP, Marcos Pereira relaciona a competição entre a leitura e outras formas de lazer no cotidiano da população, como o uso de redes sociais e a disponibilidade de conteúdo para entretenimento nos canais por assinatura na televisão.
Para o presidente da SNEL, o desempenho dessa categoria está diretamente relacionada aos investimentos na área da educação profissional, do ensino superior e do emprego. “É um cenário muito preocupante para um país que quer participar das grandes decisões mundiais.”, afirma Marcos.
Marcos Pereira (SNEL), Vitor Tavares (CBL), Leda Paulani (Fipe) e Mariana Bueno (Fipe) durante a apresentação dos resultados da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro | © Carlo Carrenho
Marcos Pereira (SNEL), Vitor Tavares (CBL), Leda Paulani (Fipe) e Mariana Bueno (Fipe) durante a apresentação dos resultados da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro | Foto: Carlo Carrenh. Reprodução: PublishNews
Universo digital
Os livros digitais não estiveram integrados na pesquisa apresentada, apesar do crescimento aparente no consumo de e-books e e-readers. Entretanto, pesquisas como a 4º edição da Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró Livro e divulgada em 2016, apresentaram uma base de 47% de leitores que consomem livros digitais, em um universo de 539 entrevistados que afirmaram ter acesso à internet.
A falta de dados e informações recentes sobre o mercado editorial digital impossibilita a inclusão dos livros digitais nos relatórios publicados por institutos nacionais de pesquisa. Ainda como um mercado emergente no mundo, empresas como a Amazon e a Saraiva, líderes de vendas, não disponibilizam dados em seus portais responsáveis e apresentam uma política restritiva em relação à publicação dessas informações.
Fragmento da 4º edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016. Nessa sessão, a pesquisa aborda o público a respeito dos gêneros literários consumidos quanto à frequência de leitura e gostos pessoais | Reprodução: Instituto Pró-Livro
Editores como Tiago Ferro apresentam uma outra perspectiva sobre o assunto. Em sua coluna na Época, Tiago associa a invisibilidade do mercado digital aos padrões tradicionais de produção do mercado editorial, para ele, as inovações tecnológicas foram mal recebidas pelas editoras brasileiras que reagiram “puxando o freio do crescimento dos e-books”
“Enquanto na música e na informação, o acesso rápido proporcionado pela internet consolidava novas formas de consumo de conteúdo, o livro se mantinha (no Brasil) preso ao modelo do século XIX: gráficas, caminhões, estoques, logística cara e complicada em um país de dimensões continentais.”, escreve em sua publicação sobre o tema.
Para o professor e diretor da Editora UFG, Anselmo Pessoa Neto, é importante reconhecer a força deste mercado e a mudança que têm causado no mercado editorial mundial. “Estamos de novo em um cenário de mudança de paradigma, tudo está se dirigindo para o mundo digital.”, explica o professor, “A questão é ver como tudo isso vai afetar e já está afetando a vida em sociedade, porque isso não é só uma questão de mercado. O livro digital tem a ver também com as relações humanas.”

Migração e mudança

O conflito entre o tradicional e o moderno é antigo e remonta a história da humanidade, pois, desde o período da Revolução Industrial, houve a insegurança em relação à novas tecnologias em detrimento daquilo que já era comum, conhecido. Entretanto, à medida que os dados e pesquisas mostram um mercado em crise, há uma mudança de pensamento por parte da população.
A escritora Letícia Black relata sobre como seu conhecimento a respeito de leitores digitais e literatura virtual influenciaram mudanças em sua família. Escritora de duas obras impressas e mais de 70 obras independentes publicadas em plataformas digitais como o Wattpad, Letícia afirma estar acostumada com a migração do impresso para o digital, além das diferenças de linguagem e leiturabilidade, e tenta transmitir isso às pessoas com quem convive.
Em entrevista, Letícia conta ter feito sua avó, aos 83 anos, migrar do livro impresso para o digital por uma questão visual. “Minha avó tem catarata e vivia lendo os livros impressos com lupa, porque as letras eram muito pequenas. Depois de um tempo insistindo, uma certa resistência, eu comprei um tablet para ela. Hoje, ela lê mais que eu.”, explica a escritora.

Experiência do usuário

Para o estudante de Psicologia da PUC-Goiás, Conrado Pereira, a migração para o Kindle, leitor digital da Amazon, foi principalmente financeira, pois para ele seria inviável obter todos os livros exigidos na faculdade e os livros ficcionais para lazer e entretenimento, principalmente por conta dos preços dos livros físicos nas livrarias.
“Eu acho a leitura digital algo fantástico, principalmente pelo acesso.”, explica o estudante, “Na internet a gente têm acesso a livros que foram descontinuados, livros que tradicionalmente não teria dinheiro para comprar, mas acabam sendo muito mais baratos. Isso gera uma democratização da leitura, também do saber científico”.
A experiência da estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás, Caroline Mota, é semelhante, pois ela afirma ter modificado seu processo de leitura desde que adotou o Kindle. “Eu percebo que tenho lido muito mais, tanto os livros que tinha interesse quanto os textos da faculdade que eu posso inserir no leitor.”, explica, “A facilidade e a praticidade me fizeram consumir muito mais do que antes.”
Facilidade e portabilidade são os recursos mais destacados entre usuários de leitores digitais
Foto por: Perfecto Caputine | Reprodução: Pexels

Perspectivas para o futuro

O professor Anselmo Pessoa Neto afirma haver crise do mercado editorial, mas também uma crise no conhecimento. Para ele, o cenário brasileiro mostra uma população desinteressada em buscar o refinamento intelectual, fortalecendo o imperativo da ignorância e dificultando a recuperação das editoras e instituições de educação.
Quando pensa em soluções, sugere que futuramente o livro impresso continuará existindo, ainda que em outras possíveis configurações. “Eu acredito que, futuramente, o livro impresso será consumido mais como obra de arte, algo para colecionadores e para um público específico, enquanto o livro digital será o conteúdo de massa, com maior alcance e consumo.”, explica o professor.

A respeito da crise do mercado editorial e das novas configurações de leitura, ouça o rádio-documentário “Do papel para o digital: como a leitura digital modifica o cenário da crise editorial no Brasil e os modos de consumir literatura” a seguir:

Fonte: LITERAMANIACA

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