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O papel do jornal e a ausência das bancas

Cineasta argentino radicado no Brasil reflete sobre a rápida substituição do papel impresso e da leitura concentrada

Carlos Pronzato*
Prevalecem outros objetos pendurados, como brinquedos, artefatos tecnológicos baratos, lembranças turísticas e faixas de times de futebol / Pedro Carrano

Fico pasmo ao ver as antigas bancas de jornais do centro da cidade do Rio de Janeiro, especificamente na Cinelândia, Carioca e Lapa, no coração da antiga capital federal, substituírem aqueles objetos de papel impresso, que atravessaram séculos desde Gutemberg e acompanharam todos os passos da humanidade através do tempo, por prateleiras abarrotadas de biscoitos, chocolates e outras guloseimas e iguarias as mais variadas, normalmente mercadorias de supermercados, hoje comercializados até em farmácias!

Fenômeno atualíssimo e pernicioso que vem destruindo dia a dia aquele habito saudável – hoje obsoleto para muitos -, de concentração na leitura, em oposição à velocidade da informação instantânea, volátil e dispersiva de computadores e celulares.

Nem aquele útil costume – nas laterais e até pendurados na frente das bancas -, de colocar em exposição os tabloides convidativos para uma leitura informativa matinal, está conseguindo sobreviver. Prevalecem outros objetos pendurados, como brinquedos, artefatos tecnológicos baratos, lembranças turísticas e faixas de times de futebol. Processo similar sofrem as grandes livrarias, como a espetacular Livraria Cultura, por exemplo, que bem no estilo do El Ateneo, de Buenos Aires, restaurou e ocupou o antigo Cinema Vitória e teve que fechar suas portas. Embora outras como Da Vinci, Livraria da Travessa, etc., consigam permanecer no mundo real com a era digital no pescoço, incluindo cafés e atrativos lançamentos.

Não sei qual o diagnóstico neste preciso momento em cidades deste porte noutros países do mundo, mas o fenômeno parece estender seus tentáculos sobre a leitura dos jornais de papel, sem piedade. Por aqui se optou por trocar toda a mercadoria, embora mantendo a estrutura de uma tradicional banca de jornais, todavia perdendo a sua vocação original.

Depois destas quase minhas condolências, instalado já há algum tempo no apartamento de uma amiga no Rio de Janeiro, todos os dias me surpreendo pegando dois jornais de grande circulação por baixo da porta, dos quais ela tem assinatura. Confesso que até acordo mais cedo apenas para usufruir desta desintoxicante experiência de ler em papel durante o café da manhã.

Com todo o respeito a quem lê muito mais em computadores e celulares, da voracidade inútil de milhões de postagens e fake news em grupos de Whatsapp, incontáveis notícias sobre as quais apenas se pousam os olhos e outras milhares de curiosidades que morrem como borboletas, nada, até hoje, pode substituir a leitura no papel e a sua perene atenção – e conservação -, independente da qualidade do texto, como este que, caro leitor, está agora diante dos seus olhos, analógico como ainda é o ato de ler, tocar e respirar.

Edição: Pedro Carrano

Fonte: Brasil de Fato

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