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O momento do leitor

Como saber se um livro é bom? Há livros que são bons para uma pessoa e podem não agradar outras

Por Marcella Affonso

Patrícia Reis Buzzini, Tradutora e Doutora em Estudos Linguísticos pela Unesp

Outro dia me perguntaram se há bons escritores brasileiros. No primeiro momento, fiquei surpresa com a pergunta, porque achei que a resposta seria óbvia demais. Contudo, comecei a pensar a respeito da visão de literatura compartilhada pela maioria da população. Como saber se um livro é bom de verdade? Há livros que são bons para uma pessoa e podem não agradar outras. Quem faz parte de grupos de leitura sabe bem o que estou falando.

De acordo com Umberto Eco, há dois tipos de leitores: “o leitor semântico” e o “leitor crítico ou estético”. O leitor do primeiro nível interessa-se apenas pela história a ser contada e o leitor do segundo nível deleita-se com a forma como a história foi contada. Se nos atentarmos às listas de livros mais vendidos, publicadas na mídia, é fácil perceber que o leitor semântico é o mais comum. Para esses leitores, pouco importa se o narrador é onisciente ou observador, ou se o autor privilegia a linguagem denotativa ou conotativa. O leitor estético, por outro lado, preocupa-se com os aspectos estilísticos da obra, com a fortuna crítica do autor, entre outras coisas.

De acordo com a professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés (2016), há uma enorme diversidade de subgêneros literários no mercado: a literatura “séria” (a que ainda recebe prêmios), a literatura “difícil”(destinada a um público restrito), a literatura de entretenimento (os best-sellers sentimentais e/ou eróticos, a ficção fantástica e a narrativa policial estereotipada), a literatura de autoajuda, a ficção histórica e biográfica etc.

Best-sellers atraem milhares de leitores em grande parte do território nacional – ignorando o fato de estarem lendo uma tradução – e livros de autoajuda podem ser fascinantes, dependendo do grau de identificação que provocam no leitor. Além disso, não há como negar o poder dos escritores midiáticos, que atraem, principalmente, leitores mais jovens.

De fato, o mundo passou por profundas transformações tecnológicas e o julgamento de valor de uma obra literária ultrapassou os muros da universidade. Atualmente, há inúmeros novos autores brasileiros que estão suplantando as dificuldades econômicas e mercadológicas com a publicação de livros de qualidade indiscutível. Basta acompanhar o resultado das principais premiações literárias. Narrativas que propõem caminhos alternativos e originais para a linguagem e oferecem um convite à crítica ou evasão da realidade atual.

Mesmo acreditando que a leitura sempre será uma experiência produtiva, é preciso respeitar o momento do leitor. Leitores iniciantes – independente de faixa etária – tendem a gostar de livros com uma linguagem mais simples e objetiva, buscam o prazer. É compreensível e não há problema nisso. Contudo, não significa de devemos deixar de buscar novos desafios. Mudar de fase, como acontece nos jogos eletrônicos. Sair da lista dos mais vendidos sem cair na arrogância de valorizar apenas os clássicos (que são, indiscutivelmente, uma excelente opção de leitura).

Neste momento, todo cuidado é pouco para avaliar se o leitor já acumulou uma bagagem suficiente de leituras prévias para tirar proveito de obras consideradas sérias ou difíceis. Um passo em falso pode “matar um leitor” (e já não temos muitos).

Patrícia Reis Buzzini, Tradutora e doutora em estudos linguísticos pela Unesp de Rio Preto.

Fonte: Jornal da USP

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