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O livro que transforma vidas

Conheça Severino Augusto, 59 anos, que catava recicláveis e modificou sua história através dos livros

Por: Paulo Trigueiro e Edu Rolemberg

Severino Augusto lembra que no dia da inauguração da Praça do Sebo, em 1981, foi a maior festa pela novidade da épocaFoto: Léo Malafaia

Aos 14 anos, ele catava recicláveis. Nesta segunda-feira, aos 59, tem mais de seis mil livros disponíveis à venda na Praça do Sebo, no centro do Recife. Severino Augusto da Silva encontrou o ponto de virada da vida nas letras. Seu Augusto, como é conhecido por amigos e clientes, é um dos fundadores da praça. Viu, nos 37 anos de trabalho ali, toda a sua história. No dia 14, dia do livreiro, comemorou os anos vividos, mas também lamentou as dificuldades.

As recentes novas formas de consumo de leitura (smartphones, tablets, ebooks, entre outras ferramentas) e as vendas pela internet não são os primeiros desafios. Ainda criança, quando sonhava em ser engenheiro químico, perdeu a mãe precocemente e precisou trabalhar, catando madeiras e vidros. Cinco anos depois, foi empregado como vendedor na barraca de livros dos primos, no Centro do Recife. Então, juntou dinheiro e comprou seu próprio negócio em 1981, um dos 18 boxes de uma recém-inaugurada Praça do Sebo.

Na época, os livros chegavam ensebados porque ainda se lia ao lado de velas. “Comecei com 40 exemplares e hoje devo ter uns seis mil. Lembro que, quando a praça inaugurou, foi uma festa. Todos estavam aqui, era uma novidade. Agora, têm problemas de segurança, manutenção e limpeza que precisam de mais atenção do poder público. De qualquer forma, para mim, conquistar esse espaço significou poder construir minha casa e educar meus filhos”. Hoje, ele doa livros para vendedores que trabalham na calçada, como ele mesmo fazia no passado.

Augusto, mesmo sem ter concluído o segundo grau, tornou-se ávido leitor. Devora 25 livros a cada ano. Número bem acima da média do brasileiro, de 2,43 por ano, segundo o Instituto Pró-Livro. “Os livros raros, de história e filosofia sempre foram minha paixão, mesmo tendo que vender didáticos, já que a procura é maior. Eu diria que a história de O Velho e o Mar, de Hemingway, é a minha história, de perseverança”, completou. Em meio ao fechamento de grandes livrarias no Estado, é um exemplo de resistência. Assim como no romance preferido de Augusto, os grandes “peixes” capturados por ele estão apenas na sua memória.

Mesmo com a grande procura por livros escolares, o livreiro já chegou a vender bem mais que hoje. Apesar disso, não pensa em largar a profissão, que considera nobre. “Agora as pessoas procuram os livros sem saírem de casa, pelo Whatsapp. Isso fez com que as vendas aqui do sebo caíssem muito. Ainda não me atualizei para a internet, mas sei que o preciso fazer. Vou pedir à minha neta, pois não pretendo parar”.

Cecília Romão, por exemplo, também trabalha com livros na Praça do Sebo. Há pelo menos nove anos vende pelo website da Estante Virtual. “Inclusive para outros países, como Itália e Portugal. Também usamos o Whatsapp para facilitar o contato com o cliente. Agora estamos testando a Amazon”. Já o formato digital para leitura ainda é um adversário distante. No Brasil, o último Censo do Livro Digitalrevelou que o livro impresso é responsável por 98,91% das vendas no País.

Fonte: FolhaPE

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