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O livro e o ato de ler nos convidam ao pensamento livre

Texto por Sérgio de Sá

O livro esteve em voga nos últimos dias. Eleitores o exibiram em mãos no dia das eleições. Virou ícone de resistência democrática. O presidente eleito o espalhou pela mesa do primeiro discurso nas redes sociais. Virou símbolo de garantia democrática. Na segunda-feira (29) seguinte ao pleito, o Brasil pensou em festejar o Dia Nacional do Livro, sem saber ao certo o que celebrar.

Na mesma suposta data comemorativa, a rede Saraiva anunciou o fechamento de 20 lojas em todo o país. Cheia de dívidas, a Livraria Cultura pediu recuperação judicial na semana passada. Crise e tristeza. O livro não faz parte do cotidiano da população brasileira. A estatística (otimista, eu diria) da pesquisa Retrato da Leitura diz que 44% dos brasileiros não leem nada e 30% nunca compraram um livro.

Portanto, o livro é um intruso na eventual festa da democracia brasileira. Não se celebra, não se festeja, não se comemora. Um presidente anterior não escondia a ojeriza pessoal pelo ato de ler, acusando outro de ter lido demais, daí não compreendendo a verdade verdadeira das coisas, apenas permitida por meio da experiência da vida vivida. Entre pequenas redundâncias, a gente vai levando o gerúndio adiante.

É claro que não se lê apenas no suporte livro. Neste momento, por exemplo, você está lendo aqui, na tela, on-line, conectado. Texto curto, rápido, indolor. Mas o livro, cá entre nós, são outros quinhentos anos de histórias que nunca chegamos a alcançar. Ou que experimentamos pouco, muito pouco. Livro demanda disposição, tempo, concentração. Livro dispensa preguiça, velocidade, distração.

A relação livro-leitura não é tão óbvia quanto parece. Eu mesmo, devo confessar, muitas vezes compro e não leio. Mas o objeto está ali, pleno de reticências, a um palmo dos olhos, prestes a ser apanhado, consultado, rabiscado. Afinal, “é o que você lê quando não tem que fazê-lo que determinará o que você será quando não puder evitar”. Palavras do irlandês Oscar Wilde, famoso pelo espelho identitário de O Retrato de Dorian Gray.

O livro das imagens dos últimos dias é visível: tem capa, contracapa, lombada, volume. Pode ser transportado como um signo, da casa à seção eleitoral, da estante à mesa. Tem informações a transmitir não apenas como palavras-frases-parágrafos que poderiam estar dentro de um aparato eletrônico de leitura. Se não fossem livros de papel, não teriam esse sentido de comunidade e respeito. Perderiam status.

Para lembrar e parafrasear título de obra assinada por Umberto Eco e Jean-Claude Carrière: não contem, portanto, com o fim do livro. Mesmo presente entre poucos dos muitos nós brasileiros, ainda resiste e proporciona experiência de verdade, como provam as últimas aparições. Sobretudo, me parece importante pensá-lo como proteção para a liberdade do pensamento, à direita, à esquerda, ao centro. O livro não tem e não pode ter proprietário ideológico. Livro é lugar para permitir que a dúvida se enfronhe.

Na obra literária em particular, livro é espaço de inquietação do imaginário, para ressoar algo da mágica linguística de Guimarães Rosa. Livro é a mulher com seu amante (Clarice Lispector). Livro é alimento e bebida para o espírito (Victor Hugo). Livro é o paraíso tornado biblioteca (Jorge Luis Borges). Ficção ou não, livro é lar da família. Mas é também casa de tolerância. Muita tolerância.

O alemão Heinrich Mann constatou que “uma casa sem livros é como um quarto sem janelas”. Muito antes, Cícero afirmou que “um quarto sem livros é como um corpo sem alma”. Na minha morada, um imã de geladeira nos lembra, de forma graciosa e a cada alimento ou bebida extraído do frio, que “não existe algo como livros demais”. E um sujeito tenta equilibrar uma pilha de livros nos braços.

Os volumes hão de se esparramar. Sem problema. Livros nunca são demais. Temos de nos esforçar para que deixem de ser de menos. Para que tenhamos motivo de comemoração no próximo 29 de outubro, para que as livrarias reabram ou não fechem suas portas, para que deixemos de lado a vingança contra quem pensa diferente da gente, para que o amor e a paixão voltem aos nossos coraçõezinhos dilacerados.

Bora ler livros?

Fonte: Metrópoles

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