O acaso dos livros

Tão importante quanto o texto é a maneira como um livro chega ao seu leitor. Há sempre a mão do destino nos encontros mais importantes. É um prazer ir a uma livraria, passear pelas prateleiras e encontrar um exemplar que, de fato, valha a leitura, que sopre um vento novo, que seja um alívio, uma janela aberta.

Há outra maneira de promover esse encontro, quando ele acontece em uma prateleira, ninho ou geladeira cheias de livros para doação. Tem sido assim para muita gente, como parte de uma onda de iniciativas que fazem a literatura circular de uma maneira não convencional, quase no contrafluxo do movimento de escolha e compra. Circulam por aí relatos lindos de pessoas que acharam um texto em um desses pontos de doação e deixou sua vida mudar, palavra a palavra.

Dois projetos em Fortaleza, quase como o mesmo nome, encontraram a forma certa de compreender do que se trata esse movimento: Livro Livre e Livros Livres. O primeiro está espalhado pela Cidade, cuidado por uma leitora dedicada chamada Anitta Moura. O segundo, no plural, é um projeto da Biblioteca da Universidade Federal do Ceará, no Campus do Pici e em outros campi, organizado com carinho e muito esforço pela Islânia Castro.

A biblioteca pessoal mora mesmo na lembrança. Quando o acaso ajuda a construir esse relicário de leituras, o olhar alcança muito além do que estava na rota

A ideia é a mesma: os livros são recebidos, cuidados, marcados com seus carimbos de liberdade e ganham mundo para que encontrem os leitores. Nos pontos de doação e troca, a moeda é só mesmo o desejo de ler. É um conceito de relação com a leitura que subverte a ideia do apego, do ciúme, dos livros acumulados pela casa. É um sebo solidário, uma biblioteca que se doa e se desmancha, ao mesmo tempo em que se refaz todos os dias. Não parece um bocado com o fantástico livro de areia do Jorge Luis Borges? Aquele que nunca é o mesmo e que não obedece a qualquer regra de numeração ou impressão?

Há outra coisa acontecendo nessa relação entre livros e acaso. Estamos revivendo os tempos áureos do Círculo do Livro, surpreendentemente melhorado com um novo clube de assinaturas: Tag Livros. Assinando o clube, o leitor recebe em sua casa um ou dois livros por mês, dependendo do plano. São edições exclusivas, escolhidas por um time de curadores de primeira qualidade e que trazem para o assinante a possibilidade de ler algo que talvez nunca chegasse por outros caminhos. As edições são muito bonitas, chegam direto em casa. A Tag é uma proposta genial, que vem como um respiro aliviado no meio de uma crise grave no mercado editorial brasileiro.

É de acasos que se faz o percurso de um leitor. Acho, aliás, que todos que leem muito deveriam escrever cartas sobre isso, sobre o que ficou de tantas leituras ao longo do tempo. Nem tudo fica, muita coisa vai embora com o vento. Alguns autores permanecem, apaixonam, marcam. Algumas frases, vários sentimentos. A biblioteca pessoal mora mesmo na lembrança. Quando o acaso ajuda a construir esse relicário de leituras, o olhar alcança muito além do que estava na rota. Toda vida precisa dos desvios do destino. Os livros são mensageiros dos bons descaminhos.

Texto por Socorro Acioli

Fonte: O Povo

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