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Monteiro Lobato para o século XXI

Ao cair em domínio público, os livros do Sítio do Picapau Amarelo incentivam grandes autores infantis brasileiros a recontar as histórias de Narizinho e Emília com uma linguagem politicamente correta

ENCONTRO Monteiro Lobato, seus personagens e Mauricio de Sousa: versão modernizada

Texto por Luisa Purchio

Os grandes clássicos da literatura são atemporais. Com o passar dos anos, o público leitor continua sedento da genialidade de seus autores, que souberam como ninguém traduzir emoções resistentes ao tempo. Com Monteiro Lobato (1882-1948), não é diferente. O pai de Narizinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia nunca deixou de fazer parte da infância dos brasileiros, mesmo que autores contemporâneos tenham tomado um pouco do seu espaço. Agora, quase cem anos após a publicação de seu primeiro livro, suas criações ressurgirão. A razão da guinada é que elas caíram em domínio público. A lei brasileira determina que as obras perdem proteções de Direitos Autorais após 70 anos contados do 1º de janeiro subsequente ao falecimento do autor. Como Lobato morreu em 1948, seus livros estão liberados em 2019. Na prática, isso significa que, para lançá-los, não é mais preciso pagar por direitos autorais ou pedir autorização aos herdeiros para realizar adaptações.

Para ganhar novos leitores e lucrar com vendas de exemplares, diversas editoras estão preparando adaptações — uma rotina no mercado editorial, a exemplo do que ocorreu com “O Pequeno Príncipe” em 2015. Em relação a Lobato, lançamentos de livros e até a produção de um filme estão previstos para este ano. É o caso da Girassol Brasil Edições, que lançará o livro “Turma da Mônica — Narizinho Arrebitado”, assinado, ao lado de Lobato, por Mauricio de Sousa, outro criador consagrado de histórias infantis. Na nova versão da obra, os personagens do Sítio do Picapau Amarelo ganham novas ilustrações: Narizinho tem desenho de Magali, Emília de Mônica e Pedrinho de Cebolinha. No início, Mauricio, de 83 anos, relutou em colocar o seu nome ao lado do de Lobato, de quem é fã desde criança. “Eu morava em Mogi das Cruzes, ainda uma cidade pequena do interior, e me encantei com o jeito caboclo dele descrever uma fazenda e seus habitantes”, diz à ISTOÉ. “Isso tudo estimula quem quer ser escritor ou desenhista como eu. As ilustrações dos livros de Lobato, obra de diversos grandes artistas, foram inspiradoras. O desenhista Belmonte era meu preferido.”

Escritor nos períodos pré-modernista e modernista, Lobato revolucionou a literatura infantil. Além de traduzir para o papel a imaginação de uma criança, ele lançou ideias à frente de seu tempo, como o protagonismo feminino de Narizinho e Emília. Mas nem tudo são flores em sua obra. Lobato é bastante controverso, principalmente pelas manifestações racistas nas histórias. A principal vítima é Tia Nastácia, cozinheira que trabalha para Dona Benta e que confeccionou os bonecos vivos Emília e Visconde. Para relançar as obras de Lobato no século XXI, muitos optaram por adaptar esses trechos à etiqueta do politicamente correto. No livro de Mauricio, em vez de dona Benta ser descrita como “velha”, é chamada de “senhora”, e partes como “negra beiçuda” foram suprimidas. “A obra de Lobato não é em sua essência racista, por isso foi possível suavizar algumas expressões sem mudar radicalmente o texto”, diz Regina Zilberman, uma das maiores especialistas em Lobato, responsável pela adaptação. “Hoje em dia, temos mais cuidado com as palavras, e isso é muito bom. É só uma questão de afinar a linguagem para não criar situações embaraçosas na escola.”

O escritor Pedro Bandeira, que também compõe a lista dos maiores autores infantojuvenis, concorda com Zilberman. Ele está preparando o livro “Narizinho, a menina mais querida do Brasil”, da editora Moderna, uma adaptação do original “Reinações de Narizinho”, de 1931. “Eu não gosto de palavras como negra beiçuda, nem macaca de carvão. Se alguém quiser dizer, que o diga, mas não virá de minha autoria”, diz. Por outro lado, Bandeira diz ser contra os excessos do politicamente correto. “Outro dia eu vi o nome ‘Branca de Neve e os sete amiguinhos portadores de nanismo’. Anão é anão, não é um xingamento. Se tivermos de falar ‘o portador de nanismo’, o mundo acabou”, diz ele. Assim como outros fãs, parece difícil para Bandeira reconhecer o racismo de Lobato, mas ele não o nega. “As suas cartas e crônicas demonstram que ele era eugenista, mas em um tempo em que todo mundo acreditava na superioridade das raças. O Lobato sabia mudar de ideia. Se tivesse vivido mais, certamente teria mudado”, diz.

PERDAS E GANHOS

Há quem defenda, no entanto, a leitura dos textos originais às crianças. É o caso de Camila Werner, que entre 2015 e 2018 foi responsável pelo selo Globinho, que edita os textos integrais de Lobato. “A literatura não está para fazer lição de moral, ela está para refletir o mundo e a gente pensar sobre ele”, diz ela. Para isso, seriam necessários mediadores que expliquem o contexto histórico em que foram escritos. “Em um país com tantos problemas na educação, será que os pais e professores vão saber conversar sobre isso?”, diz ela. No livro “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil”, fruto de uma tese de doutorado na USP, o professor e escritor Ilan Brenman defende que esconder conflitos não é saudável para as crianças, pois elas passariam a desconhecer o mundo como ele é. Ele acredita que os livros são uma oportunidade de os pequenos conhecerem e enfrentarem seus monstros interiores, no que chama de escoamento literário. “Eu nunca vi pessoas falando que leram Lobato e se tornaram racistas ou antiecologistas. Se você tem vontade de matar uma onça e a matou no livro, a fantasia cumpriu a sua função”, diz Brenman. Ele ressalva, no entanto, que algumas adaptações não são um problema, desde que a alma da obra esteja contemplada. “O complicado é ir limpando e não sobrar nada. O politicamente correto às vezes se equivale a regimes ditatoriais, que apagam a história.”

Se, de um lado, o domínio público permite às editoras publicar sem custos autorais as obras de Lobato, de outro pode criar uma armadilha. O governo não compra livros nessas condições e assim as empresas perdem um relevante mercado. As adaptações surgem então como uma forma de vender, já que, com novos autores, surgem novos livros. No ano passado, porém, nem o Lobato adaptado — que não havia sido lançado —, nem o original — que estava para cair em domínio público —, puderam ser inscritos no Plano Nacional do Livro Didático 2019 e 2020, cujos editais selecionam os livros das escolas públicas. “Quem ganha com o domínio público de Lobato é a sociedade brasileira”, diz Pedro Bandeira. Os textos originais estão disponíveis gratuitamente em sua integridade para que o público possa conhecer a literatura da época e fazer os seus próprios juízos de valor.

Turma da Mônica – Narizinho Arrebitado

Autor: Monteiro Lobato

Apresentação na orelha: José Vicente – Reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares

64 páginas

Girassol Brasil Edições

Fonte: IstoÉ

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