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Monteiro Lobato e a literatura infantil: uma entrevista com Pâmela Machado

Um dos enganos mais comuns é pensar que a literatura infanto-juvenil é algo simples e que não pode lidar com temas sérios. No Brasil, o maior nome da literatura infantil foi um autor complexo, engajado em diversas questões políticas e dedicado a pensar para Brasil um projeto nacional. Que é claro incluía livros.

A maior obra de Monteiro Lobato pode ter sido as histórias do Sítio e seus personagens, mas está longe de ser a única coisa que o autor fez. É justo que a data do nascimento do autor, 18 de abril, marque o Dia Nacional do Livro Infantil, mas ainda assim é sempre bom pensar na sua contribuição levando em conta toda sua complexidade.

É o que tentamos fazer nesta entrevista com Pâmela Machado, mestre em Ciência da Informação pela UFMG, com a dissertação “Netos de Lobato: modos de ler o Sítio do Pica-Pau Amarelo no século XXI”.

CML: Seria incoerente chamar um autor de clássico e questionar se sua obra ainda diz algo para o mundo contemporâneo. Mas Lobato também era um autor do seu tempo. Você vê algum problema dele continuar servindo de referência para literatura infantil? Quais aspectos os formadores de leitores devem estar atentos ao usarem as obras de Monteiro Lobato nos dias atuais para que ele não se transforme em uma armadilha?

PM: Lobato soube transitar por diferentes épocas e mentalidades em sua literatura infantil. Retornou às fábulas de La Fontaine e aos contos de fadas, trazendo-os para a sua literatura e adaptando-as aos seus leitores; contextualizou os leitores do momento histórico em que viviam e, de modo algum, se conformou com a realidade social, política, econômica e cultural em que estava inserido. Tudo isso contribuiu para que Lobato se tornasse um revolucionário no que se refere à formação de leitores no Brasil entre as décadas de 1920 a 1940. Conhecer sua obra hoje certamente nos permite verificar traços de um autor daquele período e ao mesmo tempo contemporâneo a nós. Tanto sua técnica narrativa, suas personagens e histórias, quanto sua motivação em escrever para crianças são referências fundamentais para a literatura infantil brasileira.

No que se refere aos cuidados que devemos ter, gosto sempre de enfatizar um assunto específico que considero dos mais importantes a ser tratado no que se refere à literatura infantil lobatiana. Antes de ser escritor, Lobato era um homem inserido em uma sociedade racista, situação que, infelizmente, não mudou muito de lá pra cá. Contudo, naquele período, se havia discussões a respeito do assunto, eram ainda incipientes. Não há justificativas para o racismo de Lobato, há apenas o fato de que traços deste racismo estão presentes em alguns de seus livros infantis e isso incomoda (e ainda bem que incomoda) as pessoas. Quando contextualizamos a obra de Lobato, não é na intenção de justificar seu erro, e sim de mostrar como nós estamos propensos a reproduzir os discursos do nosso contexto social. Exatamente isso aconteceu com Lobato e não pode continuar acontecendo conosco. Lobato estava ciente de suas contradições e as problematizava, como por exemplo, no final do livro “Memórias de Emília”, há o depoimento da boneca em que ela admite não dar o tratamento correto à Tia Nastácia. Há muito que ser discutido a este respeito, principalmente no que se refere à mediação de suas obras pelos “formadores de leitores”. Mediar é levar o leitor pela mão e mostrar as possibilidades de encontros com o livro. Mediar é mostrar que os livros existem; ler com e para os leitores, é estar pronto para falar sobre assuntos delicados. É importante que o mediador crie uma relação de cumplicidade com o leitor para que este sinta liberdade de dizer quando algum trecho que o incomodar. É responsabilidade do mediador (me incluo aqui) mostrar o que existe e estar pronto para conversar sobre qualquer assunto pertinente à literatura. Veja bem, esse caminho é totalmente contrário ao caminho do cerceamento. Caso contrário, sempre haverá uma forma de “fugir” do assunto ou tentar poupar o leitor de uma realidade que, infelizmente, existe e precisa ser evidenciada. Em contrapartida, nenhuma leitura deve ser imposta nesse sentido (apenas apresentada), cada leitor terá o seu tempo de descoberta.

CML: Recentemente, a fantasia  estrangeira tem conseguido grande influência entre leitores e escritores nacionais, ao ponto de criar uma impressão de que o gênero era ignorado no Brasil. Os livros do Sítio podem ser considerados obras de fantasia com elementos que encontramos em obras recentes como Harry Potter? Você acha possível trabalhar a obra de Lobato pensando nos aspectos típicos das produções de fantasia?

PM: A obra infantil de Lobato não se enquadra na literatura de fantasia e sim na maravilhosa e é possível verificar as diferenças entre elas. A literatura de fantasia apresenta um caráter épico e dentro de determinado universo é posta como algo natural, ou seja, a fantasia sendo considerada realidade. Ela exige um sistema fechado, uma lógica interna para os acontecimentos. Neste universo fantasioso, a magia funciona com regras como uma ciência. Enquanto que na literatura lobatiana  não há regras para a magia, o que há é um “faz de conta” que permite que tudo seja possível. As personagens podem qualquer coisa porque o limite que têm é o limite da mente humana, da criatividade (imaginação). Outra característica da literatura de fantasia está na abordagem rígida da sequência cronológica dos acontecimentos, por outro lado, nas narrativas do Sítio não é importante que se tenha uma linha temporal. O pó de pirlimpimpim, por exemplo, transporta as personagens de um lugar para outro, eliminando as barreiras temporais e espaciais. Ao mesmo tempo em que a personagem está no presente, ela pode se transportar para o passado ou as personagens do passado podem se transportar para o presente, sem que seja necessário qualquer tipo de explicação lógica. É notável o rompimento com as noções de tempo e realidade. Ainda há um terceiro aspecto importante de ser mencionado, a literatura de fantasia pode assumir uma faceta simbólica como,  por exemplo, nas Crônicas de Nárnia em que a fantasia é uma metáfora da realidade. Já em Lobato, quando, por exemplo, ele narra histórias em que Peter Pan está presente, ele não propõe uma metáfora do real. Lobato faz referências a muitas obras épicas, mas com o objetivo de aproximar essas obras das crianças, atenua seu caráter épico e o torna corriqueiro, cotidiano. Portanto, a literatura lobatiana não se enquadra na literatura de fantasia. Sua literatura infantil é construída a partir dos elementos do maravilhoso em que o real e o mágico, o normal e o extraordinário, o possível e o impossível se articulam com total naturalidade.

CML: “Eu sou a independência e a Morte”, disse a Emília. Talvez ela seja a personagem mais popular de Lobato, mas a sociedade brasileira tem presenciado recentemente muitos casos de censura a certas obras literárias e outras obras de artes baseadas em moralismos, nem sempre justificados. O que a Emília poderia nos ensinar sobre como reagir a essas situações? É possível a independência ou personagens como a Emília estão mais próximas da morte?

PM: Considero legítima toda crítica ou questionamento, desde que sejam abertos para discussões e avaliações. Em se tratando da literatura infantil lobatiana, compreendo que muitas críticas venham para nos fazer refletir a respeito dela e da sociedade em que estamos inseridos, afinal, a literatura está aqui para nos movimentar também e esse movimento pode acontecer a partir do incômodo que ela pode causar nos leitores, por que não? Levantar e trazer para os debates os aspectos com os quais não concordamos na literatura e na arte em geral é fundamental para o nosso próprio desenvolvimento como seres humanos, afinal, escritores/artistas são humanos e passíveis de erros como qualquer outra pessoa. As artes refletem o que os artistas acreditam e defendem. A pergunta é: somos nós quem devemos determinar o que outros devem ou não ler e apreciar?

Emília, com sua postura transgressora e radical, nos leva a refletir sobre sua existência (e da literatura). Sem dúvidas, ela revela seu posicionamento contrário a qualquer tipo de censura. Emília nunca aceitou ser silenciada e, sempre que criticada, tinha uma resposta da ponta da língua. Penso que se ela respondesse a esta pergunta, diria: “se a arte não está aqui pra ser livre, é melhor que nem exista”. No Sítio, nada é simplesmente ensinado sem que haja muitas perguntas e discordâncias por parte das crianças, o que considero muito saudável. E nenhum tipo de conhecimento é censurado. Até mesmo as atitudes das personagens (principalmente da Emília) que causam transtornos são permitidas, a fim de que elas aprendam com seus próprios erros. Um exemplo está no livro “Reforma da Natureza”, em que Emília decide mudar várias coisas na natureza, mas ao final percebe o quanto suas mudanças provocaram desequilíbrios. É certo que vivemos um período em que o politicamente correto tenta impedir qualquer tipo de reflexão e debate, impondo suas determinações, mas ouso acreditar que Emília (representando aqui todos os tipos de manifestações artísticas) não saberá o que é a morte definitiva, ainda que seja silenciada em alguns lugares e períodos. Ela representa a resistência e resistirá.

CML: Recentemente, um apresentador de televisão sugeriu que a política não deveria fazer de parte de uma forma de entretenimento (futebol). Monteiro Lobato jamais deixou de opinar sobre política. Ele misturou política e a literatura? Como ele fez isso na obra do Sítio e é possível seguir esse exemplo para usar uma forma de entretenimento (literatura) para falar de política?

PM: Em minha opinião, rotular a literatura como uma forma de entretenimento é reduzi-la e limitá-la a esse fim, quando ela como arte está aqui para promover o deslocamento em seus leitores, aproximando-os do outro e do diferente. Lobato usou a literatura para agradar e divertir sim, mas, como nacionalista convicto, intelectual e defensor do progresso, externou claramente seu desejo de formar leitores e cidadãos conscientes e ativos no país. Para tanto, inseriu em suas histórias os ideais, inconformismos e fatos que considerava importante das crianças tomarem consciência, como por exemplo, a busca pelo petróleo no Brasil, os problemas sociais, as guerras e as incoerências do homem. A partir da leitura da obra infantil lobatiana, é notável que o autor não separa em nenhum momento a literatura da política. E, diferentemente de muitos que ainda subestimavam a capacidade das crianças de compreender, refletir e questionar, Lobato escreve para elas, preocupando-se com a adequação da linguagem e sem desmerecer o potencial que possuem.

Fonte: Câmara Mineira do Livro

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