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Livros para bebês com narrativas, sim!

Jujuba, editora independente há 9 anos no mercado de literatura infantil, volta-se para a primeiríssima infância com uma coleção de livros diversos e que afirmam o bebê como leitor de literatura

CRISTIANE ROGERIO

(Foto: Shutterstock)

Lugar de bebê é no… colo! E lugar de livro, veja só, também! Mas de que colo estamos falando? De um colinho-carinho, colinho-aconchego, colinho-toda-a-atenção-do-mundo. A editora Daniela Padilha, criadora da Jujuba Editora e mãe de dois filhos pequenos, há alguns anos vem pesquisando as relações entre os livros e os bebês.

De leitor em leitor, passou a desejar ter em seu catálogo livros que acolhessem os bem pequenos, mas que atraíssem o adulto também. Nasce, assim, a coleção Literatura de Colo, que a Jujuba lança com cinco livros para a primeiríssima infância (período da gestação aos 3 anos de idade). Dois são brasileiríssimos: O que tem aí?, da artista pernambucana Rosinha, e Bia e o elefante, da dupla Carolina Moreyra e Odilon Moraes. Os outros três que o público terá acesso agora, são o adorável Azul, dos espanhóis Meritxell Martí e Xavier Salomó; Onde está Tomás?, da peruana Micaela Chirif com a espanhola Leire Salaberria, e O urso e o barco, do inglês Cliff Wright.. Misturando autores brasileiros e estrangeiros, são convites à surpresa, ao olhar detalhes, seguir a narrativa. Embora dentro de uma coleção, são completamente diferentes um do outro, mais uma raridade no nosso mercado editorial.

Daniela Padilha (Foto: Divulgação)

 Daniela acredita que as obras se conectam aos diálogos e escutas possíveis com os bebês anteriores à fala. “Que ainda estão na ordem do sentir, do estar, da relação primeira”, diz. Para 2020, a Jujuba relançará o clássico OPS, de Marilda Castanha, e ainda inéditos de Renato Moriconi, Stela Barbieri e Fernando Vilela e Lalau e Laurabeatriz. CRESCER conversou com a editora Daniela Padilha para saber mais sobre como uma editora escolhe um livro voltado para esta fase sem perder a essência da busca por uma boa literatura desde a barriga.

Como surgiu seu interesse por esta “fase” da literatura?
Daniela Padilha: Curioso é que surgiu isso antes até da primeira gravidez! (risos). Depois, já grávida, quis fazer alguns projetos e em 2015 eu fiz uma roda de conversa no Sesc Belenzinho. Comecei a procurar livros e pesquisar muito.

Você ja sabia que tinha livros interessantes para esse público fora do Brasil?
Sim, eu já sabia que tinha muita coisa de qualidade sendo feita lá fora, mas que nem sempre chegava aqui por uma questão de custo. Isso começou a acontecer nos últimos anos, quando algumas editoras passaram a investir mais em obras para esse público.

Por que acaba-se priorizando livros sem narrativas ou o que chamamos de “livros-brinquedo”? Custo?
Os livros que vêm pra cá são livros mais baratos de comprar para traduzir. São livros que não têm tanta preocupação com uma história, são geralmente editoras que contratam um ilustrador, sem ser alguém que cria algo autoral. E ele faz vários livros e na quantidade fica mais barato. E vai naquela ideia de “ah, mas ele nem entende a história, é só um bebê”.

O que eu quis com o Literatura de Colo era tentar procurar fora e aqui de dentro do Brasil livros que tenham histórias para serem contadas. Por exemplo que podem falar de opostos, indo além do “em cima/embaixo”, “frio/quente”. Pelas pesquisas que fiz e por experiência própria, acho muito difícil criar uma relação com algo que é dado artificialmente a você. Se um pai ou mãe está com um bebê no colo e a única coisa que ele pode dizer é “triângulo” “bola” “quadrado” não vai fazer muito sentido para ele… E então não fará sentido àquele momento. Ela pode até apontar, mas “bola” ela vai “aprender na vida”, como dizia Paulo Freire.

Então vamos falar do livro O que tem aí?, da Rosinha. Eu tenho falado com as pessoas pós-leitura que faço, assim: “Sim, é um livro sobre cores, sobre números, sobre animais, sobre o ‘Cadê? Achou!’… Mas é mais do que isso!”
A gente começou a mapear esses tipos de livros pensando, por exemplo, por que as cores são tão importantes de falar para a criança, por que tantos de animais. E como fazer isso sendo diferente? Criando uma história. Para que a gente consiga criar a história destes pais com as crianças. Eles se vincularem com o livro e a criança também.

E é isso o que interessa, né?
É um livro que precisa da mediação do adulto, que ela não dá conta sozinha. Pode até ser uma reclamação (risos), mas acho bom. Se há uma intenção é criar esse vínculo. É ver que é esta a parte boa! Claro que a criança cria uma relação sozinha, mexe, etc. Mas com o adulto fica melhor. Em Azul, por exemplo: o adulto, que sabe ler, pode dizer “céu”, que é a única palavra escrita ali. Mas há uma narrativa acontecendo na imagem: um gato que derrubou um anel, que caiu…

Azul, Ed. Jujuba, R$ 42 (Foto: Divulgação)

Já o livro da Rosinha tem bicho de verdade e bichos inventados, a rima é uma provocação para os adultos! Ela tem uma facilidade de se comunicar com os menores. O uso de cores, etc. E quando pensamos nos bichos e cores, pensei nela e para ela é fácil brincar. Ela diz que é uma “brincante do livro”. E a gente tinha o desafio de ter um livro interativo, e queria um livro do cadê achou, muita coisa em um projeto! E aí veio a ideia das abas, com as cores, os bichos e os números, e a rima…

E o nonsense! E assim vai se dando a narrativa em diversos aspectos para as crianças!

O que tem aí?, Ed. Jujuba, R$ 42 (Foto: Divulgação)

 

O que tem aí?, Ed. Jujuba, R$ 42 (Foto: Divulgação)

Uma outra coisa que também é caracterítica ao, por exemplo, ler um livro ilustrado (pensando nele como a relação de dança entre palavra e imagem), é a necessidade de uma companhia. É mais gostoso se estiver lendo com alguém! Como o Odilon Moraes sempre diz: você lê desconfiando do que lê, sabe que tem algo a decifrar, a mais…
E o bebê só “existe” a partir do outro, a partir da relação com o outro.

Estas questões passam também por outro engano que cometemos, que é falar da criança pequena como “futuro leitor”. Ela é uma leitora naquele momento e, assim, vou produzir ou ler algo interessante para ela naquele momento.
É enxergar o bebê como algo que já é. Aí você oferece algo de qualidade. Se faz sentido para o mediador, será de um jeito, mas se você não acha importante…

Assim, de alguma maneira, os livros para bebês acabam tocando na questão de formação do leitor adulto, não?
Sim, e até o adulto e quem a gente acha que não é leitor, mas que é leitor. Lendo algum tipo de texto, imagem…

Muito mais importante pensar no direito à ficção.
Sim e pode ser que o livro não seja o seu lugar da ficção, e depois você pode achar outros.

E que podemos estabelecer relações diferentes com os livros…
Eu quero mesmo dizer que sejam livros que “não servem para nada”, mas “só” para ter uma relação de afeto!

E o livro é um convite a “ter um tempo” a mais…
Tempo externo e tempo interno. É um período muito pesado, principalmente para a mãe, cheio de cobranças. E não podemos colocar o livro como mais uma coisa que ser feita… mas conversar o que pode provocar de bom naquele momento. Aí só fazendo para entender: colocar um bebê no colo e ler e ver esta conexão acontecer! Quando você para para fazer isso, acalma você internamente, acalma ele. E estou falando de livro, mas pode ser música!

E em outros espaços, como a escola?
Acredito que dentro do espaço maior é buscar esta conexão possível. É esse “acalmar” dos dois lados, o respeito ao tempo de leitura e saber que ele mesmo engatinhando pode “estar” na leitura.

Então pensar o livro criando relações com os outros tantos adultos. Aquela cena da criança pequena trazendo um livro para a pessoa que ela acabou de conhecer… E a narrativa são códigos compartilhados.
E é isso que atrai o adulto. A ideia é mexer mais com essa nossa ideia aqui de livros para esta fase da criança: e, sim, eu sonho mesmo é que a gente tenha uma ampla produção de livros brasileiros para bebês.

Fonte: Revista Crescer

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