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Livros infantojuvenis vão além do ‘era uma vez’

Trabalhos de Jacques Fux e Leo Cunha criam abordagens que aproximam a literatura de outras áreas, brincando com enigmas e os manuais

Por CARLOS ANDREI SIQUARA
Jacques Fux
“O Enigma do Infinito”, de Jacques Fux, é inspirado em “Alice no País das Maravilhas”, entre outras referências
Foto: Raquel Matsushita/Divulgação

Em um livro infantojuvenil cabe algo mais do que histórias curiosas sobre terras imaginárias ou aventuras em lugares distantes. Há também espaço para o jogo com conceitos matemáticos, filosóficos e até aproximações com o universo da alquimia e suas receitas mirabolantes. É o que demonstram os livros recentes “O Enigma do Infinito” e “O Livro Maluco das Poções Mágicas”, publicados, respectivamente, pelos escritores mineiros Jacques Fux e Leo Cunha.

O primeiro título marca a estreia de Fux, vencedor do prêmio São Paulo de Literatura 2013, nessa seara. Leitor voraz de narrativas infantis, ele conta que “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll (1832- 1898), é um dos seus livros preferidos e, certamente, foi um dos responsáveis por estimular sua escrita para além do público adulto.

“Vale lembrar que Carroll era matemático e que tanto em ‘Alice no País das Maravilhas’ quanto em ‘Alice Através do Espelho’ ele está tentando ensinar alguns princípios de lógica e matemática para Alice Lidell (1852-1934), a quem ele dedica os livros. Eu sempre gostei desse tipo de literatura, que é capaz de encantar adultos e crianças. E acho que meu livro tem muito a ver com Alice no sentido de também lidar com essa noção de enigma, o que pode estimular o leitor a solucioná-lo ao longo das páginas”, afirma Fux.

Também matemático, o escritor observa que “O Enigma do Infinito” é outro desdobramento de sua tese de doutorado, em que ele já aproximava a linguagem matemática da literária, a partir da análise da produção do argentino Jorge Luis Borges (1899) e do francês Georges Perec (1936- 1982).

Em vez de conceber uma história em torno da qual gravita todo o livro, seu trabalho mais recente desvela um conjunto de pequenas narrativas, que, por sua vez, oferecem diferentes vias de entrada.

“Acho que existem várias formas de leitura desse livro. Ele é para todas as idades e pode ser muito atrativo para jovens estudantes. Eles podem, a partir da leitura, dar conta de que a matemática não é algo assim tão difícil e que ela não está tão separada da literatura. Eu acho que ‘O Enigma do Infinito’ é um livro que buscar fazer as pazes entre essas duas áreas”, acredita Fux.

Ele também acrescenta que a obra provoca outros olhares para a noção de enigma, que, embora se aproxime da ideia de problema, tão cara à matemática, dentre outras áreas do pensamento, não deve ser compreendida como algo vinculado a um obstáculo imobilizante.

“Nós podemos pensar o enigma por meio de um viés literário, que está na literatura de Edgar Allan Poe (1809-1849) e Borges, por exemplo. A palavra ‘enigma’ também nos remete à Segunda Guerra e à máquina de codificação de Alan Turing (1912-1954). Ou seja, o enigma envolve um universo muito rico, que nos leva a pensar no poder da imaginação. Enquanto alguns enigmas vão sendo resolvidos, há outros novos que vão sendo criados”, reforça Fux.

Estreitar as fronteiras entre mundos aparentemente incompatíveis, pontua Fux, também tem sido uma das tarefas dos escritores contemporâneos, que, observa ele, têm chamado atenção para a artificialidade dessas separações.

“Durante alguns séculos do desenvolvimento do conhecimento, nós tivemos que nos especializar, e as áreas não conversavam. Esse foi um momento importante para a física, a matemática, a história, entre outras. Mas, atualmente, o escritor tem essa possibilidade de abraçar as diversas áreas, o que, para as crianças de hoje, pode representar um ganho e um salto na maneira de compreender o mundo no futuro”, pontua Fux.

Manuais. O veterano Leo Cunha, já contemplado com o Jabuti e o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional, entre outros, sublinha que “O Livro Maluco das Poções Mágicas” brinca com o estilo dos manuais e traz uma lista de bebidas, como a “mate-mágica”, que “transforma nossa mente em uma máquina de calcular”. “Ideal para a época das provas”.

O título também é permeado de ambiguidades, que provocam o leitor a ter uma atenção redobrada com as relações entre palavra e imagem. “O texto diz que a personagem, por exemplo, encontra um baú enorme em determinado contexto maravilhoso, mas a imagem mostra outra coisa. Então, o livro estabelece jogos, e a ilustração amplia as possibilidades de leitura e não está ali apenas com uma função decorativa”, frisa Cunha.

Saiba mais

“Ada Batista, Cientista”, de Andrea Bety e David Roberts, inaugura a Coleção Jovens Pensadores (Intrínseca), que aproxima a literatura infantil de outras áreas.

Fonte: O TEMPO

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