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Literatura infantil negra: a importância da representatividade nos livros

Obras infantis com protagonistas negros e histórias que resgatam a ancestralidade africana fortalecem a construção das identidades em crianças afro-brasileiras

Por: Daniel Medeiros

As irmãs gêmeas Helena e Eduarda Ferreira possuem um canal no YouTube com dicas de livros

As irmãs gêmeas Helena e Eduarda Ferreira possuem um canal no YouTube com dicas de livrosFoto: Reprodução/Instagram

Na infância, o livro pode funcionar como uma porta de entrada para o autoconhecimento. Através das primeiras leituras, meninos e meninas são levados a um caminho de construção das próprias identidades, aprendendo sobre seu passado e desenvolvendo ideias. No entanto, não é tão fácil para todas as crianças se reconhecerem em muitas dessas histórias. Mesmo que o tema representatividade esteja em alta nos últimos tempos, a presença de protagonista negros na literatura infantil ainda não é expressiva.

Essa é uma realidade sentida pelas irmãs cariocas Eduarda e Helena Ferreira, de 10 anos. Leitoras vorazes desde que foram alfabetizadas, as gêmeas sabem bem o que é folhear as páginas de um livro e não encontrar personagens com os quais se identifiquem. Donas de um canal no YouTube, o Pretinhas Leitoras, elas tentam ajudar outras crianças com dicas de obras que leram e gostaram.

“A gente quase não encontra livros falando sobre pessoas pretas. Se a gente procurar uma história para ajudar numa situação de racismo, vai ser complicado achar”, lamenta Eduarda. “A história do nosso povo a escola não conta. Por isso, para que outras crianças possam crescer conhecendo a trajetória do nosso povo, foi que a gente criou o canal”, completa Helena. Moradoras do Morro da Providência, na Zona Central do Rio de Janeiro, elas contam ainda com páginas no Instagram e no Facebook.

Mas não é apenas no ambiente virtual que o projeto da duplinha é ativo. Na companhia da irmã caçula, Elisa, elas vêm participando de diversos eventos, como feiras literárias e rodas de leitura. “A gente oferece uma mediação do livro. As crianças podem conversar com a gente e nós tentamos responder as perguntas delas”, explica Eduarda. Para a mãe das garotas, a pedagoga Elen, o envolvimento que as filhas têm com a literatura deveria ser regra e não exceção. “Quando as crianças têm acesso aos livros, elas vão criando estratégias para se protegerem de eventuais violências e, no futuro, cobrarem medidas que as protejam”, defende.

A professora e pesquisadora Dayse Cabral, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Pernambuco (NEAB-UFPE), afirma que é fundamental apresentar para as crianças narrativas com protagonistas negros em situações de empoderamento. Segundo a especialista, se partirmos de uma observação histórica, a representação que a literatura brasileira faz dos negros tem sido em situações de subalternidade, escravidão e pobreza.

“Aos brancos sempre são dadas as representações de reis, rainhas, princesas, príncipes, heróis e heroínas. A criança negra cresce sem ter a oportunidade de se ver representada nesses papéis importantes. Isso representa um impacto para sua autoestima, autoconceito e compreensão de sua ancestralidade. Tem implicações sobre o desconhecimento sobre o legado africano e a afirmação do sua identidade racial”, afirma a educadora.

“Amoras”, livro infantil de Emicida – Crédito: Divulgação

 

É visando transformar esse quadro que cada vez mais artistas negros com grande destaque midiático vêm lançando livros para os pequenos. Um exemplo é a atriz mexicana Lupita Nyong’o, estrela de filmes como “Nós” e “Pantera negra”. Sua primeira obra literária, “Sulwe” chegou ao Brasil em outubro. Em seu perfil no Instagram, ela afirmou que escreveu o livro “para encorajar as crianças (e todos realmente!) a amarem a pele em que estão e ver a beleza que irradia de dentro”. No Brasil, o ator e dramaturgo baiano Lázaro Ramos e o rapper Emicida também publicaram títulos para o público infantil, com foco em temas como a riqueza cultural afro-brasileira e o combate ao racismo.

Escritores como os citados anteriormente são capazes de dialogar com os leitores e gerar a tão procurada identificação, pois falam a partir de suas próprias vivências enquanto negros. Nos últimos anos, a quantidade de autores com esse perfil aumentou, mas a inserção de seus trabalhos nas editoras ainda enfrenta barreiras. “Observem as feiras de livros: ainda é um percentual muito pequeno da presença da literatura africana e afro-brasileira. Devemos romper com o perigo da história única, de contarmos apenas contos europeus e norte-americanos, de apresentarmos apenas para as crianças as princesas da Disney”, alerta Dayse Cabral.

Uma autora engajada

“A literatura que tem produzido revolução na última década entre negras e negros é aquela produzida por escritoras(es) negras(os), com consciência racial e do racismo no país, buscando valorizar o continente africano e as culturas afro-brasileiras”, afirma Kiusam de Oliveira. Ativista do movimento negro, a autora e educadora paulista é reconhecida por tratar de questões étnico-raciais em suas obras.

Com suas histórias, Kiusam oferece às crianças importantes ferramentas para lidar com o bullyng e o racismo. “O mundo no black power de Tayó”, por exemplo, fala de uma menina cheia de amor próprio e que não aceita quando os colegas de classe dizem que seu cabelo é ruim. A protagonista fez tanto sucesso entre os leitores que ganhou uma série de tirinhas, ilustradas por Amora Moreira.

Kiusam de Oliveira, escritora Kiusam de Oliveira, escritora – Crédito: Divulgação

Segundo a escritora, que também comanda sessões de contação de histórias, a reação dos pequenos ao descobrirem suas narrativas é de puro encantamento “Crianças negras soltam seus cabelos, os enfeitam e se empoderam, pois passam a acreditar que são belas e capazes de dar respostas estratégicas e inteligentes às discriminações racistas e sexistas vividas no cotidiano. E, isso é magnífico. Quando eu conto as histórias dos meus livros, percebo que as pessoas se emocionam e chegam a chorar por se sentirem representadas”, comenta.

Kiusam também faz questão de ressaltar as matrizes culturais e religiosas africanas em suas criações. Títulos como “Omo-Oba: histórias de princesas” e “O mar que banha a Ilha de Goré” resgata a riqueza dos mitos tornados invisíveis por séculos de colonização europeia. “Muito além de o Brasil necessitar de mais autores negros, se faz necessário que os mesmos não reproduzam a lógica dos cânones e sim que busquem compreender à fundo a ancestralidade africana, o que de fato ela nos deixa como legado para ser reatualizado e usado como fonte terapêutica e de resgate à vida”, arremata.

Dicas de livros infantis com protagonistas negros:

“Sulwe”, de Lupita Nyong’o (Rocco, 48 páginas)
Abordando a temática do colorismo, o livro conta a história de Sulwe, uma garota que se sente triste por ter a pele mais escura que a de seus familiares. Após uma jornada mágica, tudo muda e ela passa a entender que sua beleza é única.

“Sinto o que sinto: e a incrível história de Asta e Jaser”, de Lázaro Ramos (Carochinha, 48 páginas)
A trama acompanha Dan, personagem do Mundo Bita. Com dificuldades para identificar e nomear seus sentimentos, o menino aprende uma preciosa lição com seu avô e a história dos seus antepassados.

“Amoras”, de Emicida (Cia. das Letras, 44 páginas)
Baseada em uma música do rapper Emicida, o livro reproduz um diálogo entre o artista e sua filha. Os versos falam sobre negritude e representatividade, com referências a nomes como Zumbi dos Palmares e Martin Luther King.

“Omo-oba: histórias de princesas”, de Kiusam Oliveira (Mazza Edições, 48 páginas)
A oba reconta seis mitos africanos, divulgados nas comunidades de tradição ketu, pouco conhecidos pelo público em geral e que reforçam os diferentes modos de ser femininos.

“Obax”, de André Neves (Brinque-Book, 36 páginas)
Ambientado em uma aldeia africana, a história tem como protagonista uma menina cheia de criatividade e com nome de flor. Cansada de não ser ouvida, ele viaja em busca de provar suas histórias.

Fonte: Folha PE

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