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Leituras que libertam: a experiência de um Clube do Livro no Cárcere

O afastamento das mulheres e da população negra dos espaços de educação formal sempre foi uma estratégia utilizada pelo Estado

“(…) interessante essa pegada do racismo que vocês trouxeram. Eu sempre achei que fosse uma questão de dinheiro, mas vocês me colocaram pra pensar”. Foi essa fala que escutamos de uma participante do Clube do Livro, oficina que o coletivo pernambucano Liberta Elas realizou entre os meses de março e junho deste ano na Colônia Prisional Feminina de Abreu e Lima, município vizinho de Recife. O intuito da oficina é possibilitar o acesso das mulheres encarceradas ao mundo das letras.

O afastamento das mulheres e da população negra dos espaços de educação formal sempre foi uma estratégia utilizada pelo Estado brasileiro de silenciamento e manutenção da subordinação dessas pessoas.

Em 1854, foi instituído legalmente no país o decreto n° 10.331 em que estudar era uma atividade proibida para a população negra. Mais de cem anos se passaram e encontramos como participantes do Clube do Livro mulheres negras, na sua maioria mães e que não concluíram seus estudos. São essas mulheres que diariamente são massacradas pelo racismo, sexismo e pelas desigualdades de classe presentes na sociedade brasileira. Por isso, priorizamos, no Clube do Livro, a escolha de autoras negras como bell Hooks, Conceição Evaristo, Paulina Chiziane e as poetisas pernambucanas Amanda Timóteo, Lídia Lins e Rafa Lima que a partir das suas próprias experiências e percepções de mundo tratam das dores e das alegrias da mulher negra. Apesar da diversidade de escritas, os textos trazem temas comuns como racismo, sexualidade, violência, misoginia e maternidade.

 Outro objetivo do Clube do Livro foi a possibilidade da viabilização de remição de pena pela leitura. A recomendação n°44/2013 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) prevê a redução da pena em quatro dias para cada obra lida, sendo o limite de doze obras a cada ano, perfazendo o total de 48 dias de remição por leitura a cada 12 meses. Inicialmente, a oficina não contemplou as reeducandas com a remição, pois existe uma lista de livros determinada com as obras que devem ser lidas, resenhadas, analisadas e enviadas por ofício à juíza ou ao juiz de execução penal competente. Autores como Shakespeare, Eça de Queiroz, Victor Hugo, Paulo Coelho e Oscar Wilde são alguns dos nomes presentes na lista oficial de livros que prevê, em sua grande maioria, “clássicos” nacionais e internacionais.

As obras elencadas demonstram uma escolha do sistema prisional por visões hegemônicas de mundo e de sujeitos. As leituras indicadas vêm de espaços, na maioria das vezes, distantes das vivências das mulheres sob custódia do Estado.

Por outro lado, o projeto piloto do Clube do Livro, optou, neste primeiro momento, por trabalhar com textos escolhidos pelo coletivo Liberta Elas, ressaltando que a educação considerada formal ainda tem “dificuldade” de incorporar escritas que não sejam produzidas por autores brancos.

Durante a realização das oficinas, o conceito de escrevivência de Conceição Evaristo, em que a escrita é indissociável da experiência vivida de cada uma, permeou não só a escolha dos textos, mas as vivências desses encontros. É revolucionário o processo educativo de mulheres negras que passam a conhecer as histórias e escritas de outras mulheres negras que viveram situações similares com as delas.

CONCEIÇÃO EVARISTO, ESCRITORA, MESTRE EM LITERATURA E DOUTORA EM LITERATURA COMPARADA.

Evaristo ressalta a ação política no ato de escrever quando afirma que “A nossa escrevivência não pode ser lida como história para ninar os da casa grande e sim para incomodá-los nos seu sono injusto”. Na discussão do seu conto ‘Olhos d’água’, em que a autora relata não lembrar da cor dos olhos de sua mãe porque sempre estavam marejados de lágrimas, uma das participantes falou que também não lembrava da cor dos olhos de sua mãe e disse: “Na última visita eu peguei meu pai e minha mãe e disse: painho, venha cá! E segurei o rosto dele pra olhar a cor dos olhos dele. Depois eu disse: mainha, venha cá! E olhei os olhos dela também”. Em outro conto de Evaristo, chamado ‘Maria’, uma das participantes mais assíduas do Clube do Livro disse que entendia o que a autora quis dizer porque a mãe dela foi também trabalhadora doméstica e trazia as sobras das festas da patroa assim como a personagem ‘Maria’ fez no livro.

Nos primeiros encontros, um dos pontos trazidos pelas participantes era saber o objetivo do Clube do Livro. Explicamos que nossa intenção seria trabalhar a autoestima e o autocuidado por meio da leitura de textos. Trouxemos, dessa forma, o afeto como parâmetro para os nossos encontros, criando um local seguro para que as histórias vividas por essa mulheres pudessem ser trazidas sem culpa em um espaço de liberdade e cuidado.

A cada encontro, depoimentos dolorosos cortavam a leitura do texto. Grande parte das mulheres identificou-se com as linhas desenhadas pelas autoras. Muitas contestavam, estranhavam a perspectiva que estava sendo apresentada; outras, envergonhadas, pareciam não acreditar jamais que alguém, algum dia, pudessem escrever sobre sua realidade. “Olha, mas ela era negra!”, disse uma participante enquanto assistia a um vídeo sobre a vida de Conceição Evaristo.

Outro momento de surpresa foi quando dissemos que Amanda Timóteo e Lídia Lins eram pernambucanas. A cada encontro, surgiam novas mulheres interessadas em saber o que acontecia nos Clubes do Livro. Era incrível ver como a discussão se desenrolava a cada temática que levávamos. Os debates nos fizeram observar também o despertar para uma identidade negra. No decorrer dos encontros, uma das participantes manifestou o desejo de assumir o cabelo crespo, inspirada em uma das integrantes do Liberta Elas e perguntou: “quanto tempo leva pra meu cabelo ficar assim que nem o teu? Quando eu for pra rua eu vou cortar”. Nesse constante exercício de fazer com que as mulheres pudessem olhar para si mesmas, levamos a poesia “Clandestinas” de Amanda Timóteo, autora do zine Buceta Poética. O nome do livro foi o ponto de partida para a discussão sobre liberdade, consentimento, autonomia reprodutiva, prazer e autoestima ao mesmo tempo que relatos de violência e estupros eram constantes em suas narrativas.

Essas narrativas expressam como o encarceramento dessas mulheres é a etapa final da necropolítica praticada pelo Estado brasileiro.

A maioria das mulheres encarceradas são negras, pobres e sem acesso a políticas públicas que não sejam a repressão, a proibição e a punição praticadas pelos operadores do sistema de justiça criminal – policiais militares e civis, juízes, desembargadores e membros do Ministério Público. A demanda da mulher presa é urgente e histórica. Desta forma, mobilizar essas mulheres por meio de contra narrativas que trazem vivências de resistência e luta foi o que o Clube do Livro se propôs a fazer por meio dos textos selecionados.

Fonte: CartaCapital

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