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Lançamentos de duas obras sobre a Biblioteca Nacional marcaram o Dia do Bibliotecário na instituição

A Fundação Biblioteca Nacional lançou no dia 12 de março, em comemoração ao Dia do Bibliotecário, os livros O bibliotecário perfeito: o historiador Ramiz Galvão na Biblioteca Nacional e A Biblioteca Nacional na crônica da cidade, ambos sobre a história da instituição. Em mesa-redonda organizada pelo Centro de Pesquisa e Editoração, os autores Ana Paula Sampaio Caldeira, Iuri Lapa e Lia Jordão falaram sobre suas obras, e a bibliotecária Luciana Grings, coordenadora de Serviços Bibliográficos, fez uma reflexão sobre a instituição e a profissão de bibliotecário.

O bibliotecário perfeito: o historiador Ramiz Galvão na Biblioteca Nacional

O primeiro livro, escrito por Ana Paula Sampaio Caldeira e coeditado com a Editora Universitária da Pontifícia Universidade

12 de março de 2018 – Mesa no Dia do Bibliotecário com Iuri Lapa, Lia Jordão, Marcus Venício Toledo, Ana Paula Caldeira e Luciana Grings.

Católica do Rio Grande do Sul, graças ao Edital de Parceria e Coedições da Biblioteca Nacional, traça uma espécie de perfil daquele que pode ser considerado o mais importante diretor da Biblioteca Nacional no século XIX.

Ramiz Galvão foi um grande bibliotecário. Mais do que isso até, ele foi um articulador, um mediador cultural, da mesma geração de gente importante, como Joaquim Nabuco, Silvio Romero, Euclides da Cunha e tantos outros, tendo tido papel destacado em instituições como o Colégio Pedro II, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Brasileira de Letras e a Biblioteca Nacional, que ele dirigiu de 1870 a 1882”, explicou Ana Paula.

Na Biblioteca Nacional, em particular, para cuja direção foi nomeado aos 24 anos de idade, Benjamim Franklin de Ramiz Galvão estabeleceu uma série de padrões, técnicas e procedimentos biblioteconômicos numa época em que a ciência da organização de acervos não estava plenamente estruturada. Foi durante sua gestão, como lembra a autora, que a Biblioteca Nacional deu passos decisivos rumo a sua modernização: ele reformou o prédio sede da Rua do Passeio e introduziu a iluminação à gás, aprovou um novo estatuto, que incluía as novas seções de imprensa e cartas geográficas e de manuscritos e estampas, promoveu o primeiro concurso público, organizou a monumental Exposição de História do Brasil, deu início à publicação dos Anais da Biblioteca Nacional, a mais antiga e simbólica publicação da instituição, entre outras iniciativas.

De que maneira um estudo centrado nos anos 70 e 80 do século XIX pode nos ajudar a entender a Biblioteca de maneira mais ampla?”, indagou a historiadora. “Eu quero falar sobre a memória desse personagem, o Ramiz Galvão, um homem dedicado aos registros históricos, um nome de peso no Instituto Histórico Brasileiro. No entanto, por mais que tenha sido um historiador importante, entre os historiadores não é um nome muito conhecido. Ramiz era uma figura discreta. A gente esbarra com o nome dele aqui e ali, mas as pessoas não param para entender melhor sua importância e papel”.

A Biblioteca Nacional foi uma espécie de divisor de águas entre o anonimato e o reconhecimento público de Ramiz Galvão. Se essa passagem foi importante para sua biografia, também o foi para a própria Biblioteca Nacional. Ramiz Galvão definiu o que era fundamental para a instituição, tendo transformado a Biblioteca Nacional, por excelência, em um lugar para a construção da memória nacional. As mudanças que ele promoveu colocaram a casa em pé de igualdade com padrões de atuação de instituições similares em plano internacional.

Na República, segundo Ana Paula, o barão de Ramiz Galvão atuou fortemente em projetos ligados à educação – há muitas imagens dele perto de Getúlio Vargas – e teve uma velhice muito atuante. Morreu aos 92 anos, em 1938. Com tanto para contar, a própria Ana Paula indica: “eu precisei fazer um recorte, justamente em torno desse período em que Ramiz esteve à frente da Biblioteca Nacional”.

O interesse de Ana Paula pela trajetória de Ramiz Galvão começou em 2008, quando ela ganhou uma bolsa do Programa de Apoio à Pesquisa da Biblioteca Nacional para desenvolver o projeto “A Biblioteca Nacional nos tempos de Ramiz Galvão (1870-1882)”. Logo depois, a pesquisa prosseguiu com tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em História Política no CPDOC, defendida em 2015 e distinguida com menção honrosa pelo Prêmio Sandra Jathay Pesavento e 2º lugar no Prêmio Manoel Luiz Salgado Guimarães.

A Biblioteca Nacional na crônica da cidade

O livro A Biblioteca Nacional na crônica da cidade é o primeiro de uma série de dois volumes, fruto de anos de trabalho de pesquisa dos historiadores Iuri Lapa e Lia Jordão no acervo da instituição, com destaque para a coleção de periódicos. Durante o processo de preparação da obra, a Hemeroteca Digital se revelou uma grande aliada dos dois pesquisadores, ajudando-os a encontrar uma série de referências e citações sobre a Biblioteca Nacional. Segundo Iuri Lapa, eles tiveram contato com um rico material que não teria sido descoberto sem o uso da poderosa ferramenta de busca da Hemeroteca Digital. A abundância de referências obrigou a equipe a fazer uma espécie de curadoria, selecionando o material mais relevante a partir de milhares de documentos.

O pesquisador explicou também o processo de construção da obra: “nós não seguimos um roteiro linear e não tivemos a pretensão de esgotar o tema. Começamos com a chegada da Biblioteca Nacional ao Brasil no século XIX, e fechamos em torno de 1960, quando ficou decidido que a instituição permaneceria no Rio de Janeiro – a transferência da Biblioteca Nacional para Brasília foi cogitada oficialmente na esteira da mudança da capital”.

Um aspecto que transparece ao longo do livro é a ligação muito próxima da Biblioteca Nacional com a cidade do Rio de Janeiro: “ninguém expôs tão bem a relação entre essa dinâmica da Biblioteca com a cidade quanto Carlos Drummond de Andrade, para quem ‘a Biblioteca é um pouco da alma do Rio’”. Drummond era frequentador assíduo da Biblioteca, e tinha uma mesa praticamente cativa na Divisão de Obras Gerais da casa.

Outro autor destacado na publicação é Rubem Braga, outro importante cronista da cidade, que fez tantos registros interessantes. “Reproduzimos o texto Borboleta Amarela, crônica de Rubem Braga, em que o personagem persegue uma borboleta em torno da Biblioteca Nacional”, explica Lia Jordão.

Os pesquisadores reuniram também textos de Olavo Bilac, que cita um rapaz que lia Júlio Verne nas dependências da Biblioteca; de Lima Barreto, com seu personagem Policarpo Quaresma, leitor dos Anais da Biblioteca Nacional, e com o protagonista do famoso conto O homem que falava javanês, que decide aprender um novo idioma estudando na Biblioteca Nacional. Aliás, Lima Barreto foi um importante crítico do novo prédio da Biblioteca Nacional, inaugurado em 1910. Segundo ele, a imponência da edificação a tornava pouco acolhedora, com certa ‘empáfia’ que, em sua visão, acabaria por afugentar os leitores.

Um aspecto particularmente tocante para os pesquisadores foi o contato com Ferreira Gullar para autorizar o uso de uma de suas crônicas: “tratamos diretamente com ele duas semanas antes de falecer”, relembra Iuri Lapa.

Outro viés da pesquisa realizada por Iuri Lapa e Lia Jordão está relacionada à busca de referências curiosas sobre os leitores da casa e seus hábitos peculiares, reclamações e comentários. Algumas pessoas chegavam ao cúmulo de marcar encontros comerciais na instituição, com mensagens como “Vende-se automóvel, tratar na mesa 80 da Biblioteca Nacional”.

Fechamento

Ao final do encontro, a bibliotecária e coordenadora de Serviços Bibliográficos da BN, Luciana Grings, fez um fechamento em homenagem aos bibliotecários, homenageados do dia. Aproveitando as discussões em torno de Ramiz Galvão, Luciana saudou sua atuação pioneira para a formação de instituições de memória no Brasil, nem sempre devidamente valorizadas: “mesmo sem saber, ele era um intelectual pleiteando o reconhecimento do patrimônio – do patrimônio intelectual, do patrimônio bibliográfico, enfim, do patrimônio nacional”.

12 de março de 2018 – Lia Jordão e Iuri Lapa autografam sua obra ‘A Biblioteca Nacional na crônica da cidade’ nos jardins da Biblioteca Nacional.

Fonte: Biblioteca Nacional

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