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Jornalista pergunta se há livrarias na Nigéria e gera debate sobre colonialismo

Jornalista pergunta se há livrarias na Nigéria e gera debate sobre colonialismo

Questionamento irritou Chimamanda Ngozi Adichie, que denunciou falta de conhecimento que o mundo tem sobre a África

Jazzhole é a livraria favorita da autora Chimamanda Ngozi Adichie | Foto: Facebook / Reprodução / CP

“Existem livrarias na Nigéria?”. A pergunta feita por uma jornalista francesa na semana passada, irritou a romancista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Em um evento realizado em um elegante edifício do governo de Paris sob candelabros de cristal, a escritora denunciou “a arrogância francesa percebida” e falta de conhecimento que o mundo tem sobre a África. “Eu acho que reflete muito mal nos franceses que você precise me fazer essa pergunta. Meus livros são lidos na Nigéria. Eles são estudados nas escolas. Não apenas lá, em todo o continente africano”, disse a autora de 40 anos.

A indignação posterior nas redes sociais talvez fosse previsível: insultos lançados contra a repórter em meio a acusações de racismo e preconceitos coloniais. Chimamanda, que hoje vive nos Estados Unidos, fez uma publicação no Facebook argumentando que a questão da livraria servia apenas para “dar legitimidade a uma ignorância deliberada, intitulada, cansativa e abrangente sobre a África”.

Mas nem todos concordam completamente. “Você não pode dizer que não há livrarias ou bibliotecas na Nigéria, isso é ridículo”, comenta a Tabia Princewill, colunista do jornal local The Vanguard. “Mas elas não são muitas, e muitas vezes são livros religiosos ou livros educacionais. Nas bibliotecas públicas, quase não há livros. É vergonhoso e não é ser anti-africano admitir isso. A elite africana não quer enfrentar a realidade”, completa.

O debate da livraria é tão polarizante porque não se trata apenas de acesso a livros, mas também sobre o sistema de educação problemático do país. À medida que a população da maior economia da África Ocidental explode, o governo está lutando para educar seus 190 milhões de habitantes. A Nigéria tem uma taxa de alfabetização de 60%, uma das mais baixas entre os mercados fronteiriços, de acordo com a empresa de banca de investimentos Renaissance Capital em uma nota lançada nesta terça. Existem grandes discrepâncias regionais no país, com o sul com taxas de alfabetização muito maiores do que o norte, mas a qualidade dos professores e a participação dos estudantes são problemas perenes.

Em sua publicação no Facebook, Chimamanda reconheceu o efeito devastador da insurgência jihadista de Boko Haram em livrarias no nordeste. Ela disse que seu tio possuía uma loja em Maiduguri, capital do nordeste do estado de Borno e local de nascimento de Boko Haram, mas teve que fechar quando a cidade começou a se sentir “muito insegura”. Enquanto o norte se esforça para combater a ideologia fundamentalista dos jihadistas, cujo nome se traduz em “educação ocidental é proibida”, o sul tem seus próprios problemas. As livrarias da vizinhança em Lagos, capital comercial do país com 20 milhões de habitantes, têm que lidar com eletricidade irregular, mofo subsequente e um mercado inundado de livros pirateados.

Ainda assim, alguns encontram um caminho. Kayode Odumosu sempre amou livros e aos 11 anos, começou a trabalhar na biblioteca da escola. Em 1993, abriu o “Lagos Book Club” em Festac, um pequeno bairro de classe média na capital. Os seus 3 mil livros de segunda mão são empilhados firmemente um ao lado do outro em longas prateleiras de metal. “Eu vendo Shakespeare e todas as novelas de Chimamanda”, diz com orgulho. Constantemente em Jazzhole – a livraria que Chimamanda descreve como “a sua favorita em Lagos” – não há luz. Mas há biografias do rei Afrobeat, Fela Kuti, ao lado de livros sobre Teerã e Veneza.

O dono, Kunle Tejuoso, assumiu o negócio familiar em 1975. “Bem antes do nascimento de Chimamanda”, brinca. A controvérsia da livraria não o incomoda muito. “Eu estou acostumado com isso”, disse pragmaticamente. “Quando os ocidentais vêm à minha loja, eles sempre têm um pequeno choque”. Para todos os problemas da Nigéria, os livros são parte integrante da sua cultura. “A cena literária está explodindo na Nigéria, temos muitos escritores novos que fazem os jovens quererem ler. Nosso maior desafio é a internet. No passado, os jovens não eram tão facilmente distraídos”, acrescentou Tejuoso, articulando um problema que tem se mostrado global.

Fonte: Correio do Povo

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