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Jean-Claude Alphen: livros ajudam a criança empreender a sua jornada particular pela vida

Jean-Claude Alphen: “livros para a infância podem ser literatura com um grande L!”

O entrevistado de hoje, Jean-Claude Alphen, já ilustrou mais de 100 livros e é autor de 30. Ele é brasileiro, carioca, mas foi criado na França, onde viveu até os 11 anos de idade. Voltou para o Brasil, formou-se em Publicidade e Marketing pela ESPM e também em Artes Plásticas na FAAP, trabalhou como ilustrador no Marco Zero e no Jornal da Tarde até se tornar ilustrador de literatura infantil, primeiro, dos principais autores brasileiros e mais tarde de seus próprios livros infantis. Atualmente, ele está no Canadá, preparando o lançamento de quatro de seus livros e onde vai trabalhar para as editoras locais em 2020. De imediato, lança a versão canadense de “Adélie”, um dos seus livros preferidos, pela Editora D’eux. Jean-Claude foi laureado por nove vezes, como autor, com o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil.  Recebeu também o prêmio da Revista Crescer, o Prêmio literário Glória Pondé da Fundação Biblioteca Nacional e foi por cinco vezes o finalista do Prêmio Jabuti e vencedor em 2017 com “Adélia”..

Página de “Pinóquia”, livro do PNLD literário (Programa Nacional do Livro e Material Didático), escrito e ilustrado por Jean-Claude, lançamento da Melhoramentos Editora

 

Rosa Maria: Desde quando escreve e ilustra livros de literatura infantil?

Jean-Claude: Ilustro há 30 anos e escrevo há mais de 15. Mas publicar mesmo meus próprios livros para a infância só mesmo a partir de 2007.

 

RM: Como a literatura infantil entrou na sua vida?

JC: Eu comecei a ilustrar livros escolares e via que era bem legal ilustrar livros de literatura. Era o caminho natural. Ilustrei mais de 100 livros de todos os autores… Quase todos. E pensei que poderia também me arriscar como autor.

 

RM: Comente um pouco sobre a sua formação em literatura infantil.

JC: Sou autodidata. Nunca fiz curso de desenho nem de escrita. Gosto de pensar (mesmo que possa estar errado), que isso não me engessou. Eu ilustrava mãos de quatro dedos e me corrigiam nas editoras de livros didáticos. Isso faz um bom tempo. Aprendi muito com isso, mas também me engessou no meu traço. Hoje, faço mãos com 3, 4 dedos e ninguém percebe. O que vale mesmo é a narrativa visual casada com o texto. O resto é secundário.

 

RM: Vamos falar de números? Quantos livros já escreveu? Quantos livros já ilustrou? Quantos personagens já criou e quais são eles?

JC: Já ilustrei mais de 100 e escrevi 30 livros. Não dá pra falar de todos eles, mas gosto muito do “Otávio não é um porco-espinho” e de “Adélia”. São meus preferidos. Mas todos são meus filhos e gosto de cada um deles do jeito que são.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RM: Quais são seus livros só de imagem e como analisa esse tipo de obra para crianças?

JC: Tenho alguns. É muito complicado publicar livros assim no Brasil. Normalmente naufragam. Tem que ter texto pra dar certo. Fiz um livro chamado “Escondida”, Edições SM, do qual gosto muito. Os animais estão na mira da extinção agora e era minha homenagem ao risco que correm. Fiz girafas, elefantes, guepardos… etc. Mas estão todos desenhados de forma acadêmica, bem realistas. E é um livro-imagem do qual me orgulho muito.

RM: Sua obra tem algum alinhamento político ou filosófico?

JC: Tem. Sou defensor ferrenho da ecologia e dos animais. Ilustro o que posso de natureza e de bichos. Se isso faltar, não estaremos mais num planeta habitável. Gosto também de abordar temas de psicologia nos meus livros. Tudo baseado na necessidade da criança empreender a sua jornada particular pela vida. Gosto de abordar, sobretudo, a questão da identidade, da fabricação da identidade na criança que vai influenciar e moldar o futuro adulto que ela será. Gosto de tocar no assunto da transformação, dessa metamorfose de criança em algo a mais. Não acredito que a criança suma. Num livro meu antigo eu dizia “adultos são crianças que cresceram pra cima…”e que muitos fazem de conta que não são mais crianças.”

 

Página do livro “Talvez eu seja um elefante”, Editora Melhoramentos

RM: Como tem sido o seu “diálogo” com as crianças?

JC: Vou para as escolas não tantas vezes como eu deveria, porque isso na verdade tem que ser feito a conta-gotas. Mas adoro ter este contato direto. Me transformo em um deles. Mas claro que tenho minha responsabilidade de autor adulto. Que sou. A criançada é toda igual: crianças de favelas ou dos bairros mais privilegiados. Depois, aí não é mais minha faixa etária. Trabalho livros para crianças até no máximo 10 anos. Já vi fotos de turmas de crianças de 10 anos que já se formaram e que disseram que lembram até hoje do dia em que fui à escola delas. Então, deve ter sido bom pra elas também, né?

 

RM: Certamente foi muito bom para elas, sim, Jean.  Como avalia o progresso da literatura infantil no Brasil?

JC: Não me sinto apto para avaliar o trabalho de outros colegas. Isso quem tem que fazer são os críticos.

 

RM: Quais são seus planos para 2019?

JC: Em 2019, estou meio que partindo pra um voo mais longe. Estou trabalhando para o Canadá. Vou ilustrar livros para uma editora de lá. E vendi livros da minha autoria também. Aqui está complicado publicar mais. O mercado está ruim e temo pelo futuro dos livros para a infância. Temo que possamos perder a liberdade essencial de falar, de expressar com liberdade o que queremos que as crianças leiam. Por isso, acho bom começar a publicar fora também. É uma consequência natural tentar ser reconhecido também fora do seu país. Obrigado pela oportunidade de falar com quem se interessa por literatura. Porque livros para a infância podem ser literatura com um grande L!

Coleção Salamandra assinada e ilustrada por Jean-Claude com a série “A outra história de” e outros livros de sua autoria

Fonte: Portal UAI

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