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Internet das Coisas na medicina já atua no combate à covid-19 no Brasil

Parceria entre Hospital das Clínicas de SP e Carenet otimiza trabalho de profissionais da saúde com dados em tempo real e análise preditiva

Texto por Carla Matsu

Foto: Adobe Stock

A Internet das Coisas tem sido apontada como a grande protagonista que habilitará a Quarta Revolução Industrial mundo afora. Dispositivos no chão de fábrica alimentados com sensores e combinados à tecnologias como Inteligência Artificial já permitem o tipo de conhecimento e previsibilidade que aumentam a eficiência e mitigam erros. Na saúde, a Internet das Coisas Médicas, entretanto, ganha outra dimensão mais sensível: a própria vida humana.

Munidos de conectividade e inteligência, os dispositivos em hospitais à beira dos leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) conseguem entregar a médicos e enfermeiros dados em tempo real para personalizar tratamentos e apoiar tomadas de decisão. Leve essa habilidade para um dos momentos mais críticos da saúde pública na história – a pandemia do novo coronavírus – e esta equação terá o potencial de melhorar não só o dia a dia nos corredores hospitalares, como aumentar as chances de recuperação de pacientes com covid-19.

Um dos casos de uso da Internet das Coisas Médica que tem se mostrado bem-sucedido no Brasil é uma parceria recente firmada entre a divisão de UTI Respiratória do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), o NETi – Núcleo Especializado em Tecnologia da Informação – HC e a healh tech Carenet. A colaboração, que se iniciou há cerca de dois meses, utiliza da plataforma Orchestra, solução de integração da Carenet, para automatizar certas atividades em UTIs.

Na prática, o software da Carenet consegue integrar sistemas de gestão de prontuários eletrônicos e equipamentos médicos. No caso do Hospital das Clínicas, a Orchestra integra dados do ventilador artificial, o tomógrafo de impedância elétrica (que monitora o pulmão de pacientes) e o monitor multiparamétrico (que colhe dados como atividade respiratória, batimentos cardíacos e saturação de oxigênio). Esses dados, então, são disponibilizados em um dashboard digital de forma automática por dispositivos móveis para as equipes de intensivistas. Este processo, segundo Fernando Paiva, VP de Customer Success & Digital Sales Transformation da Carenet, consegue otimizar aquilo que é burocrático e manual. “Com isso, o profissional consegue fazer um trabalho verdadeiramente assistencial ao paciente”, diz Paiva.

Esta tarefa manual de informar dados em um prontuário consome, segundo a healhtech, cerca de 33% do turno de um enfermeiro. Ao mesmo tempo, ao automatizar essa responsabilidade, consegue-se tirar da equação a possibilidade do erro humano. Essa operação manual, diz Paiva, tem uma margem de 20% a 30% de erro humano.

Uma operação de guerra

Principal centro de referência no estado para o tratamento da covid-19, o Hospital das Clínicas de São Paulo dedicou uma área exclusiva para casos da covid-19. Concentrando cerca de 800 leitos transferidos de todas as partes do Hospital das Clínicas, a chamada “Área Covid”, orientada pelos professores Carlos Carvalho e Rogério de Souza, está dedicada a pacientes graves. Dos leitos dedicados, 300 deles estão em terapia intensiva (UTI).

A operação de maior complexidade da história do hospital reflete uma realidade dramática no estado que concentra o maior número de casos diagnosticados com a doença no Brasil. Segundo dados da Secretaria do Estado de São Paulo de sexta-feira (26), o Estado de São Paulo registrou 258.508 casos do novo coronavírus e um total de 13.966 óbitos.

Com a solução Orchestra, médicos e enfermeiros podem acompanhar a evolução de seus pacientes à distância, e com isso diminui-se a demanda presencial de especialistas nas áreas de isolamento da covid. “Isso é importante, pois reduz as chances de contaminação. Quanto menos pessoas circulando dentro da área, melhor”, explica Cleidson Cavalcante, Mestre em Engenharia e Gestão do Conhecimento e Pesquisador de Telemedicina, TI e Biossensores do Laboratório de Pneumologia LIM/09, que integra a Divisão de Pneumologia – InCor/ HC FMUSP.

Além de otimizar o tempo, ao acompanhar a partir do smartphone dados em tempo real dos pacientes, contribui-se com a saúde daqueles que estão na linha de frente do combate à doença. “Um dos grupos mais atingidos pela doença é o de profissionais da saúde e as lideranças médicas. A partir do momento que são infectados, perdemos força de trabalho especializada e não podemos perder isso”, diz o pesquisador.

Cavalcante lembra que nos cuidados intensivos, o manejo individualizado da conduta ventilatória assim como outros protocolos podem reduzir a taxa de mortalidade dos pacientes. No Hospital das Clínicas de São Paulo, a taxa de mortalidade nos leitos dedicados aos casos graves de covid – universo de 300 leitos de UTI – a taxa de mortalidade está em torno de 40%, enquanto a nacional está em 65%, segundo dados fornecidos pela Epimed e atualizados no último dia 20 de junho. A Epimed Solutions é uma empresa especializada em soluções para gestão de informações clínicas e epidemiológicas e sua ferramenta Epimed Monitor UTI oferece análise de dados e desempenho hospitalar.

Trata-se na avaliação dos especialistas de uma relativa baixa taxa de mortalidade. Em grande medida, a baixa mortalidade relativa alcançada pelo HC deve-se ao ajuste de suporte ventilatório individualizado por paciente. A covid-19 tem notoriamente evidenciado que cada pessoa apresenta uma resposta particular à doença e, portanto, à terapia. E é neste contexto que, novamente, a tecnologia tem se mostrado trunfo para a operação nas UTIs. “A aplicação de condutas ventilatórias individualizadas só é possível quando há acesso on-line a dados multimodais e, ao mesmo tempo, um intensivista experiente para interpretar tais dados e o ajustar condutas”, acrescenta o pesquisador.

Covid-19 cobrou digitalização e agilidade na saúde

A covid-19 tem sido encarada por muitas lideranças nas organizações como o fator que acelerou projetos de transformação digital. Na saúde, suas cobranças definem um novo divisor de águas. “A covid-19 deu um novo sentido de tempo para nós. Coisa que nós faríamos em um ano, nós tivemos de fazer em um mês”, diz Cavalcante.

Segundo o pesquisador, em um outro projeto, o TeleUTI – coordenado pelo professor Carlos Carvalho, uma parceria entre o InCor-HC FMUSP e a SES/SP, antes planejado para o médio prazo, a TeleUTI teve sua implantação antecipada para um intervalo de aproximado de 30 dias devido à covid-19.

Uma vez que o Hospital das Clínicas é uma das principais referências no tratamento da covid-19, essa operação se mostrou ainda mais sensível no sentido de apoiar à distância UTIs de outros hospitais de São Paulo. Esta nova logística tem contribuído para uma conduta de tratamento personalizado às características do paciente, como também para mitigar possíveis congestionamentos de demanda e sobrecarga. “Outras instituições hospitalares, mesmo possuindo infraestrutura e recursos humanos qualificados, eventualmente não tiveram o mesmo tempo hábil de adequar seus protocolos de UTI às peculiaridades da covid-19. Nestes casos, poderíamos ter tido um extravasamento de demanda direcionado para o HC e, por sua vez, um caos em termos no gerenciamento da crise ”, explica Cavalcante. “A covid não foi só um catalisador circunstancial, como no caso do Hospital das Clínicas. Todas as instituições tiveram de correr atrás de aspectos pouco priorizados até então, inclusive interoperabilidade”, complementa.

Mas para além do avanço da digitalização dos hospitais, a covid-19 deixará uma mudança no comportamento das pessoas e na forma como a medicina, de forma, geral é encarada. Para Cavalcante, haverá aqui um legado importante. “As pessoas estão percebendo que o celular delas é muito mais que um meio de comunicação e entretenimento. Os dispositivos móveis, sejam smartphone ou relógios inteligentes, que conseguem medir alguns dos sinais vitais, têm agora um nivelamento de aculturação que não tínhamos há cinco meses e para indivíduos de qualquer posição social”, reflete.

A parceria da Carenet com o Hospital das Clínicas também contribui como infraestrutura de Pesquisa & Desenvolvimento do LIM/09. O objetivo, a médio prazo, diz Cavalcante, é que parcerias como a Carenet endossem endossem um cenário posterior à pandemia e que influenciará nos tratamentos a outras possíveis doenças respiratórias. “A ideia é convergir todo esse conhecimento em infraestrutura para um cenário pós-covid”, diz o pesquisador.

Fernando Paiva, da Carenet, lembra que a interoperabilidade dos dados na área médica é um ponto crucial para o avanço da medicina e o que se entende por Internet das Coisas Médica. A parceria com o Hospital das Clínicas também entregará à health tech um conhecimento precioso para atualizar a própria plataforma e entregar mais valor para aqueles que a utilizam. “Conversamos sobre desenvolver novos recursos de evolução da plataforma com análises preditivas muito mais sensíveis”, adianta o executivo sobre conversas conduzidas com a equipe da divisão de pneumologia do Hospital das Clínicas.

Fonte: Computerworld

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