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Gestão em bibliotecas públicas no contexto híbrido: um estudo comparativo de bibliotecas híbridas no âmbito nacional e internacional em prol do desenvolvimento de comunidades

Texto por Rafaela Carolina da Silva*

A sociedade atual demanda uma postura proativa dos indivíduos para a busca constante por informações. Tal ação é requerida diante de suportes tecnológicos diferenciados que permeiam o contexto social, bem como o incessante interesse em buscar respostas para os seus anseios. Nesse contexto, a biblioteca pública pode propiciar ambientes de estímulo informacional, repercutindo no aspecto de tornar os indivíduos críticos e auxiliando-os no exercício da cidadania e da inclusão socioeducativa.

O termo híbrido tem suas origens na Teoria da Evolução de Darwin e designa-se como um novo modo de descrever tipos de serviços que buscam integrar fontes tradicionais e eletrônicas de informação. O valor de uma informação se dá pelas necessidades de uso, portanto é um bem comum, que deve atuar como fator de inclusão social e como propulsora da cidadania, por meio de sua disponibilização às diferentes camadas sociais. Logo, os espaços híbridos contextualizam processos de crescimento e de desenvolvimento da esfera pública, por meio da promoção da informação. Propiciam que os indivíduos aprendam de modo significativo, colaborando com o meio em que vivem.

A hipótese levantada por este estudo foi a de que as bibliotecas públicas ainda não consideradas híbridas poderiam se transformar em espaços híbridos, a fim de realizar a inclusão das comunidades no que tange às suas necessidades informacionais, com ambientes de destaque para o crescimento e desenvolvimento local. Nesse sentido, a premissa foi de que o trabalho de uma biblioteca rumo à construção da cidadania deve considerar os diferentes tipos de usuários e suas necessidades informacionais.

Diante disso, a pesquisa procurou verificar o potencial que as bibliotecas híbridas oferecem à sociedade, estabelecendo um elo entre ambientes híbridos, gestão informacional e o processo de desenvolvimento das comunidades em bibliotecas públicas. Entendeu-se, portanto, que a biblioteca pública tem um impacto direto na gestão das comunidades, proporcionando a construção da cidadania, tanto para a ordem social quanto para a tecnologia e para a economia.

O objetivo do estudo foi verificar como as bibliotecas híbridas, por meio de ações públicas, tecnologias e estruturas organizacionais, poderiam oferecer estratégias de desenvolvimento nas comunidades nas quais estão inseridas. De modo mais específico, buscou-se delinear um panorama acerca dos conceitos das bibliotecas híbridas consolidadas no cenário nacional e internacional; identificar e caracterizar as bibliotecas híbridas de referência; analisar, por meio de indicadores de impacto, a ação da biblioteca híbrida perante a comunidade; elaborar categorias para as quais existem mudanças no ambiente informacional; e oferecer subsídios para a elaboração de projetos para hibridez nas bibliotecas públicas.

Na metodologia, optou-se por uma abordagem qualitativa, do tipo descritiva e exploratória. A Análise de Conteúdo caracterizou-se como um recurso metodológico, utilizado para levantar os indicadores de impacto que nortearam os aspectos a serem comparados no Estudo de Casos Múltiplos das bibliotecas públicas híbridas abarcadas no estudo. Os indicadores destacados foram: grupos de trabalho, abordagem sociocultural, treinamento de usuários, softwares inovativos, informação via eletrônica e acesso remoto.

No cenário internacional, percebeu-se que os casos existentes se faziam presentes, em sua maior concentração, no Reino Unido, mais especificamente, em países como Escócia e Inglaterra. Assim, ocorreu a escolha para a coleta de dados nessa região, local onde a pesquisadora se fez presente, através de um estágio no exterior.

A coleta de dados ocorreu com a observação participativa e com a aplicação de questionários e de entrevistas aos gestores das bibliotecas. Procurou-se entender como eram tratados aspectos acerca da capacitação de funcionários, da inclusão social, da conjectura entre tecnologias, da estrutura física, do desenvolvimento de comunidades e da capacitação de usuários nos ambientes híbridos.

Em âmbito nacional, destacaram-se, no levantamento dos dados, as seguintes bibliotecas públicas brasileiras, ditas híbridas: Biblioteca de São Paulo (BSP); Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL); Biblioteca Híbrida Especializada em Gestão Social (BHEGS), do Centro Interdisciplinar em Gestão Social (CIAGS) da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Biblioteca Nacional de Brasília (BNB); e Biblioteca Central da Universidade Nacional de Brasília (BCE). No cenário internacional, as bibliotecas públicas híbridas de destaque, incluindo bibliotecas do tipo pública, mas, universitárias, foram: biblioteca da Robert Gordon University; biblioteca da University of Aberdeen; biblioteca da University of Edinburgh; Central Library of Dundee biblioteca da Liverpool Hope University; Central Library of Liverpool; e Central Library of Aberdeen.

Como resultado, percebeu-se que tanto no cenário nacional quanto internacional destacou-se o índice da abordagem sociocultural. Entretanto, no cenário nacional, sua ação é limitada, com poucos programas e projetos para esse indicador.

As bibliotecas públicas híbridas de São Paulo entendem que a hibridez consiste em tornar o ambiente da biblioteca um espaço vivo, no qual o usuário é o protagonista dentro da instituição, não só através do acesso à informação em diferentes suportes e mídias, como também pela convivência e interação social. No Distrito Federal, o conceito está mais ligado à convergência de tecnologias.

De maneira geral, no Reino Unido, as bibliotecas públicas híbridas utilizam as TIC como ferramentas estratégicas para propiciar a cidadania do indivíduo, ou seja, para promover formas igualitárias de acesso à informação, respeitando as fases da vida das pessoas e suas diferenças sociais. Busca-se, assim, que a biblioteca se torne um espaço de entretenimento, comunicação, interação social, estudo, pesquisa e extensão.

Por meio de planos de desenvolvimento de atividades, as bibliotecas britânicas trabalham em conjunto com os objetivos primários da instituição, atentando-se a profissionais e pesquisadores e trabalhando em conjunto com outras bibliotecas e organizações, a fim de promover uma rede de informação que lide com situações complexas, prioridades e principais ações a serem desenvolvidas pela instituição. Dessa maneira, elas criam oportunidades para abordar as desigualdades significativas na sociedade, propiciando uma educação melhor e, consequentemente, contribuindo para que seus usuários sejam direcionados a uma gama de oportunidades futuras de emprego.

Comparando a literatura das bibliotecas híbridas britânicas com a literatura das bibliotecas híbridas brasileiras, é possível perceber que, no que se refere aos produtos e serviços, os pesquisadores das bibliotecas brasileiras buscam promover bibliotecas on-line, mapotecas, galerias de fotos, atividades extensas, projetos de rádio social, projetos de utilidade pública, salas de imprensa, pesquisa e investigação. Além disso, na prática, essas bibliotecas desenvolvem atividades como contação de histórias, jogos sensoriais, jogos que incentivam a criatividade, iniciação e estimulação do poder cognitivo, clube de leitura, jogos de tabuleiro, troca mensal com escritores convidados e acesso à leitura para pessoas com baixa mobilidade, dificuldades de visão e/ou audição. Em relação aos seus processos de atuação, tais bibliotecas promovem a recomendação de publicações, ensino, pesquisa e extensão, suporte à gestão, diretrizes gerais de busca da informação, inclusão digital, acessibilidade, visitas guiadas, sugestão ao público de autores, livros e assuntos, construção coletiva, alfabetização, debate de questões cotidianas, interação com usuários, encorajamento à pesquisa e promoção do gosto pela leitura.

As bibliotecas britânicas trabalham com centros para coleções de pesquisa, espaços de estudo, galerias, exposições, auxílio on-line ou via telefone, coleções on-line, coleções impressas, serviços digitais e impressos, acesso a revistas on-line, rede sem fio, fotocópia, impressão e digitalização. Elas mantêm o sistema atualizado com e-publicações, recursos disponíveis para qualquer tipo de deficiência física e/ou mental, acesso remoto, materiais especiais, acordos entre bibliotecas e organizações, acesso aberto a bases de dados, oficinas para identificar os temas-chave a serem explorados, análise das competências de seus funcionários, além de promoverem eventos, como contação de histórias e jogos sensoriais. Na prática, essas bibliotecas também desenvolvem soluções para necessidades de aprendizagem, avaliação da viabilidade potencial da instituição, desenvolvimento pessoal, desenvolvimento de carreira, educação continuada, trabalho voluntário, ensino à distância e cidadania digital, introduzindo o conceito de web dentro da biblioteca.

Importante destacar que ambos conceitos de bibliotecas híbridas trabalham para a interação entre a natureza da coleção, as aquisições, o acesso aberto e a informação compartilhada, oferecendo suporte à informação, inclusão social, infraestrutura, acessibilidade e uma grande arquitetura de informação. Decorrente desses resultados, as diretrizes para o desenvolvimento de bibliotecas híbridas elaboradas pela autora foram compostas pelos seguintes elementos: Diretriz 1 – Diagnóstico: levantamento arquitetônico; estudo de necessidades; medição da satisfação dos usuários; análise da capacidade e flexibilidade do edifício; análise da organização técnica e automação da coleção; condições ambientais; Diretriz 2 – Análise e Concepção do Plano de Melhoria: seleção e aplicação de normas internacionais para bibliotecas públicas e/ou universitárias; seleção e aplicação das normas de construção civil e proteção ambiental; modelamento da arquitetura e do projeto da biblioteca em software específico para esta finalidade; Diretriz 3 – Encontro Interdisciplinar: profissionais convergentes, como arquitetos, designers, bibliotecários, engenheiros, designers de interiores, pedagogos, professores, assistentes sociais; quadros regulamentares; padrões e indicadores; distribuição de espaços; design da biblioteca; Diretriz 4 – Desenvolvimento da Identidade da Biblioteca: tabela de capacidades (recursos físicos, financeiros, humanos e cognitivos); Diretriz 5 – Seleção de Móveis, Equipamentos e Tecnologia: salas de leitura formal e informal; salas de estudo particulares e coletivas; prateleiras; mesas e cadeiras; lousas; controle de acesso; reprografia; segurança; sinalização; serviços complementares; automação hipertextual; acervo digital; software de automação de bibliotecas; audiolivros; tablets; livros digitais; código de barras; Diretriz 6 – Implementação e Ajuste de Serviços: restauração e limpeza da coleção; embalagem e armazenamento temporário da coleção; desmontagem de prateleiras; reabilitação de espaços; montagem e configuração do novo mobiliário; instalação e configuração de equipamentos e novas tecnologias; instalação de instrumentos de sinalização.

A pesquisa concluiu que algumas semelhanças entre as bibliotecas do Reino Unido e as do Brasil estão intimamente ligadas à proposta de que o papel das bibliotecas híbridas é mover ações para criar oportunidades de leitura e escrita para todos os grupos de sua população de usuários. No entanto, a grande diferença está no fato de as primeiras possuírem uma forte base teórica na literatura para o desenvolvimento de suas práticas, o que reflete nas múltiplas ações que concretizam o sentido do hibridismo nessas instituições, em contrapartida com o cenário brasileiro.

*Doutoranda e Mestra em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Unesp Marília, na linha de Pesquisa Gestão, Mediação e Uso da Informação. Bolsista FAPESP. Foi bolsista CAPES. Membro do Grupo de Pesquisa Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional (ICIO). Fez estágio de pesquisa na Robert Gordon University, Escócia, Reino Unido (Setembro a Dezembro de 2016). Especialista em Psicopedagogia Institucional pela FUNDEPE, Marília/SP. Graduada em Biblioteconomia, onde também foi bolsista FAPESP. Atualmente dedica-se à pesquisa científica, trabalhando principalmente na interdisciplinaridade dos temas: Bibliotecas híbridas; Conceito de hibridez em bibliotecas; Desenvolvimento social; Gestão da informação; e Desenvolvimento de comunidades.

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