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Exposição propõe uma viagem pela história da litografia

Em cartaz até 28 de fevereiro, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, reúne itens raros e obras contemporâneas

Texto por Claudia Costa

Exposição traz 16 itens raros em vitrines nas laterais e 40 trabalhos inéditos da artista luso-brasileira São Queiroz – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens.

Primeira de uma série de exposições que serão realizadas no Complexo Brasiliana – que envolve os acervos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) e do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP –, São Queiroz: Litografia e Enigma apresenta um diálogo entre os muitos álbuns e livros de viajantes produzidos no século 19 com o trabalho da artista contemporânea Conceição Queiroz, que têm em comum a litografia. “A ideia é extroverter esses acervos e, uma das formas, mais interessante e provocativa, é chamar artistas contemporâneos, que não circulam no ambiente acadêmico, para dialogar com as obras históricas”, afirma Luiz Armando Bagolin, filósofo, docente e pesquisador do IEB, que também assina a curadoria da mostra.

Na técnica da litografia, a pedra calcária recebe desenho e tratamento químico originando uma matriz de onde podem sair centenas de exemplares – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo o professor, no século 19, por uma série de fatores, mas principalmente pelo fator econômico, a litografia se tornou a principal técnica de impressão e disseminação de imagens. E ainda hoje continua fazendo história, como no curso de Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, onde os alunos aprendem a técnica. Ou no caso da artista convidada, a portuguesa Conceição Queiroz – que se nomeia São Queiroz –, que utiliza a litografia no próprio trabalho. “Ela não se baseou em nenhuma das obras selecionadas, seu trabalho tem autonomia”, informa o professor. “E era isso que queríamos, trazer um olhar contemporâneo sobre a litografia e confrontar com o uso histórico que foi feito dessa mesma técnica nesses álbuns desses artistas viajantes”, acrescenta.

Esse confronto permite resgatar aquilo que foi produzido no passado, que é guardado para estudo e pesquisa, e conhecer o que está sendo realizado hoje.” Bagolin, que foi diretor da Biblioteca Mário de Andrade, informa que, em geral, a arte só entra no acervo da Universidade quando é passado, quando se transforma em item raro e de coleção. “Nós não acolhemos o que se produz hoje porque ainda não se transformou em história. Essa exposição e as que virão em breve têm a intenção de expor os acervos, e também de acolher a arte contemporânea para que a Universidade se atualize e se abra para o que está sendo feito aí fora”, afirma.

Ilha dos Amores, trecho de Os Lusíadas, de Camões, com litografias aquareladas à mão por Cícero Dias – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Poema de Carlos Drummond de Andrade, com litografia de Enrico Bianco, discípulo de Portinari – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ontem e hoje

No total são 16 itens históricos do acervo da BBM e 40 litografias e monotipias inéditas da artista São Queiroz. A exposição traz álbuns de viagem, com vários exemplos de como a litografia foi utilizada no século 19, incluindo álbuns científicos, de viagem, de memória, além de crônicas, e as obras contemporâneas com a mesma técnica de uma artista também viajante, reunindo suas impressões, esboços, anotações e fotografias de viagens que fez pelo mundo. Os objetos raros estão dispostos em vitrines nas laterais. No meio do espaço estão as obras contemporâneas suspensas.

Professor e curador da mostra Luiz Armando Bagolin: “Primeira de uma série de exposições que vão promover o diálogo entre itens raros e obras contemporâneas” – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O layout da exposição, como conta o curador, também foi desenhado a partir de duas ideias: primeiro, é como se a história abraçasse o presente; e segundo, acompanha o projeto do próprio prédio – assinado por Eduardo Almeida e Rodrigo Mindlin – em que tudo é aparente. “A exposição segue o mesmo princípio, com as molduras transparentes, onde se vê a montagem, os parafusos, a frente e as costas dos trabalhos, com os borrões que se formam quando a oxidação da tinta passa pelas fibras do papel”, explica.

Para a mostra, foram selecionados livros raros e álbuns, como o Journal of a Voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823 (1824) de Maria Graham, preceptora dos filhos de D. Pedro I; Views in South America, from original drawings made in Brazil, the river Plate, the Paraná, & c., de William Gore Ouseley; o Reise in Brasilien (1823 a 1831), de Johan B. Spix e Carl F.P. Von Martius; e destes mesmos autores, o incrível Flora Brasiliensis (1840 e 1906), obra que, em sua íntegra, possui 40 volumes e 6.246 litografias. “A flora mais completa que existe no mundo e que demorou mais tempo para ser catalogada”, ressalta o professor.

Journal of a Voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823 (1824), de Maria Graham, preceptora dos filhos de D. Pedro I – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A exposição conta ainda com exemplares de importantes trabalhos de poetas brasileiros, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, ilustrados com litografias. Destaque para 6 Cantos do Paraíso, com tradução de Haroldo de Campos e litografias de João Câmara, referência na arte brasileira do século 20.  Destaque também para um trecho de Os Lusíadas, de Camões, com litografias de Cícero Dias aquareladas à mão. “Uma preciosidade”, como define o professor.

Jornal A Caricatura que traz sátira política ao mostrar militares dentro de uma pera podre – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A exposição também traz parte do processo de confecção de uma litografia em vídeos de cerca de três minutos em looping, com a artista trabalhando em seu próprio ateliê, além de seu depoimento – há outro filme com o processo de montagem da mostra. Além disso, em uma vitrine estão os materiais utilizados na litografia, como a tinta, a pedra, rolos de impressão e equipamentos de desenho, e uma outra com cadernos e esboços da artista.

É preciso um olhar cuidadoso e demorado para perceber as relações entre as obras. “Há relações por forma, por cor e por texturas”, informa Bagolin, citando um jornal de caricaturas, com sátiras políticas em que muitas ilustrações foram feitas com litografias. “Uma delas traz os militares dentro de uma pera podre; na frente da vitrine, na obra da artista São Queiroz, se vê uma estrutura como a da pera cortada ao meio e, nas costas do trabalho, o aspecto de tinta escorrida dá o ar de sujo, podre”, relaciona o curador.

Vídeo em looping mostra a artista trabalhando em seu ateliê, além do seu depoimento – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ainda cita outra obra: La Place, com a figura de um mar revoltoso, que dialoga com o tríptico Viagem I, II e III, que começa sem cor e termina com o azul em alusão à água. “Jogos do claro e escuro, da sombra sendo rebatida, e reflexos permeiam toda a mostra”, relata, acrescentando que a aproximação e o distanciamento também podem mudar o jeito de ver as obras, tanto os trabalhos históricos, com seus detalhes, como a obra da artista, que ao receber as cores vai “escondendo” a imagem.

O público passeia pela exposição, conhecendo o novo mundo retratado pelos historiadores do velho mundo, fazendo suas próprias conexões a partir de impressões do mundo atual, e ainda pode acompanhar virtualmente o catálogo da mostra, com todos os trabalhos e a biografia da artista. E o professor já adianta a próxima exposição, prevista para junho, Alice no País das Maravilhas, interativa e voltada ao público infantil.

Catálogo da mostra virtual traz todas as obras e biografia da artista – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A exposição São Queiroz: Litografia e Enigma fica em cartaz até o dia 28 de fevereiro, com visitação de segunda a sexta, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária), com acessibilidade para cadeirantes. A entrada é gratuita. Mais informações pelo telefone (11) 2648-0310 ou no site.

Fonte: Jornal da USP

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