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Eugênio Bucci fala sobre a luta da universidade contra as fake news

Texto por Luciana Alvarez

Como o ensino superior pode ajudar na eliminação das notícias mal-intencionadas é destaque desta entrevista com o docente de jornalismo

Professor de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e autor, mais recentemente, de Existe democracia sem verdade factual? (ed. Estação das Letras e Cores), Eugênio Bucci defende que as instituições de ensino superior devem ser um lugar do pensamento livre, em vez de um espaço de fabricação de mão de obra especializada. À Ensino Superior, ele explica por que acreditar em fake news é incompatível com o bom desempenho de qualquer profissional e aponta caminhos para uma formação crítica, que blinde os universitários contra as notícias fraudulentas.

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Mentiras não são um fenômeno recente. Nem mesmo notícias falsas são novidade. O que há de diferente no fenômeno atual das fake news?

A mentira sempre existiu na cultura, na linguagem. Como nós só podemos falar em humanidade a partir do surgimento da linguagem, pois são concomitantes, podemos dizer que desde que a humanidade é humanidade a mentira está posta. Um erro muito comum é estabelecer que as fake news são simplesmente mentiras. Elas são uma nova espécie de mentira, cuja principal característica é a falsificação da forma: elas se parecem com uma notícia. Antes de contar uma mentira, ela se apresenta como uma falsificação de forma.

As principais linhas de ação contra fake news no Brasil têm um dedo da universidade (foto: Fernando Rabello)

Por isso o senhor prefere traduzir o termo para o português com “notícias fraudulentas” e não “notícias falsas”?

Eu costumo fazer essa distinção sistematicamente. A expressão fake news do inglês contém um elemento de intencionalidade. Fake não é apenas algo falso, mas também falsificado. Em português, o falso pode soar como algo sem a intenção deliberada de fraudar. O termo notícia fraudulenta é uma sugestão do professor Carlos Eduardo Lins da Silva – e eu acompanho essa sugestão. Porque as fake news são mais do que notícias incorretas, ou mesmo mal intencionadas, coisa que sempre existiu no jornalismo. Fake news não vêm do jornalismo, não vêm de uma redação profissional.

Por que elas proliferam tanto na política atual?

A incidência da mentira na política é tão antiga quanto a própria política. Platão, em A República, já mencionava o emprego da mentira pelos governantes, considerava que era um dos vícios mais graves do ser humano. Mas mesmo ele admite que, em certas circunstâncias, a mentira pode ser empregada pelo governante para proteger a cidade. Portanto, a mentira não apenas faz parte da política, como às vezes os mais destacados pensadores veem a incidência da mentira como algo que, eventualmente, pode ter uma justificativa. Temos episódios de mentiras graves na história da política do Brasil e do mundo. Ela é uma frequentadora habitual da política, em geral com consequências danosas. As fake news são apenas um novo capítulo, uma nova espécie. Com a falsificação da forma, se passam por um relato jornalístico, por informação confiável – é assim que fazem seu estrago.

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Mas o jornalismo acaba também sendo acusado de produzir fake news.

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusa a imprensa de produzir fake news ele embaralha os sentidos e confunde a opinião pública. A intenção é desacreditar toda a imprensa, dizer que ela é uma usina de mentiras. Deixa no escuro o conceito de fake news. A imprensa às vezes produz notícias erradas, mas não são fake news. Por exemplo, a notícia de que Saddam Hussein fabricava armas de destruição em massa no Iraque é uma notícia errada, mas não é fake news. As fake news, que são uma das maiores ameaças para a democracia do nosso tempo, são produzidas por equipes clandestinas, por uma indústria ilegal, por pessoas que se orientam para promover uma crise de confiança nas instituições da democracia. Por isso, hoje no Brasil vemos manifestações contra o Supremo, o Congresso, a ciência, a imprensa. Muitas pessoas tomam por verdade essas propagandas mentirosas.

Ciência e universidade estão muito ligadas. As fake news atingem também o ensino superior?

A universidade no mundo inteiro, e especialmente no Brasil, é um dos celeiros da ciência. A ciência é feita diretamente pela universidade ou, às vezes, dependendo da área, em acordos com a universidade. Essa cultura baseada na estratégia das fake news de desacreditar todas as instituições responsáveis pela normalidade democrática ataca também a ciência e as universidades. Isso porque o ensino superior é um terreno em que impera a liberdade, a crítica e o direito de investigar qualquer assunto.

“Com a falsificação da forma, as fake news se passam por relatos jornalísticos”

Para os propagadores de fake news, a liberdade é um problema?

Sim. A cultura advinda das fake news é autoritária, não sabe conviver com a pluralidade. Não ataca o Judiciário por seus defeitos, mas por sua virtude, que é a independência. O Judiciário brasileiro merece críticas: é lento, é caro. Mas não é isso que incomoda essa cultura vinda do fanatismo das fake news. Da mesma forma, ataca o Legislativo porque é independente e representativo dos diversos segmentos da sociedade. O autoritarismo não tem nenhum problema com os incêndios na Amazônia; o problema é a ciência apontar que eles existem. Em vez de combater os incêndios, combate a ciência.

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Se tivéssemos uma população com mais anos de estudo, mais pessoas com acesso ao curso superior, a situação seria melhor?

Quanto mais educada a sociedade, menos ela é refém do fanatismo e das fraudes informativas. Mas há outra parte do problema, que é a cultura do ódio e da intolerância,. Quanto à primeira parte: a educação ajuda a proteger uma sociedade contra a mentira. Ao menos contra as mais banais, xucras, como dizer que a covid-19 é uma gripezinha. É uma mentira odienta, que expõe segmentos da população ao risco de morrer, que desestrutura a política pública da saúde, que traz consequências trágicas para um povo inteiro. Esse tipo de mentira prospera menos em  sociedades mais educadas, em que as pessoas tiveram uma formação um pouco mais elaborada. Com mais educação e uma educação com mais qualidade, nós vamos ter uma sociedade mais protegida contra esse tipo de mentira, como dizer que não há queimadas na Amazônia.

Mesmo pessoas com ensino superior, ou pós-graduadas, podem cair em fake news?

Essa é a outra face: pessoas bem formadas também embarcam na multiplicação e replicação de notícias fraudulentas. Fazem por quê? Porque existe uma escala de valores segundo a qual recorrer a uma mentira para eliminar o opositor pode valer a pena. A pessoa tem noção do que é verdade e mentira, mas acha que pode sacrificar a verdade quando está em disputa uma causa maior. Por exemplo, para enfraquecer a esquerda, que seria sinônimo de corrupção e estado ineficiente, vale mentir, porque o resultado seria melhor. Isso é uma tolice, uma visão ultrapassada. Mas, quando a sociedade está polarizada, a verdade é sacrificada pelos dois lados, que buscam enfraquecer o inimigo, aquele que deveria ser apenas um adversário ocasional.

Um dos papéis do ensino superior é formar bons profissionais para o mercado de trabalho. É possível ser um bom programador, um bom veterinário, um bom jurista e cair em fake news?

Não é possível. Um médico, se embarcar em fake news, não está sendo um bom médico. Temos estragos muito graves na área da saúde, às vezes financiados por grupos interessados em vender substâncias sem efeito comprovado. Vemos muito disso, de soluções que combateriam o coronavírus, ou a dengue. São fake news interessadas, com objetivo de gerar lucro. Um juiz que embasa uma decisão em fatos não comprovados, em crendices, tampouco está seguindo a lei e sendo um bom profissional. Citei dois exemplos, mas poderia citar 30. Nenhuma profissão se baseia em crendices para produzir o bem público. Claro, um religioso acredita em dogmas, mas, se ele é um profissional sério, ele não vai vender para as pessoas uma panaceia fraudulenta, ou a ilusão de que um discurso milagroso vai produzir curas para as doenças, ou para acabar com a dívida externa. Em qualquer setor, a crença em fake news entra em contradição com a qualidade do trabalho do profissional.

Conheço pessoalmente um engenheiro que não acredita em vacinas. Posso confiar nele como profissional da engenharia?

É uma pergunta difícil. Quanto a vacinas, não se trata de acreditar. O que nós sabemos até agora como sociedade é que as vacinações, apesar de seus problemas, conseguem eliminar de uma certa área a ocorrência de determinada enfermidade. Há evidências em amplíssima escala. Não é questão que eu resolva do ponto de vista individual. Eu não posso dizer: eu não obedeço a lei da gravidade, essa lei para mim não vale. Um engenheiro pode gostar de medicina alternativa, achar que o uso exagerado de fármacos vai enfraquecer o sistema imunológico. Mas, se ele leva a ponto de entrar em franca contradição com os fatos observados pela ciência, é um traço que inspira alguma desconfiança. Você chamaria esse engenheiro para construir um hospital?

Quanto maior a responsabilidade, parece ficar mais grave, certo?!

Alguém pode ser um bom presidente da república se nega as evidências do aquecimento global? Se expõe as populações indígenas ao risco de contágio pelo novo coronavírus, se convida apoiadores a promover grandes aglomerações durante uma pandemia, em negação às evidências da ciência? Essa é a pergunta. A ciência não é fonte de verdades irrefutáveis. Ela só progride porque abriga contestações. As hipóteses vão caindo porque as pesquisas buscam alternativas. A verdade nas ciências é sempre provisória – uma diferença importante do plano da religião, da espiritualidade. Não podemos ter pessoas responsáveis pelo destino de outras que neguem as evidências científicas que temos até agora. Os gregos antigos poderiam acreditar que a Terra era plana, embora 3 ou 4 séculos antes de Cristo, Eratóstenes já tenha calculado o raio da Terra. Hoje não dá mais para alguém que dirige a vida dos outros se fiar em coisas assim.

Como as instituições de ensino superior, em cursos de todas as áreas, podem ajudar no combate às fake news?

Na medida em que ensinem ciência, filosofia e arte. Não podemos abrir mão desse tripé, que contribui para que as pessoas consigam pensar, refletir, se informar e decidir com autonomia. Formar profissionais e pesquisadores é formar cidadãos autônomos, seres humanos livres. A liberdade, nessa perspectiva, só se conquista com a educação. A universidade precisa de forma inapelável ser ambiente em que artes, filosofia e ciências convivam. É um erro esperar que uma universidade apenas científica resolva essas questões, porque ela deve lidar também com a ética e a estética. Filosofia não é ciência. As artes não são nem ciência nem filosofia, mas são uma esfera em que posso pensar o mundo, entender a vida, dialogar com o que em mim é pulsional, o que é desejo. Tudo isso perpassado pela linguagem, pelas matemáticas. Sem essas dimensões, não há como formar seres críticos, alertas, solidários e conscientes.

As instituições de ensino devem encarar como sua responsabilidade a luta contra as fake news?

Sem dúvidas, tem que ser uma luta do setor. Mas quero ressaltar que já é uma luta que as instituições estão travando, para proteger a sociedade. As principais linhas de ação contra fake news no Brasil têm um dedo da universidade (ver subtítulo abaixo). O conhecimento para todos é a causa da instituição universidade – e não apenas das públicas. A marca de conhecimento público está em todas. Elas são um ambiente em que se pensa e se fala livremente, para que o conhecimento possa expandir suas fronteiras. Isso só é compatível com regimes democráticos que tendem a ser mais democráticos. Sem isso, voltaríamos ao obscurantismo, do qual ainda não nos libertamos completamente. O campus deve ser um lugar do pensamento, mais do que de fabricação de mão de obra especializada. A universidade pensa coisas que o mercado não imagina, que o estado não imagina. Ela existe para refletir e, portanto, é uma dimensão que não pode faltar numa sociedade livre.

No combate às fake news, o senhor costuma falar em “verdade factual”, em vez de simplesmente “verdade”. Por quê?

A verdade na religião não depende dos fatos, não é provada. A verdade da ordem da fé desafia o fiel a ir além do que ele pode entender, é algo que levaria o espírito a um porto além da razão. Isso conforma uma ideia de verdade. Mas essa verdade não cabe num argumento; é de outra extração. Quando eu falo em verdade na política, não é dessa verdade. Se alguém traz a verdade da religião para dentro da política, provavelmente está adulterando a verdade factual, aquela que vem da observação dos fatos. Existem pessoas morrendo de Covid-19, existe superlotação nos serviços de saúde. São fatos; não posso ir contra esses fatos. O morador de rua e o reitor de uma universidade têm condições de perceber e atestar os fatos com a mesma legitimidade. A política é uma discussão a partir desses fatos, a busca de, com opiniões diferentes, encontrar modos de superá-los.

Que consequências podemos ter com a negação da verdade factual?

Se nos afastamos da observação dos fatos e ingressamos nos fanatismos, estamos nos afastando do melhor da política e, junto dela, da própria democracia. E estarmos ingressando na construção do autoritarismo, com traços até de totalitarismo. Alguém pode dizer que os fatos são problemáticos, que há controvérsias sobre a exatidão dos fatos. Essa pessoa estará certa. Mas nInguém pode construir democracia totalmente à revelia dos fatos. Não posso na minha democracia revogar a lei da gravidade. Posso discutir a lei da gravidade, se é força magnética, ou se existem ondas gravitacionais por partículas, mas não há um espaço racional para alguém dizer que a lei da gravidade não existe. A mesma coisa vale para aquecimento global, para a pandemia. Alguém não pode dirigir um país e negar o aquecimento global, ou acreditar que a Amazônia vai muito bem, que ciência é coisa de comunista. Se eu perco a relação com as verdades factuais, não faço mais política: eu vou produzir algo que tende a ser totalitário. E, nesse cenário, a universidade não tem lugar – assim como não têm lugar a Justiça e a liberdade individual.

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Iniciativas anti-fakes

– Grupo de Estudos de Desinformação em Redes Sociais (GEDReS), coordenado por Leandro Tessler (Unicamp). Contato: tessler@unicamp.br ou 19 99327-8829.

– DAPP: Diretoria de Análise de Políticas Públicas. FGV, Rio. Contato: dapp@fgv.br ou dapp.fgv.br.

– Internet Fact-checking Network, que tem como vice-diretora a jornalista brasileira Cristinha Tardaguila (criadora da Agência Lupa no Brasil), que trabalha atualmente na Flórida. Sediado no Poynter Institute, o Fact-checking Network criou o maior programa do mundo de checagem de informações sobre a Covid-19, The #CoronaVirusFacts Alliance. Link: https://www.poynter.org/coronavirusfactsalliance/.

– Educamídia. https://educamidia.org.br/. Iniciativa do Instituto Palavra Aberta, em aliança com universidades, leva educação sobre mídia a professores de várias
partes do Brasil.

– O Projor, entidade criada por Alberto Dines, ainda no
século passado, em parceria com a Unicamp e, em especial, com o professor Carlos Vogt, mantém hoje dois programas fundamentais de combate às fake news.

– O primeiro é o Projeto Credibilidade (baseado no Trust Project), que envolve uma colaboração com o Programa de pós-graduação em mídia e tecnologia da Unesp. Endereço: https://www.credibilidade.org/#.

– O segundo é o Projeto Comprova (baseado no First Draft, de Harvard), que reúne diversos jornais e redações profissionais brasileiras numa ação conjunta
de denúncia e desmontagem de fake news. Endereço: https://projetocomprova.com.br/about/.

– Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), coordenado pelo professor Pablo Ortellado, da USP.

Fonte: Revista Ensino Superior

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