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‘Eu acredito na ressocialização e no poder da leitura’, diz jovem que criou biblioteca em presídio

Por José Marcelo*, G1 PI

A biblioteca recebe doações de livros de autoajuda, literatura brasileira e estrangeira, e dicionários — Foto: Foto: José Marcelo/G1

Mais que um desafio, ressocializar é um processo para que detentos possam sair do sistema prisional e continuar fora dele. É assim que a piauiense Juliana Santos acredita. No Dia Nacional do Livro, o projeto criado por ela mostra como é possível mudar a vida de dezenas de internos da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), em Timon, cidade vizinha a Teresina, através da leitura.

A Biblioteca Prisional surgiu a partir de um projeto de Trabalho de Conclusão de Curso há aproximadamente um ano atrás, enquanto a responsável pela criação ainda era estagiária do centro. Segundo ela, o desejo de ter o espaço de leitura na instituição a torna grande como ser humano.

Juliana é formada em Biblioteconomia e escolheu a profissão ajudar os menos desfavorecidos. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

“Sou formada em biblioteconomia e sempre tive a vontade de trabalhar com preso. Ainda na faculdade, no 7º período, eu comecei a fazer o projeto do meu TCC baseado nessa causa. Desde quando iniciei aqui, ainda como estagiária, que eu já pedia doação de livros, porque eu via que aqui tinha essa necessidade”, disse bibliotecária.

A biblioteca tem pouco mais de dois meses, mas já recebia doações desde novembro do ano passado. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

“Eu me sinto realizada como pessoa, com eles, com a biblioteca, com tudo. É uma ação que dá certo. É só a gente acreditar. Eu acredito na ressocialização e no poder da leitura”, completou Juliana.

Para Juliana, a biblioteca prisional não é igual às outras, ela difere na captação do público alvo. A bibliotecária acredita que o afago em despertar o interesse dos ‘tratandos’ (como ela chama os detentos) é um método primordial.

“É diferente de uma biblioteca universitária, por exemplo, que os estudantes já frequentam a biblioteca devido suas próprias necessidades, sem precisar de apelo e nem marketing e já a prisional não, nós precisamos cativá-los. Alguns aqui nunca tiveram contato com um livro, já outros são mais espertos. Eu sempre digo que a gente tem cativar para poder ter empréstimo. É tudo novo pra eles”, contou Juliana.

Alguns dos tratando farão provas do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) e do ENEM. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

Mesmo com tanto carinho e cuidado na hora de convencer os ‘tratando’ a lerem, ainda há muita resistência por parte deles. A jovem revelou que tem que ‘se virar nos 30’ para conseguir envolvê-los.

“Alguns ainda resistem e dizem ‘não professora, isso não dá pra minha cabeça’. Então, além de bibliotecária, você tem que ser psicóloga, assistente social, tanta coisa que a gente tem que ser para convencer eles a lerem os livros”, confessou.

Todos os livros são distribuídos e identificados por estilos, nas estantes e limpo todos dias pelos ‘tratando’. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

O estado do Maranhão sancionou a lei de nº 10.606/ 2017, que permite a remição de pena pela leitura, na tentativa de reinserir o custodiado na sociedade e permitir que eles tenham direito a cultura, conhecimento e a educação.

“Baseado na lei da remissão de pena por leitura, a cada livro lido, ele pode remir até quatro dias de pena. E não é só ler um livro. Ao término, ele vai fazer uma resenha do livro. É um trabalho devagar mesmo”, falou Juliana.

Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC). — Foto: Foto: José Marcelo/G1

A APAC é composta por 50 ‘tratando’ adultos e eles já saem do presídio comum com suas sentenças formuladas. A instituição não dispõe de policiamento, nem tão pouco armamento e só 3% dos que saem da APAC, voltam para marginalidade, segundo a Diretora da APAC, Maria Aparecida.

“Eles vêm pra cá já sabendo quanto tempo irão ficar. E pra vir para a APAC, precisam aceitar os métodos de disciplina e responsabilidade da instituição. A rotina dele é muita preenchida. Eles fazem laborterapia, estudam, fazem oficinas, lêem, enfim, quase não ficam ociosos. Aqui, é um local que ressocializa”, enfatizou a diretora.
O centro de recuperação é composto por um regime fechado, semiaberto, e de trabalho externo. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

O centro de recuperação é composto por um regime fechado, onde eles ficam soltos para realizar suas atividades e trabalho dentro do presídio.

“Eles respeitam cada espaço. Todos têm consciência do que fizeram lá fora e isso é trabalhado a cada atividade deles. Existe uma frase do escritor Valdecir Cavalcante que diz ‘Todos nós somos recuperando’. Então, aqui, ninguém é tratado como preso e sim como recuperando. Todos são tratados pelo nome e não é permitido apelidos. Cada um tem seu crachá. É tudo muito disciplinado. Na hora da refeição, por exemplo, é chamado por mesa, ‘mesa quatro, aí a mesa quatro vem’. Eu vivo isso todos os dias”, revelou Juliana.

A APAC não dispõe de policiamento e nem armamento. Só 3% dos que saem da APAC, voltam pra marginalidade, segundo a organização. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

De acordo com a direção da APAC, o sistema chegou como forma de tentar mudar a vida daqueles que foram vítimas da sociedade e que se envolveram com a marginalidade.

“O método surgiu não como uma solução e sim como uma alternativa. Nós temos um recuperando, o Antônio Erbert, que deu muito trabalho no início, inclusive estávamos pensando em retornar ele pra o sistema prisional comum, pela questão da falta de disciplina e de até ele mesmo não se ajudar. Quando a professora Juliana surgiu, não sei o que deu nele que mudou completamente, nem remédio controlado ele tomou mais. E hoje ele é outro homem. Até auxilia a professora na biblioteca”, confessou Maria Aparecida, diretora do centro.

Os ensinamentos, disciplina e respeito são espalhados por todo o centro em forma de cartaz. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

O Antônio Ebert não deixa mentir. Com o estudo e a leitura, o centro tem dado para ele esperança de uma vida melhor e que aprendeu o significado da união, ajudando o próximo.

“Vi que eu tinha que dá um apoio aos colegas que estavam fazendo a limpeza e a pintura da biblioteca e cada coisa que eu via que estava bagunçado, eu ajudava a organizar. Eu nunca estudei na minha vida e só vivia fazendo coisa errada e a biblioteca pra mim é algo que não sei explicar, só me sinto realizado. Agora eu tenho noção da união dos meus colegas. Mudou a minha vida”, disse o tratando Antônio Herbert.

A cada livro emprestado é anotado o nome do livro, autor, nome do tratando, data de empréstimo e de devolução. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

O ‘tratando’ tem maior zelo pela biblioteca. Ele é o responsável pelos empréstimos dos livros na ausência da organização. “Quando não estou, ele fica sempre controlando quem está demorando com o livro, quem pede emprestado e quem entrega. Ele limpa todos os dias e não é permitido entrar de chinelo na biblioteca. É mesmo um zelo muito grande”, disse Juliana.

A APAC tem 50 ‘tratando’ adultos e todos saem do presídio comum com suas sentenças formuladas para a associação. — Foto: Foto: José Marcelo/G1

Os tipos de livros que a APAC recebe são de autoajuda, literatura brasileira e estrangeira, dicionários e outros ligados ao tema. São livros bem específicos e todo acervo é mantido por doações.

“Não recebemos livros didáticos. Até temos alguns didáticos, mas é por necessidades deles, porque alguns vão fazer o Enem e o Encceja, inclusive eles têm aulas até o sexto ano do Ensino Fundamental”, finalizou a bibliotecária Juliana Santos.

*José Marcelo, estagiário sob supervisão de Catarina Costa

Fonte: G1 Piauí

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