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Entrevista: Sarita Albagli fala de ciência aberta, informação e pandemia

Texto: Carolina Cunha

Divulgação

Sarita Albagli é pesquisadora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação/Ibict-UFRJ.  Ela também coordena o Programa de Pesquisa em Ciência Aberta e Inovação Cidadã com o apoio do CNPq e da Faperj.

Na entrevista ao site do Ibict, a professora reflete sobre a ciência em tempos de pandemia do Coronavírus. Ela também avalia o papel da informação e a abertura e o compartilhamento de dados nesse contexto.

Como a professora avalia este momento de crise e a relação entre ciência e sociedade?

Sarita Albagli – Antes de eclodir esta crise relacionada à emergência da pandemia do novo Coronavírus e da Covid-19, já estávamos vivendo um momento de grande inflexão e reflexão na relação entre ciência e sociedade. Assim, se a ciência ganhou um status de políticas de Estado e de apoio da sociedade, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, nos tempos mais recentes passou a existir um espaço para a difusão de ideários negacionistas dos resultados e do papel do conhecimento científico. Por exemplo, os movimentos antivacina, o negacionismo da questão climática e ideários como o terraplanismo. Então, esse momento coincidiu também, no mundo todo, com uma diminuição do prestígio e dos recursos de apoio à atividade científica. Portanto, já existia um movimento por parte da ciência de repensar a sua relação com a sociedade e de se indagar o que motivaria esse tipo de questionamento.

O que este momento nos revela?

Sarita Albagli – A pandemia vai trazer novos ingredientes. Há muita discussão comparando por que a crise climática, que é também planetária, que traz consequências sobre as diferentes formas de vida no planeta, e que já vem causando uma série de desastres e extremidades climáticas importantes, não mobilizou com tanta força esta rediscussão do papel da ciência como hoje a gente vê com a questão da pandemia. Uma das coisas que se diz é que a ameaça à vida pela pandemia está muito mais palpável e visível, ela atinge a todos. Claro que a gente sabe que os impactos são desiguais, mas de algum modo, sabemos que todos serão afetados pela pandemia. Ficou evidente que a relação entre ciência e sociedade precisa ser repactuada, no sentido de que há um reconhecimento de que as nossas decisões, em âmbito das políticas públicas, em âmbito individual e dos nossos comportamentos, de algum modo elas precisam estar cientificamente embasadas. Por outro lado, a ciência precisa de novas formas de comunicar isso para a sociedade e de mobilizar, e também de ouvir muito o que a sociedade tem a dizer e a contribuir. Tanto na contribuição da sociedade em apoiar a atividade científica, não só financeiramente, mas também com seus dados, conhecimentos e questões, como na ação da sociedade para a produção de novos artefatos que estão sendo importantes para o enfrentamento da pandemia. Então esse momento nos revela a necessidade dessa repactuação e de estabelecer novas linguagens, formas e meios de comunicação entre a ciência e a sociedade, não só uma via única, da ciência para a sociedade, mas também da sociedade na direção da ciência.

Qual seria o papel da informação no combate à pandemia do Coronavírus?

Sarita Albagli – A informação é uma forma de registro e circulação de conhecimentos, subjetividades, culturas, entre outros. A informação sempre foi crucial no sentido de fazer circular conhecimentos que poderiam ficar encerrados nas pessoas, nos especialistas, cientistas e laboratórios.  Hoje temos a possiblidade, com as novas bases técnicas e tecnológicas, de fazer isso de uma maneira muito mais ampla. A primeira coisa então é que a informação hoje como forma de registro e transporte de conhecimento sobre a Covid-19 é muito importante. Mas, a gente também precisa entender que apenas a disponibilização da informação não move a ação. Outros elementos são necessários.

A segunda coisa é que fica evidente que a sociedade precisa também se formar, se capacitar a ter uma perspectiva crítica em filtrar e em utilizar essa informação que está disponível. Existe a informação de boa qualidade, aquela que se fundamenta nos fatos, questões objetivas e na ciência. Mas, também existe uma informação de má qualidade, aquela que é baseada em pouca fundamentação ou que é propositalmente desvirtuada para ser usada como forma de manipulação de opinião, como é o caso das fake news e coisas desse tipo. Então, o que a gente chama das competências críticas da informação são hoje muito importantes porque existe muita informação de má qualidade ou manipulada. Sempre existiu esse fenômeno, mas considerando hoje as formas de circulação mais amplas, isso também faz com que as más informações também possam circular mais amplamente. Se a gente tem uma democratização no acesso à informação, a gente também precisa democratizar as formas e as competências para lidar, filtrar e fazer o bom uso dessa informação.

No contexto da pandemia, editores internacionais pagos liberaram o acesso a seus conteúdos científicos de forma temporária. De que forma a ciência aberta (e as dimensões desse guarda-chuva) podem colaborar na crise?

Sarita Albagli – Estamos aqui falando da comunicação científica, que afeta a circulação de conhecimento no âmbito das comunidades científicas. A gente sabe que a importância da abertura das publicações científicas não é uma questão nova. Ela não surge com a pandemia ou com outros momentos críticos de emergência em saúde. Ela esteve na origem do movimento mais amplo pela ciência aberta. A ciência aberta parte desse movimento de abertura da literatura científica, mas esses momentos de crise vão na verdade reforçar uma coisa que o movimento já vem dizendo há muito tempo: a ideia de que a ciência precisa ser compartilhada, aberta, para que ela possa avançar, para evitar redundâncias, aumentar as possibilidades de filtragens de conhecimentos científicos relevantes e aumentar as possibilidades de cooperação. Esses momentos críticos acentuam a urgência desta abertura de conteúdo, mas podemos dizer também que, se esses conteúdos já tivessem sido abertos antes da crise, estaríamos em uma situação muito mais vantajosa para o enfrentamento.

Reforça também a ideia de que não basta simplesmente abrir o artigo, aquele produto final. Os dados que embasam esses resultados e que são produzidos, consultados e usados ao longo da pesquisa científica são fundamentais. A gente sabe que muitos dados que são gerados numa pesquisa, com uma finalidade, se eles estão livremente acessíveis, podem ser também reutilizados, não só com a mesma finalidade ou para replicar os experimentos, mas também para outros fins que não tenham sido pensados originalmente. Sabemos que os dados de pesquisas de outras doenças, que não a Covid-19, são importantes porque podem ser aproveitados também no caso do tratamento da Covid-19. Isso mostra a importância e o potencial de um ambiente mais geral de abertura da ciência.

O que a gente tem a dizer é que não podemos nos limitar a esses momentos, como foi também o caso das situações de emergência do Ebola, do Zika Vírus, do H1N1, em que houve uma pressão para abrir os dados. A cada crise dessas, a gente vai aprendendo e criando novas formas para fazer isso. Essa abertura precisa ser contínua, ela não pode ser cíclica. Porque não existe tempo. Apesar dela ser positiva, esse conhecimento já poderia estar muito mais avançado. Quem estuda as epidemias e infectologias diz que, embora ninguém pudesse prever esta pandemia em sua extensão, já se apontava que os vírus são os nossos grandes predadores, por uma série de motivos que têm a ver com a forma como as nossas sociedades vêm se construindo, o que tem tudo a ver com a discussão das causas das grandes crises ambientais planetárias.

Mas é preciso garantir as condições para que a abertura da ciência se dê de forma equânime, que não seja apropriada privadamente por grupos que se aproveitam de maneira oportunista.

Existe alguma iniciativa na ciência ou no acesso à informação que te chamou a atenção?

Sarita Albagli – A gente vê, por exemplo, na questão do sequenciamento genético do vírus, como a abertura de dados é fundamental. E não é uma abertura que deveria se restringir a grupos de pesquisa que já colaboram normalmente. Então não basta compartilhar entre pequenos grupos específicos, mas quanto mais abrir, mais grupos de pesquisa em todas as partes do mundo podem contribuir para o avanço desse conhecimento, nas suas especificidades. Do mesmo modo, outra vertente da ciência aberta, que são as ferramentas científicas abertas, os equipamentos abertos, a questão das licenças abertas também se revelam importantes nesta pandemia, quando vemos a necessidade de acesso à informação para a produção a baixo custo e em larga escala de equipamentos de proteção individual como as máscaras e os respiradores, mas também equipamentos que são importantes para o próprio desenvolvimento da pesquisa científica, que tem a ver com os Grids, a E-Science, as grandes produções e os Big Data da ciência. As possibilidades de você ter acesso aos códigos de produção e licenças também estão se revelando importantes.

Também posso citar a chamada ciência cidadã, que não é só promover a contribuição de não-cientistas para o avanço do conhecimento científico, é também a forma de reforçar a comunicação entre ciência e sociedade. A gente sabe que as pessoas que estão tendo sintomas, que estão reagindo e vivenciado a recuperação em relação ao vírus, as diferentes formas como o vírus está se expressando em diferentes localidades, podem contribuir com suas experiências. Esses dados produzidos pelos cidadãos podem ser registrados e circulados amplamente, isso é muito importante do ponto de vista da chamada ciência cidadã. Também do ponto de vista da produção de equipamentos, a gente tem visto várias iniciativas de conexão entre institutos de pesquisas e as chamadas comunidades makers, aqueles que desenvolvem espaços de inovação fora dos espaços formais e reconhecidos de produção científicas, mas que possuem um papel crucial de envolver outros grupos que não têm assento ou não encontram oportunidades nos espaços formais. Essa relação entre essas duas pontas é muito importante. Vemos no mundo inteiro pequenas inovações sociais que estão sendo efetivas para o enfrentamento dessa pandemia.

Existe uma necessidade de gerar dados rápidos na ciência. Como a professora avalia a publicação de preprints nesse contexto?

Sarita Albagli – Eu citei aqui a questão dos dados rápidos e de como isso é importante. A publicação de preprints é uma coisa que antecede o próprio movimento pelo acesso aberto. Começou com os físicos e biólogos e depois alcançou outras áreas da ciência, a partir de uma necessidade que revela que o processo de publicação tradicional de artigos científicos pode ser muito moroso. A gente vê que, com os novos meios técnicos, não se justifica toda essa morosidade. Hoje está também em discussão a forma de revisão entre pares. Com os preprints, você tem a possibilidade de ampliar muito as contribuições que podem existir quando você divulga a pesquisa em um primeiro momento.  Isso pode gerar apontamentos e novas contribuições. até se transformar em um novo artigo. Portanto, os preprints não representam uma coisa nova, mas que já vinha ganhando força com o movimento de acesso aberto e o movimento mais amplo da ciência abertaNo Brasil, por exemplo, o Scielo já vem investindo nisso. Agora o Ibict junto com a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) também está investindo no acesso aos preprints. Isso é muito importante para agilizar o processo de comunicação científica, mas sempre pensando que os preprints são espaços de autonomia dos cientistas para a publicação antes de fazer a submissão a um periódico.  Acho que é muito importante resguardar esses espaços de autonomia e ao mesmo tempo de visibilização rápida. Ao mesmo tempo entender os preprints como um momento que precede e ao mesmo tempo impulsiona a avaliação pelos pares, que é também fundamental. Assim como o fast-track – que é fazer com que – mesmo nos pós-prints, já no processo de publicação usual, o ciclo da comunicação científica seja mais encurtado para que esses resultados de pesquisa sejam rapidamente compartilhados.

Qual é a sua expectativa para o pós-crise? Acredita em alguma mudança nos desafios informacionais e da ciência? O que precisamos para avançar?

Sarita Albagli – Eu acho que a Covid-19 realmente nos traz um momento de inflexão importante e de aprendizados de várias ordens. Quando a gente fala de expectativa, fala primeiro no plano do desejo. Eu gostaria de ver que nós saíssemos disso tudo engrandecidos. Reforçando valores e práticas de colaboração, de solidariedade, de reconhecimento que os vários atores sociais têm um papel importante no enfrentamento desta pandemia: as políticas públicas, a sociedade civil e a responsabilidade social do setor privado. A gente tem aí uma série de elementos. Iremos provavelmente sair daí sofridos pelas perdas que estamos vivenciando, mas podemos sair também fortalecidos. Trabalhamos com forças positivas que já estão aí, que podem vir a reforçar e renovar os avanços. Mas, também existem outras forças negativas que estão aí, vivas, como o fortalecimento das xenofobias, o uso da discussão científica para disputas ideológicas e políticas que não servem ao conjunto da sociedade e do interesse público, os nacionalismos exacerbados e o aumento da precarização social. A gente tem tudo isso aí, como uma cesta de possibilidades. Eu acho que essas coisas vão de algum modo continuar presentes, mas não podemos ficar passivos em relação a esses vários cenários. Portanto, voltando ao primeiro ponto da entrevista, os desafios da ciência, os desafios informacionais partem do reconhecimento de que essa agenda que a gente já vinha colocando em favor da abertura da ciência em todas as vertentes, não só do acesso, mas na produção, nos dados, nas licenças, na participação cidadã, ela precisa ser reforçada, ampliada e continuada para além dos momentos de crise. Porque outras crises vão ocorrer e a gente já viu que essa relação entre ciência e sociedade tem uma centralidade. Portanto, temos que investir nessa relação mais democrática e de abertura da ciência.

Carolina Cunha

Núcleo de Comunicação Social

Fonte: Ibict

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