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Entre ler e curar a partir de outras abordagens

A Roda de Biblioterapia, aberta ao público, que acontece na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, promovida pela associação de servidores da casa (FOTO: FABIANE DE PAULA)

A literatura aparece como recurso terapêutico através de uma premissa bem simples: pela leitura, a mensagem toca o leitor e em suas questões existenciais. Outras possibilidades de se explorar a linguagem com finalidades terapêuticas ainda são um campo (bem) aberto para a Psicologia, mas experiências afins de outras áreas têm consolidado a atividade.

É o caso das rodas de “Biblioterapia”. Formulada a partir de estudos da Biblioteconomia, a atividade reúne grupos de pessoas dispostas a encontrar sentido entre o que se lê e a própria sensibilidade.

No Ceará, a Associação dos Servidores da Assembleia Legislativa do Estado (Assalce) promove uma roda de Biblioterapia, aberta ao público, desde outubro de 2017. A atividade acontece atrelada à “Estante Assalce – Ler Cuidando do Ser com Biblioterapia”. Localizada na Biblioteca César Cals da Assembleia (Dionísio Torres), a estante reúne “livros-remédio” – publicações clássicas que tocam em questões existenciais.

Pensada para acolher questões dos servidores da Assembleia Legislativa (AL-CE), a roda acontece ora na biblioteca, ora na sede da Assalce.

“O objetivo é trabalhar com clássicos. Um clássico não é assim por acaso, ele trabalha muito as relações humanas. O tempo valida o clássico. Não é que o contemporâneo não vai ser abordado pela Roda. Mas queremos esse ‘algo mais’ para ajudar a provocar uma catarse (entre os participantes)”, reflete Jacqueline Assunção, servidora pública e idealizadora do projeto.

Durante a dinâmica da Roda de Biblioterapia, os mediadores mostram fragmentos do livro em questão, e apresentam a “poética” da obra. Diferente de um clube de leitura, não é necessário ler o livro na íntegra. “A biblioterapeuta não é como uma terapeuta. O grande terapeuta, no caso, é o livro. Nas rodas a gente oferece a poética e cada um tem sua interpretação. Não há o que se falar em debate, há de se falar em composição”, explica a idealizadora.

Jacqueline observa que a Estante Assalce abriga um exemplar de todo livro que passa pela Roda. “O servidor, que não pode ir à roda, pode pegar o livro na estante depois”, situa.

Para as próximas edições do encontro, a servidora conta que deve abordar questões da vida contemporânea e da psicanálise, como o suicídio. “Quando trago esse tema, ou o da própria morte, não é querendo trazer algo fúnebre, mas uma coisa real. Pra gente se apropriar desse assunto com mais clareza”, esclarece Jacqueline.

A servidora reforça que a intenção da Roda de Biblioterapia é estimular uma espécie de “profilaxia da alma”, sem a pretensão de formular uma crítica literária e falar de “alta literatura”, escolas e estéticas. “Importa aqui a mensagem que o livro traz. E o que vai ser evocado em cada ouvinte”, sintetiza.

Viés alternativo

Os psicólogos fazem uma abordagem mais recente, em relação à Biblioteconomia, sobre a literatura como recurso terapêutico. Segundo a psicóloga Nara Barreto, a Biblioterapia já é um “link antigo” dos bibliotecários. “Eles estão mais à frente do que os psicólogos, nesse aspecto”, frisa ela.

Nara e a sócia Luiza Braga, também psicóloga, promoveram há uma semana, a última edição da Roda de Conversa “Reflexões sobre a literatura como um recurso terapêutico”. O papo aconteceu no Núcleo Veredas Psicológicas (Meireles) e, diferente do Clube de Leitura organizado pelas psicólogas (exclusivo para profissionais e estudantes da área), a atividade é aberta ao público mediante inscrição paga.

“A roda funciona como um grupo de leitura, que as pessoas falam basicamente de quais aspectos da obra (em questão) tocaram elas. Assim como a condição de qualquer grupo, é delicado falar das pessoas através dos livros. Então é importante investir nessa formação da biblioterapia enquanto teoria, quanto na formação dos grupos”, observa Nara Barreto.

Dentre as perguntas da atividade, as psicólogas questionam: “Até onde a ficção pode ajudar a compreender e manejar a realidade?”. Nara conta que, dentre seus pacientes, ela costuma indicar leituras “sem delongas”. E também recebe indicações de volta.

“Eles levam livros pra terapia, personagens para a terapia. Além disso, tem outro aspecto valioso: (a leitura) tira o paciente da solidão que ele está vivendo. E quando ele lê, vê a superação do conflito”, reflete a psicóloga.

Na dinâmica da Roda de Conversa, é comum que apareçam questões pessoais dos participantes. Como sinaliza a ética da psicologia, a situação é de sigilo e não é possível se fazer algum registro de imagem ou texto, a fim de preservar a intimidade do grupo.

Para ela e Luiza Braga, unir literatura e psicologia é um processo comum à formação das duas. Nara enfatiza que o hábito da leitura, em si, já traz um potencial curativo e transformador. “A literatura pra gente sempre foi uma paixão especial, e que tem um processo muito semelhante à psicologia. Como recurso terapêutico, como espelhamento dentro de um contexto clínico, como expansão dos limites do ser, e de enxergar a si mesmo”, reflete.

Pelo corpo sensível 

Raimundo Severo Júnior: “O corpo é muito paradoxal na nossa cultura, porque ocupa um lugar de destaque e, ao mesmo tempo, é um lugar de muita vergonha na experiência de cada um”

O psiquiatra, arteterapeuta e dançarino Raimundo Severo Júnior, 55, começou a encarar a dança como uma terapia ainda nos anos 1980. Depois de conhecer a biodança, Severo passou por hospitais e pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), e introduziu uma terapia corporal junto aos pacientes.

Mesmo sem haver a intenção explícita de adentrar um processo terapêutico, ele descobriu, depois de começar a estudar dança contemporânea, nos anos 90, que poderia desenvolver uma “terceira coisa”, a dançaterapia.

“Comecei a perceber que algumas práticas artísticas, realizadas em determinadas condições, têm um potencial terapêutico em si”, observa Severo.

Dentre várias frentes de atuação, hoje ele facilita grupos de dançaterapia e coordena uma formação na atividade (pelo Instituto Aquilae). O terapeuta coloca que um ponto crucial na consolidação da dança como um processo terapêutico – uma perspectiva ainda rara – é fazer o paciente se desvencilhar da ideia de um “corpo ideal”, na forma, e descobrir um “corpo sensível”.

“O corpo é muito paradoxal na nossa cultura, porque ocupa um lugar de destaque e, ao mesmo tempo, é um lugar de muita vergonha na experiência de cada um. (Antes de cada sessão) faço uns 20, 30 minutos de educação somática (do corpo), com exercícios que ajudam cada um perceber melhor seu corpo”, revela. O terapeuta reflete que um corpo “idealizado” não necessariamente “anda junto” de uma vivência prazerosa. Trabalhando com vídeos para avaliar os pacientes a partir de seus movimentos, Severo conta como é comum as pessoas ficarem com vergonha ao se ver na tela, mesmo que tenham experimentado boas sensações com a dança.

“Eu mesmo passei muito tempo me filmando enquanto dançava, pra ter coragem de propor isso aos outros. Não achava ético propor até eu perder a vergonha. Tento tirar um pouco a gravidade disso, dizendo ‘vê-lo se movimentando só é novidade pra você. Todo mundo sabe como você se move'”, observa.

Severo compartilha que a reação dos pacientes ao se verem dançando são diversas. Há quem ache que se soltou demais, mas acha, no vídeo, “que está muito amarrado”. N’outro sentido, pessoas que se julgavam “amarradas” se enxergam mais livres no registro.

Fugaz

Facilitador da formação em arteterapia, Severo expõe que o trunfo das artes visuais, nesse contexto, é que os resultados são concretos, as figuras persistem no tempo. Quanto à dança, o trabalho “é fugaz, e pode até persistir na forma do vídeo, mas não tem a mesma riqueza. Nas artes visuais é mais fácil perceber qual é a poética do paciente. Na dança, ainda discutimos muito sobre isso”, admite o terapeuta.

Indagado sobre qual seria o espaço da dança no cenário da arteterapia hoje, Severo pondera a respeito da separação do campo terapêutico “por linguagens”. “Prefiro pensar que não é preciso reservar o termo ‘arteterapia’ para as artes visuais, porque hoje em dia as fronteiras se borraram muito, são muito tênues”, complementa.

Severo pontua a necessidade do trabalho em dançaterapia ainda ganhar espaço. No Brasil, foram pioneiros da atividade, cita ele, Klauss e Angela Vianna. O casal desenvolveu um trabalho de autoconhecimento e apropriação do corpo.

O terapeuta força como, na dançaterapia, o corpo do próprio paciente é a matéria de expressão criativa. A partir disso, ele justifica a menor adesão ao processo, por conta das inibições com o corpo. “Quando as pessoas começam a praticar, normalmente elas se surpreendem como se sentem à vontade com o corpo delas”, conclui.

O arteterapeuta revela um prazer em trabalhar na interface (entre arte e terapia) e mantém um frescor na direção de atender os pacientes e formar novos arteterapeutas. Embora tenha uma formação acadêmica “convencional”, como psiquiatra (e ele ainda atende, também, medicando), ele coloca que sua questão foi ampliar os potenciais de ajuda e de cura das pessoas. “Não acredito que as condições clínicas precisem só de soluções clínicas. As pessoas da área de psiquiatra e psicologia precisam conhecer intervenções de outra natureza, que toquem em questões existenciais”, atenta.

Fonte: Diário do Nordeste

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