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Em SP, filhos tentam negociar biblioteca de Líbano Calil, com títulos valiosos

Por Agência Estado

Uma luz baixa, a mesa de estudos, a velha máquina de escrever, as prateleiras abertas para arejar e o cheiro de livro usado. Quase tudo naquele espaço remete à presença do patriarca, Líbano Calil, falecido em 1993, e responsável pela construção de um tesouro guardado no fundo de uma casa, no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo: uma biblioteca particular. O lugar tem cerca de 15 mil exemplares raros, uma coleção comparável (em termos de qualidade) às bibliotecas de José Mindlin (hoje na Cidade Universitária) e da família Safra.

Desde o falecimento do pai, os filhos de Calil, Maristela e Líbano (conhecido como Libaninho) tentam vender a biblioteca do pai. À princípio, a notícia da venda circulava apenas entre um seleto grupo de especialistas. Mas, desde janeiro do ano passado, o anúncio foi postado na página do sebo da família, a Livraria Calil Antiquária.

Os irmãos já não falam mais em preço – pois temem pela própria segurança. Mas, claramente, são herdeiros de um patrimônio literário valioso. “Por favor, não coloque valores. Hoje em dia, precisamos nos preocupar com esse tipo de coisa”, pediu Maristela. Mas, para se ter uma ideia por alto, alguns exemplares da biblioteca podem custar mais de US$ 10 mil (R$ 38,6 mil) no mercado de livros raros. Maristela e Líbano já tentaram vender para universidades e governos – eles não pretendem desmembrar a biblioteca ou comercializar exemplares avulsos.

Na biblioteca, é possível encontrar todas as primeiras edições da obra de Machado de Assis; a primeira edição autografada por Guimarães Rosa de Grande Sertão Veredas; muitas obras de autores modernistas (sempre em 1.ª edição), como o Pau Brasil (Oswald de Andrade) e da revista Klaxon, editada entre 1922 e 1923 (marco para o modernismo). Além disso, estão lá, e em bom estado, obras como Arte de Furtar, Espelho de Enganos, e Theatro de Verdades, do Padre Antônio Vieira, em uma edição de 1744; e Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens ou Discursos Morais Sobre os Efeitos da Vaidade, de Matias Aires, em uma edição de 1752. Todo o acervo é autenticado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Paixão

O patriarca, de origem libanesa e nascido na cidade de Catiguá, próxima a Catanduva, desenvolveu sua paixão pelos livros desde muito cedo. Quando criança, guardava o dinheiro que ganhava para comprar doces, ir ao cinema ou ao teatro para gastar com livros. Pensou em trabalhar com médico, mas uma lesão ocular fez com que deixasse essa vocação para trás. Começou com um pequeno sebo próximo à Catedral da Sé – tendo o cuidado de separar quais eram os livros do sebo e quais seriam os livros de sua biblioteca.

Desde 1945, a Livraria Calil Antiquária funciona no 9.º andar do número 88 da Rua Barão de Itapetininga, no centro da cidade. O local é um labirinto, bem organizado, de livros – são quase 450 mil títulos. Por lá, já foram gravadas propagandas de TV e uma cena do filme sobre a vida de Carlos Marighella, dirigido por Wagner Moura, mas ainda não lançado no Brasil.

É na livraria que a filha de Calil, Maristela, passa todos os dias. Atende clientes eventuais, faz negócios pela internet e ouve música clássica. Por ter herdado a paixão do pai, trata os livros como seres vivos e uma verdadeira fonte de prazer e sabedoria. Não raro, atua para comprar bibliotecas particulares. “Tento vender a do meu pai para que mais gente tenha acesso ao seu acervo, mas, ao mesmo tempo, vou atrás de famílias que estão vendendo as suas bibliotecas, para que não se percam ou estraguem.”

A mesma paixão está no DNA do irmão de Maristela, o Libaninho. Apesar do desejo de vender a biblioteca do pai, ele diz já saber o que fazer com o dinheiro de uma futura venda. “Olha, vou te contar, acho que eu investiria na criação de uma nova biblioteca, como essa aqui do meu pai.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: www.folhadaregiao.com.br

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